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Maratona

Série de diretor de 'Me Chame pelo Seu Nome' reforça seu voyeurismo

Em 'We Are Who We Are', Luca Guadagnino se preocupa mais com a ambientação do que com o acirramento de contradições

We Are Who We Are

  • Onde Disponível na HBO
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Jack Dylan Grazer, Chloë Sevigny, Alice Braga, Jordan Kristine Seamón
  • Produção Itália/EUA, 2020
  • Direção Luca Guadagnino

Sobre estilo, diz Luca Guadagnino que quando ouve essa palavra saca o seu revólver. Bem, talvez a frase já seja um sintoma de estilo. O fato é que, ao se definir como “voyeur”, o diretor italiano dá uma boa pista do que são seus filmes, onde os personagens centrais tendem a estar mais na observação do mundo do que no centro dos acontecimentos.

Não que não estejam, claro. Mas uma parte desse estar no centro consiste na observação. É bem o que se vê no seriado “We Are Who We Are”, da HBO. E é talvez o que se justifique, pois tudo (nos primeiros capítulos, pelo menos) gira em torno de Fraser, papel de Jack Dylan Grazer.

Filho de duas militares, ele é tirado de Nova York para uma base americana em Chioggia, no norte da Itália, perto de Veneza. Os sinais de desagrados com a situação são claros. Mais: são ostensivos. No mais, Fraser se sente rejeitado pela mãe, Sarah Wilson, vivida por Chloë Sevigny, a nova responsável pela base. Com as responsabilidades que assume, Sarah de fato não dá muita atenção ao adolescente. Nas horas amargas quem está mais por perto é Maggie, papel de Alice Braga, com quem Sarah é casada.

Fraser é o “voyeur” da história, menos por vocação do que pela necessidade de saber onde está, com quem pode contar, que novos amigos pode fazer. Logo uma delicada intriga se impõe –Fraser se sente atraído por Caitlin, papel de Jordan Kristine Seamón, colega no novo colégio, com um namorado bem ciumento.

Há um cuidado em Guadagnino em preservar, em alguns personagens, características um tanto andróginas. Se isso não configura um estilo, pelo menos define um mercado, como o que impulsionou sua carreira com “Me Chame pelo Seu Nome”.

“We Are Who We Are”, como quer a HBO, que em língua não imperial poderia bem se chamar “Somos o que Somos”. Mas, que fazer? A HBO é o que é. E o significado é múltiplo, pois a tendência ao longo dos episódios é o espectador que seguir a série descobrir quem são esses moços e rapazes que formam a geração dos filhos dos integrantes da base.

Neles, de início, uma notação interessante –o supermercado, diz uma garota, tem a mesmíssima organização em todas as bases americanas do mundo, para que as pessoas não se sintam perdidas. Ou seja, se sintam em casa. Elas fazem o possível.

Ainda que professe a ideia de sacar o revólver quando escuta a palavra estilo é quase impossível não reconhecer um estilo em Guadagnino. É alguém que se preocupa muito mais com a ambientação do que com tramas muito cerradas ou movimentadas.

Também não preza demais pelo acirramento de contradições. Assim como em “Me Chame” um jovem se descobre gay sem que haja problema algum à vista (nem na família, nem nele, nem no mundo em volta), aqui negros e brancos confraternizam sem problema, quase com entusiasmo.

As diferenças se anulam numa base? Pode ser. Mas, no caso, também servem para alimentar a “bolha” liberal-hollywoodiana, onde contradições se desfazem magicamente sob o influxo do vocabulário politicamente correto. Estamos longe do que pensam diretores negros, como Spike Lee ou Jordan Peele. Estamos mais longe ainda do que pensa a polícia dos Estados Unidos, que baixa o sarrafo nos negros (nos dias em que está delicada, claro).

Para compensar a intriga diluída, Guadagnino recorre ao mesmo método empregado por Quentin Tarantino em “Pulp Fiction”, de quebrar a cronologia retroagindo a pontos de vista novos (do ponto de vista da intriga). Ainda assim, é possível pensar se o espectador se sentirá tentado a continuar seguindo o seriado, que tem pontos de atração mercadológicos (uma mulher comandante de base, por exemplo) e a incursão à base americana (que parece em princípio intrigante), além da aproximação aos personagens adolescentes e à sua ambiguidade sexual —o que pode não caracterizar um estilo, é claro, mas cerca um mercado seguro, ao qual o cinema tem dado pouca atenção.

Em resumo, não é pegajoso como “Me Chame”, o que é um progresso, mas parece preparar com cuidado e sem pressa os momentos mais interessantes da trama, confiando em que os espectadores esperarão por esse dia. Talvez não compense esperar por uma resposta à pergunta incontornável desta série –o que faz uma base americana nas cercanias de Veneza?

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