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Nobel de Literatura de 1961 cria história de tolerância na Iugoslávia

Narrador de 'Ponte sobre o Drina' é um 'nós' inclusivo, capaz de incorporar todas as etnias e credos

Ponte sobre o Drina

  • Quando publicado em 1945
  • Preço R$ 74, 90 (448 págs.)
  • Autor Ivo Andrić
  • Editora Grua Livros

“Ponte sobre o Drina”, de 1945, foi uma obra decisiva para que o historiador, poeta, romancista e diplomata Ivo Andric recebesse o prêmio Nobel de Literatura em 1961, o único da antiga Iugoslávia. Podemos ler a obra agora, traduzida diretamente do sérvio por Aleksandar Jovanovic.

De família católica croata, Andric nasceu na atual Bósnia e Herzegovina, então sob domínio do Império Austro-Húngaro, e foi criado em Vichegrad, cidade da Bósnia próxima da tríplice fronteira com Sérvia e Montenegro. Exatamente ali foi construída, no século 16, a bela e sólida ponte sobre o rio Drina.

Em torno dela, o autor estrutura toda a paisagem física, humana e espiritual da região, tratada sempre com discrição de inventariante familiar. Delicadamente, costura um conjunto de leis tácitas, consuetudinárias, das quais a principal, sem dúvida, é a da tolerância no convívio de diferentes etnias e credos, como cristãos sérvios, turcos muçulmanos, judeus asquenazes, ciganos montenegrinos, entre outros.

Bósnios muçulmanos jogam 3.000 rosas no rio Drina, representando os mortos na guerra entre 1992 e 1995, em Vichegrad - Dado Ruvic - 26.mai.2012/Reuters

Por isso mesmo, o narrador é um “nós” abrangente e inclusivo, capaz de incorporar todos esses. O tempo verbal usado é frequentemente o do passado imperfeito, em que as coisas não acontecem propriamente, mas são como que continuadas e suspensas no tempo, como ocorre na memória infantil ou no imemorial das antigas fábulas.

Quando algum evento surge, inesperado, é quase sempre nefasto e cruel, fazendo com que a antiga calma da vida local tome quase uma forma de legado fúnebre dos antepassados, contrariado pela violência de um presente desprovido de sentido. Assim, causas e agentes distantes tornam a região permanentemente conflagrada, a despeito das vontades dos locais.

A maestria narrativa de Ivo Andric ao compor esse quadro abrangente de ações desarrazoadas a ocupar paulatinamente a serena perenidade da ponte e da paisagem está patente em cada página, pois, a despeito da enganosa simplicidade da narrativa, são exuberantes os seus recursos estilísticos.

Destacaria, por exemplo, o emprego admirável dos símiles, isto é, comparações complexas a ilustrar os fatos; a copiosidade das sentenças, máximas e provérbios, como repositório de sabedoria antiga; o uso de versos, cantigas e expressões locais, recolhidas de diferentes tradições étnicas; as lendas e “causos” que assombram o imaginário da gente.

Nada, contudo, é mais admirável que os retratos físicos, psicológicos e morais, que Andric cria como quem faz caricaturas definitivas com meia dúzia de traços velozes. E isso não ocorre apenas com poucas personagens, mas com várias, como —posso citar de cabeça— as da noiva suicida, do jogador possesso, da hoteleira Lotika, do guarda seduzido, do taberneiro Zárie, do aflito Mestre Pero ou do valente Alikhodja, cuja perplexidade fecha o livro.

Por meio dessa variedade de recursos, Andric faz uma contraposição ostensiva entre a vida quotidiana ordenada da arraia-miúda e os motivos abscônditos dos poderosos a desfazer e remontar essa vida, aleatoriamente, sem que os atingidos atinem jamais porque algo se foi ou teve início, a despeito de seus pungentes debates diários.

Por fim, mencionaria um movimento metalinguístico refinado que está no cerne do relato. Aludindo várias vezes ao que reitera, esquece ou ao que acrescenta tarde demais, incapaz de salvar o que ama, o narrador coletivo evidencia uma concepção de história em que só a literatura —vale dizer, a invenção— está apta a dizer a verdade.

Alcir Pécora

Professor titular de Teoria Literária da Unicamp

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