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Devika Girish

Novo 'Borat' encontra 'McDonald' Trump, agora com humor menos fálico

Longa com Sacha Baron Cohen tenta achar graça em alerta às mulheres sobre misoginia nas eleições

Devika Girish
The New York Times

Em “Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América”, lançado em 2006, um instrutor de humor americano explica o conceito de uma piada com “só que não” a Borat Sagdiyev, o estúpido mas envolvente jornalista cazaque interpretado por Sacha Baron Cohen. “A pessoa faz uma declaração fingindo ser verdadeira, e no final da frase acrescenta um ‘só que não’”, o instrutor explica.

Mas Borat enfrenta problemas para encontrar a pausa necessária para fazer com que a brincadeira funcione. Primeiro, ele para por muito tempo antes de acrescentar o “só que não”; depois, faz uma pausa curta demais. O gracejo não funciona.

A comédia pós-moderna de Baron Cohen depende daquela pausa. Viajando pelos Estados Unidos na pele de um bufão que profere absurdos preconceituosos ininterruptos, ele confronta pessoas com uma série de piadas “só que não” oferecidas como uma espécie de teste de laboratório. Ele é antissemita, só que não. Ele é misógino, só que não. Se você consegue detectar a pausa, você faz parte do público certo para o gracejo, se não consegue, você é o alvo da sátira.

Na continuação muito aguardada do filme, “Borat: Fita de Cinema Seguinte”, que lança no serviço de streaming da Amazon em 23 de outubro, Baron Cohen e o diretor Jason Woliner retomam esse conceito de guerrilha num mundo novo e estranho. Borat emerge como que de uma cápsula do tempo.

Por todos esses anos, explica a sequência de abertura do filme em tom cúmplice, ele esteve preso por embaraçar o Cazaquistão com suas aventuras anteriores. Mas agora, foi de novo despachado aos Estados Unidos para tentar conquistar as boas graças do presidente “McDonald” Trump. Uma reviravolta forçada e muito divertida da trama dá a ele uma nova parceira nesse falso documentário –sua filha de 15 anos de idade, Tutar, interpretada por Maria Bakalova, que ele pretende presentear ao “vice-premiê” Mike Pence como um gesto de boa vontade.

É uma ideia desmiolada e divertida, mas nada nessa nova fita de cinema se equipara ao elegante experimento social do primeiro filme, que buscava determinar exatamente em que ponto a civilidade americana se distancia da moralidade. Os problemas da continuação se tornam aparentes já no começo. Borat é reconhecível demais nos Estados Unidos, agora, para realizar as mesmas façanhas que fez no primeiro filme, e por isso, para algumas de suas aventuras, precisa se disfarçar pesadamente, como Baron Cohen fazia em “Who Is America?”, a série de TV que ele realizou em 2018.

Os disfarces muitas vezes ridículos (que incluem uma fantasia especialmente memorável numa convenção conservadora) solapam a premissa de revelação que embasa o filme —e que já parece comprometida desde o princípio, na era de manipulação da mídia e desinformação em que vivemos.

Uma sequência extensa retrata Borat hospedado por alguns dias na casa de seguidores das teorias de conspiração QAnon, que rejeitam os absurdos que ele inventa mas rebatem com suas próprias ficções sobre cultos sanguinolentos e satânicos. Diferentemente da curiosidade que parecia motivar Baron Cohen no filme anterior, o objetivo agora parece ser provocar pessoas para que confirmem aquilo que já sabemos a respeito delas.

O que acrescenta alguma novidade é a presença de Bakalova, que oferece uma mudança de ritmo com relação à usual litania de humor fálico de Borat. Tutar começa o filme como uma adolescente feral, e protegida, que aprendeu que mulheres que trabalharem fora de casa, dirigirem carros ou se masturbarem acabam morrendo. Aos poucos, ela é exposta a experiências dúplices sobre a vida das mulheres nos Estados Unidos, primeiro em lojas de roupa e salões de beleza e mais adiante num centro de combate ao aborto e numa clínica de cirurgia plástica.

Nesses encontros, Bakalova consegue se concentrar no papel com dedicação semelhante à de Baron Cohen, sem um traço que seja de autoconsciência, capturando uma variedade perturbadora de atitudes sexistas que vão se acumulando para a culminação do filme —que talvez seja seu único momento politicamente substancioso, e envolve Rudolph Giuliani, o advogado pessoal do presidente Trump.

Baron Cohen disse em entrevista ao The New York Times que queria lançar o filme antes da eleição como “lembrete às mulheres sobre em quem elas estarão votando —ou sobre em quem não estarão votando”. Mas num momento quando aqueles que estão no poder alardeiam sua misoginia, essa fé no efeito persuasivo da exposição pública me parece equivocada. As complicadas manobras de “Borat: Fita de Cinema Seguinte” nem me divertiram, nem me enraiveceram; só me causaram resignação.

Tradução de Paulo Migliacci

Borat: Fita de Cinema Seguinte

  • Quando 23 de outubro
  • Onde Amazon Prime Video
  • Elenco Sacha Baron Cohen, Irina Novak, Luenell, Maria Bakalova e Rudy Giuliani
  • Direção Jason Woliner
  • Classificação 17 anos
  • Duração 95 minutos
  • Gênero Comédia
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