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Argentino J. P. Zooey defende o chamado 'confundismo' como movimento literário

Livro 'Sol Artificial', lançado no Brasil, mistura gêneros e a linguagem usada nos papers acadêmicos, ensaios e entrevistas

Buenos Aires

Quando publicou seu primeiro livro com pseudônimo, J. P. Zooey foi desafiado por um amigo, que apostou com ele que logo sua identidade seria descoberta por algum jornalista ou outro escritor. Não foi assim, e Juan Pablo Ringelheim, de 47 anos, conseguiu passar dez anos sem revelar quem realmente era e assinando seus livros com esse “nome artístico”.

Em 2017, quando por fim o amigo se deu por vencido, o escritor argentino fez um pequeno evento para revelar o que ele chama de seu “nome civil”. Até então, nem mesmo uma foto sua era conhecida.

O autor argentino J. P. Zooey
O autor argentino J. P. Zooey - Jazmin Teijeiro/Divulgação

Hoje, J. P. Zooey continua publicando seus livros com esse nome. O que sai agora no Brasil é sua obra de estreia, “Sol Artificial”, de 2009, que mistura gêneros e a linguagem usada nos “papers” acadêmicos, nos ensaios, entrevistas.

Em entrevista a esta repórter, o escritor argentino explicou a razão de não assinar com seu nome real.

“O mal maior que a superexposição pode trazer é a supercoerência. Nesta época, parece que todos deveríamos ser coerentes com as certezas que acreditamos ter. Certezas políticas, sexuais, sobre o outro (amigo ou inimigo), certezas sobre a literatura correta. Diante de cada aparição, a obrigação de levantar a bandeira de uma identidade. Penso que isso é o contrário à liberdade que um escritor deve ter”, afirma.

E qual é essa liberdade? Zooey, que prefere dar suas entrevistas por escrito, por as considerar parte da literatura, diz se referir à “liberdade de se contradizer, de estar confundido, de perder o fio da conversa e a memória, de ser incoerente, a liberdade de não tomar posição”.

Autor dos romances “Los Eletrocutados”, “Te Quiero”, “Manija” e “Florecieron los Neones”, ele enveredou recentemente pelo ensaio, com “Corazones Estallados - La Política del Posthumanismo”. Quando seu trabalho começou a ser publicado na Argentina, recebeu elogios de críticos de renome, como Beatriz Sarlo. Sobre a mistura de gêneros, uma marca de seus escritos, Zooey diz que está relacionada à sua confusão sobre os gêneros da escrita.

“Uma neblina que sempre me levou a confundir a declaração de um político popular com a de uma estrela do rock, a pergunta de um jornalista com a de um narrador, um gráfico com estatísticas da economia com um eletrocardiograma, o coração com um post com uma declaração de amor eterno e de ódio efêmero”, ele escreve, na tentativa de ilustrar sua mescla de estilos.

Escritor argentino J.P. Zooey - @jp_zooey no Twitter

Zooey claramente rejeita rótulos, mas, questionado sobre suas referências atuais, disse estar metido num movimento, que, mesmo que esteja surgindo neste momento, é uma corrente “de retaguarda”. É o que chama de confundismo.

Ele explica a ideia, dizendo que “a humanidade parece ter optado pela divisão em grupos que estabelecem uma relação de oposição com certezas sobre o que é o bem e o que é o mal, o que é o justo e o que é o injusto, quem é amigo e quem é inimigo”.

Nesse sentido, surgem os “confundistas”, como se denomina Zooey. “Estamos sozinhos, agrupados e dispersos ao mesmo tempo, cada um com seu farol, que apenas alcança para iluminar os próprios pés, embora também existam alguns com lanternas modernas e coloridas. Poderíamos, mas não queremos tomar posições. Estamos confundidos.”

E por que se trata de um movimento de retaguarda? “Porque somos os que estão muito longe da frente de batalha, e estamos atrás de nada, acampamos onde a tinta não alcança para assinar as cartas públicas a favor ou contra as causas. Ainda que saibamos, também, que o mais apaixonante para um confundista é deixar de o ser e abraçar ardentemente uma causa. Fazemos isso de vez em quando, mas a causa se evapora em nossos braços, sobe a uma nuvem e a esquecemos para voltar a acampar longe da frente de batalha", ele responde.

Por fim, acrescenta que os confundistas como ele finalmente saíram de casa para contar quem são. São seres “solitários, ermitões, bêbados, loucos incoerentes, medicados, desertores, caçadores, destruidores de telhados”.

Sol Artificial

  • Preço R$ 40,60 (160 págs.)
  • Autor J. P. Zooey. Trad.: Bruno Cobalchini
  • Editora DBA
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