Descrição de chapéu RFI Moda

Pela primeira vez um museu mostra como Coco Chanel quebrou padrões de gênero

Retrospectiva em Paris homenageia o trabalho da estilista francesa que burlou o sexismo na moda

Mulher em sofá

Foto de Coco Chanel exposta em "Fashion Passion - 100 Anos de Moda na Oca", mostra ocorrida em São Paulo Divulgação

Silvano Mendes
RFI

O Palais Galliera, um dos dois museus da moda de Paris, reabriu suas portas em 1° de outubro, após quase dois anos fechado, com uma exposição sobre a obra de Gabrielle Chanel. A retrospectiva, a primeira do gênero na capital francesa, deixa de lado a vida tumultuada da estilista para se concentrar no trabalho daquela que contribuiu para liberar a silhueta feminina.

Gabrielle Chanel, ou Coco para os íntimos, é uma das personalidades mais famosas da história da moda. A menina pobre criada em um orfanato, que até sua morte inventava um relato diferente cada vez que era questionada sobre sua infância, teve uma vida de grandes amores, amizades célebres e até uma acusação póstuma de ter agido como espiã durante a Segunda Guerra Mundial. Uma trajetória palpitante que inspirou livros, filmes e faz parte até hoje da mitologia do mundo das passarelas, além de alimentar a marca que se tornou uma das gigantes de luxo internacional.

No entanto, por incrível que pareça, Paris nunca tinha acolhido uma retrospectiva da estilista que encarnou para o mundo todo a imagem —às vezes caricatural— da parisiense.

O museu do Palais de Tokyo chegou a fazer uma exposição sobre o perfume Chanel em 2013 e inúmeras instituições homenagearam o trabalho de Karl Lagerfeld, que dirigiu o estilo da maison durante 36 anos, até sua morte no ano passado.

A capital francesa estava devendo uma homenagem para aquela que ficou conhecida por ter "liberado as mulheres", abolindo os espartilhos, adotando malhas no vestuário até então engessado, e adaptando peças do armário masculino para o guarda-roupas feminino, criando uma moda de gênero fluído quando ninguém nem pensava nisso.

A exposição intitulada "Manifesto de Moda", que fica em cartaz até março de 2021, foi pensada para preencher esta lacuna. Segundo Bruno Pavlovsky, presidente da Chanel, o objetivo do evento é valorizar "não a mulher, e sim a criadora visionária".

Mais de 350 peças, vindas dos arquivos do Palais Galliera e também de museus internacionais, coleções privadas e da própria maison Chanel compõem o percurso, que traça as diferentes fases da história da costureira, desde a criação de sua marca em 1910, ainda como fabricante de chapéus, mas já na rua Cambon —endereço histórico da empresa—, até sua morte, em 1971.

Nas salas do museu, o visitante acompanha a evolução do estilo de Coco, entre trajes diurnos, roupas de festas e, é claro, "La Petite Robe Noire", o vestido preto que virou uma de suas assinaturas. O terninho em tweed, outra peça indispensável do DNA da Chanel, também ganha destaque, com inúmeros modelos expostos, entre eles conjuntos usados por Marlène Dietrich e pela princesa Paola da Bélgica, que dão a pitada de "celebridade" que toda exposição merece.

A visita conta ainda com croquis, fotografias e trechos de filmes com os quais ela colaborou, vestindo algumas estrelas. Os curadores também deram ênfase à paixão de Gabrielle Chanel pelas bijuterias —algo raro na alta-costura da época— com uma sala inteira do museu.

A exposição, que visa o grande público e não apenas os fãs de moda, tenta ser o mais didática possível. Ao ponto de propor uma sala que recapitula os "códigos Chanel" –os sapatos bicolor, cujo truque era o uso da cor bege para alongar as pernas, mas com bicos pretos para diminuir o tamanho dos pés; os colares de pérolas que frequentemente adornavam seus looks, ou ainda a bolsa 2.55, com costuras que reproduzem o efeito acolchoado no couro e que é imitada até hoje por inúmeras marcas.

Todos esses elementos são reciclados de forma contínua por Virginie Viard, que dirige o estilo da maison desde a morte de Lagerfeld. Aliás, até parece que a mostra, que não cita o estilista alemão, é uma espécie de "master class Chanel" para aqueles que não conhecem bem a história da grife antes da passagem de Lagerfeld e os desfiles espetaculares que marcaram seus 36 anos na rua Cambon.

Além disso, "Manifesto de Moda" também marca a reabertura do Palais Galliera, que ficou fechado durante cerca de dois anos para uma reforma gigantesca, que dobrou o espaço de exposições. A obra, patrocinada pela maison Chanel, transformou o antigo porão do palacete em confortáveis galerias, que foram batizadas, justamente, de "Gabrielle Chanel".

Em tempos de orçamentos públicos cada vez mais escassos para projetos culturais, a reforma do Palais Galliera mostra mais uma vez o poder de fogo das marcas de luxo, mais presentes do que nunca no mundo das artes, para o desespero de alguns puristas, que nem sempre veem com bons olhos a influência do setor privado nos museus.

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