Descrição de chapéu Cinema mostra de cinema

Relação de Andrea Beltrão e Marina Lima é marcada por perda e desejo em 'Verlust'

Filme de Esmir Filho integra a 44ª Mostra de Cinema de São Paulo

São Paulo

Uma câmera voyeurista passeia pelos cômodos de uma casa à beira-mar. Figurinos elegantes, máscaras excêntricas e uma atmosfera que exala permissividade dão o clima a uma festa de Ano-Novo, observada de longe por uma criatura marinha encalhada na areia da praia.

A anfitriã é Frederica, personagem de Andrea Beltrão em “Verlust”, novo filme de Esmir Filho, que integra a 44ª Mostra de São Paulo. Ela divide o protagonismo com a cantora Marina Lima, que tem a carreira emulada pela trama.

Nela, Frederica é a empresária de Lenny, também sua vizinha, com quem viveu um relacionamento amoroso no passado. Hoje casada com um fotógrafo, ela vê as estruturas que sustentam sua vida ordenada ruírem com a chegada de um escritor, ali para escrever uma biografia da artista.

“A Frederica é uma pessoa que tem obsessão pelo controle de todos ao seu redor —e ela é a única ali que não é artista. Quando esse escritor chega, ele explora o passado e mergulha no íntimo de cada um, expondo uma crise naquela teia de afetos”, diz o diretor.

“Esse é um filme sobre o estado desses personagens, sem uma historinha. A gente entra no que eles estão sentindo, e eu gosto de atmosfera, dessa coisa sinestésica do cinema.”

Essa imersão proposta por “Verlust”, aliás, inebria o filme de sensualidade. Existe uma tensão latente entre as personagens de Beltrão e Lima, enquanto o escritor de Ismael Caneppele brinca com os fetiches seus e dos anfitriões.

“Esse filme é sobre pessoas livres sexualmente, mas que não estão livres emocionalmente. Eu acho que essa oposição é muito interessante. Os personagens são livres para transar com homem, mulher, qualquer gênero, mas ao mesmo tempo estão ali naquela praia completamente isolados, amarrados, atrapalhados. Há uma oposição entre essa liberdade e um encalhe emocional”, diz Beltrão.

A atriz embarcou em “Verlust” há cerca de dez anos, quando o projeto começou a ser concebido, sem imaginar que ele finalmente chegaria às telas em um momento de imensa fertilidade em sua carreira —ela vem sendo elogiada e premiada por viver Hebe Camargo no cinema e na TV, além de se preparar para voltar à Globo, em que vai gravar a próxima novela das nove.

Burocracias, conflitos de agenda e uma longa pós-produção deram tempo para que “Verlust” amadurecesse. Assim como em outra parceria entre Filho e Caneppele, “Os Famosos e os Duendes da Morte”, a ideia agora é que a trama também vire livro, com data de lançamento para os próximos meses.

Depois de recrutar Beltrão para o novo longa, o cineasta precisava de uma cantora que pudesse emprestar sua vida pessoa para ser ficcionalizada. Foi então que encontrou Lima, de quem tanto ele quanto a atriz já eram fãs.

“Foi muito legal contracenar com a Marina, porque ela também estava no meu primeiro filme, ‘Garota Dourada’, fazendo ela mesma —assim como em ‘Verlust’”, diz Beltrão, sobre o filme de 1984. “A gente não chegou a contracenar naquela ocasião, mas agora a gente já se conhecia da vida. Eu admiro muito a Marina, as músicas dela são a trilha sonora da minha vida, e nós temos um imenso amigo em comum, então é uma pessoa que mesmo longe é muito próxima.”

Agora dividindo a cena, Beltrão e Lima estão no centro do terremoto que desestabiliza a vida das personagens —o que se relaciona diretamente com o nome do filme. De origem alemã, “Verlust” quer dizer perda. Mas “lust”, sozinho, significa desejo em seu estado máximo, de acordo com Esmir Filho.

“É um termo que não precisa ser tão negativo quanto sua tradução para o português indica. É uma perda no sentido de transformação, de deixar ruir para vir algo novo”, explica o diretor.

“O alemão tem essas palavras que dizem coisas complexas, o que é bonito à beça”, complementa Beltrão. “Para mim, perda e desejo caminham grudados, então faz muito sentido essa palavra significar essas duas coisas, que parecem diferentes, mas que têm uma ligação.”

Verlust

  • Quando Em exibição na 44ª Mostra de SP. Sessão no Belas Artes Drive-in, nesta terça (27), às 21h45
  • Elenco Andrea Beltrão, Marina Lima e Ismael Caneppele
  • Produção Brasil/Uruguai, 2020
  • Direção Esmir Filho
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