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Ludovic Hunter-Tilney

Novo Stevie Wonder tem toque de Black Lives Matter e gospel pop

Lançamentos do músico mesclam ideais combativas e sons que ele produzia no porão da casa quando jovem

Ludovic Hunter-Tilney
Financial Times

“Às vezes componho até 50 canções por mês, no porão da minha casa”, disse Stevie Wonder a um entrevistador em 1969, quando ele tinha 19 anos e ainda morava com a mãe, em Detroit, nos Estados Unidos.

Mais tarde naquele ano, ela o ajudou quando ele estava enfrentando dificuldades para encontrar uma letra que acompanhasse uma melodia. “Você devia escrever ‘oh baby, I’m yours’”, ela sugeriu. “‘I’m signed, sealed, delivered, I’m yours’”. Ele aceitou a ideia.

Wonder costumava ter muita música na ponta dos dedos (uma região anatômica mágica que ele citou no título de seu primeiro single de sucesso). Mas a fonte foi secando, com o passar dos anos.

Seu mais recente disco, “A Time 2 Love”, saiu em 2005. Ele anunciou dois novos álbuns para 2014, mas nenhum dos projetos se materializou. Wonder lançou apenas uma canção nos dez últimos anos, “Faith”, uma mistura brincalhona de funk e gospel composta para o filme de animação “Sing”.

Talvez a experiência de chegar aos 70 anos, alguns meses atrás, tenha feito diferença, ou talvez tenha sido o transplante de rim pelo qual ele passou no ano passado, mas os tempos atuais já estão se provando mais produtivos.

Wonder anunciou numa recente entrevista coletiva o lançamento de duas novas canções. Também revelou que havia deixado a Motown Records, a gravadora com quem mantinha um contrato desde a infância, no começo dos anos 1960. As novas composições de Wonder sairão pela So What the Fuss Records, selo criado por ele.

"Where Is Our Love Song” tem suas origens na cascata de sons que ele produzia no porão da casa de sua família em Detroit, quando jovem; ele começou a compor a faixa aos 18 anos. É uma balada pop-gospel no estilo mais livre que Wonder criou para seu trabalho ao se libertar das fórmulas rígidas da Motown, na década de 1970.

A letra oferece a promessa precária de um amanhã melhor (“como precisamos de palavras de esperança”), em contraste com o sofrimento do presente (“não apenas nesta rua ensanguentada/ mas em cada país devastado pela guerra”).

A voz de Wonder é mais espessa do que no passado, mas continua expressiva, deslizando melodiosamente por frases musicais arranjadas com habilidade. O guitarrista Gary Clark Junior contribui com um refrão de rock clássico muito bem sacado.

“Can’t Put It in the Hands of Fate” acelera o ritmo. Trazendo contribuições de rappers de múltiplas gerações —Cordae, Rapsody, Chika e Busta Rhymes—, a canção é uma peça de "agitpop" sobre o movimento Black Lives Matter. Percussão e harmônica acrescentam a assinatura de Wonder a um beat clássico de hip-hop da velha guarda. O cantor se dirige a um antagonista branco (“você diz que está cansado dos nossos protestos”).

O tom combativo torna o desempenho de Wonder mais aguçado; o sentimentalismo acomodado que surgiu em seu trabalho na meia-idade está ausente. O período de criatividade sem paralelo de sua juventude jamais será recapturado, mas as novas faixas representam um retorno promissor à ação por um dos grandes nomes da música.

Tradução de Paulo Migliacci

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