Paz Errázuriz reúne em mostra retratos da ditadura chilena e de força feminina

Artista, que esteve envolvida nas recentes manifestações antigoverno do Chile, é tema de exposição no IMS Paulista

Trabalho de Paz Errázuriz integra a exposição Radical Women

Evelyn, da series "La manzana de Adán", 1982, de Paz Errázuriz Divulgação/Coleções Fundación MAPFRE

Buenos Aires

Antes de que começasse a pandemia do novo coronavírus, a fotógrafa Paz Errázuriz, de 76 anos, havia estado envolvida no registro das manifestações antigoverno que começaram em outubro do ano passado e só tiveram uma pausa quando o vírus chegou ao Chile. Nas últimas semanas, elas voltaram a ocorrer.

"Tem sido um momento histórico, e para mim é muito valioso percorrer as ruas de Santiago com a câmera fotográfica para registrar.” Os protestos, que pedem diversas reformas, tiveram uma interrupção em março, mas conseguiram pressionar o governo do presidente Sebastián Piñera para que ele aceitasse convocar um plebiscito que decidirá se os chilenos querem ou não uma nova Constituição, algo que ocorrerá em 25 de outubro.

Dessa forma, ganha mais atualidade a retrospectiva da obra de Errázuriz, que havia sido planejada para março, mas teve de ser adiada. A mostra abre agora no IMS Paulista, o Instituto Moreira Salles.

Em entrevista, a veterana que atuou durante os anos da ditadura chilena, de 1973 a 1990, comentou a situação política de seu país.

Se o plebiscito tiver um resultado a favor da mudança da atual Constituição —que é dos tempos do general Augusto Pinochet— Errázuriz considera que será um amadurecimento da sociedade.

“Eu espero que ganhemos o plebiscito e tenhamos a chance de ter uma nova Constituição que permita ter um país mais democrático e justo”, disse, por telefone.

Na retrospectiva em São Paulo, também é apresentada a edição brasileira do livro “O Infarto da Alma”, com fotografias dela e escritos da autora Diamela Eltit. Devido, porém, à pandemia do novo coronavírus, a vinda da artista para a inauguração foi cancelada.

A mostra, que estreou em Madri há cinco anos, foi organizada por Juan Vicente Aliaga e conta com 150 fotografias produzidas da década de 1970 até hoje.

O trabalho fotográfico ao lado da escritura sempre foi algo que Errázuriz gostou de fazer. Foram frequentes, em geral, quando o tema era a mulher. “Quando comecei a trabalhar, o tema da identidade de gênero tinha a ver mais com um interesse pessoal, já que não circulava informação sobre o assunto”, diz a fotógrafa.

“Por isso foi muito importante trabalhar com Claudia Donoso, no caso de 'Manzana de Adán' e com Diamela Eltit, em 'O Infarto da Alma'. Nesta, pensamos sobre os casais excluídos por terem de viver em um contexto hostil. Hoje essas séries são lidas a partir de códigos que não se conheciam quando foram realizadas. Eu continuo abordando esse tema atualmente. No ano passado, lancei 'Señales', com Niki Raveau, que é uma ativista trans.”

Ela acrescenta ainda outras parcerias recentes. “Em 2018, fiz a série 'Ropa Americana' que retrata jovens que se reconhecem pelo conceito de gênero fluido, temas que vejo como muito importantes tanto do lado político como do social.” E conclui, “por isso é tão importante continuar vinculada ao contexto de hoje”.

Ainda sobre as atuais manifestações e os efeitos que estão tendo nas artes, Errázuriz crê que um novo significado de autoria está sendo criado, no sentido em que “os artistas que intervêm na rua, durante os protestos e sob anonimato, estão entregando sua obra ao movimento". "Isso é algo novo, não tanto com relação ao conteúdo, mas com relação à autoria."

A retrospectiva também traz seus retratos, tanto de pessoas como de grupos então tidos como invisíveis e hoje considerados o rosto da desigualdade do Chile. Também estão presentes sua atuação política por meio da arte. Errázuriz fundou, no meio da ditadura, em 1981, a Associação de Fotógrafos Independentes, grupo que documenta o trabalho de artistas que se opunham ao regime militar. Nesta seção estão outras manifestações, aquelas contra a ditadura.

Comparando aquela época com agora, porém, Errázuriz diz que havia "poucas mulheres em um espaço em que todos estávamos igualmente diante da ditadura". "Agora é diferente, porque existem muitas associações de mulheres fotógrafas, festivais, exposições, instâncias que lhes permitem se reunir e mostrar seu trabalho. Há uma consciência sobre o feminismo, o que permite uma organização muito mais natural”, diz.

Ainda estão na retrospectiva seu trabalho realizado junto a instituições psiquiátricas e a comunidades trans. Em todas essas situações, privilegiando os retratos.

PAZ ERRÁZURIZ

  • Quando 13/10/2020 a 3/1/2021
  • Onde IMS Paulista Galeria 2 - 7º andar Avenida Paulista, 2424 - São Paulo/SP
  • Preço Entrada gratuita, com agendamento prévio
  • Observação Esta exposição contém imagens de nudez e temas sensíveis. Não recomendada para menores de 14 anos.
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