Brian Eno lança trabalho só com canções que compôs para trilhas de filmes

Artista britânico, criador da ambient music, diz estar reelaborando trabalhos de 20 anos atrás

Henrique Goldman

Em 2009 eu frequentava uma academia em Notting Hill e ali encontrava na piscina um senhor careca muito simpático, de olhos azuis penetrantes, com o qual passei a reclamar do inverno londrino e trocar impressões banais sobre política. Um dia, se secando no vestiário, ele me contou que era músico, e eu perguntei o seu nome. "Brian Eno", ele disse e foi embora sorrindo, se divertindo com a minha óbvia estupefação.

Eno era meu ídolo desde 1981, quando me apaixonei pelo som visionário, visceral e irreverente de "My Life in The Bush of Ghosts", o histórico álbum que ele gravou com David Byrne. "Os punks na época tinham despertado uma nova consciência social. O mundo estava na merda. Isso tinha que ser exposto com urgência e ninguém aguentava mais os hippies com aquela mania de achar tudo sempre lindo e maravilhoso."

Foi o que Eno me disse na semana passada, quando nos encontramos via Zoom para fazer um balanço da sua carreira e falar do seu novo álbum, "Film Music 1976-2020".

Retrato do músico Brian Eno
O músico Brian Eno - Cecily Eno/Divulgação

Ele caiu na gargalhada lembrando daquele período de transição entre os anos 1970 e 1980, quando surpreendeu o mundo da musica pop se desligando da banda Roxy Music, que estava no auge do sucesso.

"Eu tinha grandes ambições musicais mas nunca quis ser um rock star. Me sentia um artista sério e achava que música pop era um gênero que exigia ser respeitado."

É difícil resumir uma obra tão rica, multifacetada, inovadora e influente como a de Eno, que além de compositor é um genial artista plástico e provavelmente também o mais importante produtor musical contemporâneo, tendo colaborado com uma lista enorme de estrelas que inclui desde David Bowie até U2, passando por Paul Simon, Damon Albarn e Coldplay, entre outros.

Com '"Ambient 1 - Music For Airports", de 1978, ele se tornou também pai e inventor da "ambient music", gênero instrumental que privilegia motivos sonoros simples e longos que se repetem continuamente e não se transformam em melodias. "Eu queria encontrar uma funcionalidade para o meu som mas obviamente rejeitava a banalidade da música de elevador."

Ele acrescenta que "buscava sons com atributos arquitetônicos para criar espaços, ambientes musicais nos quais os ouvintes pudessem transitar, entrar e sair livremente".

Nascido num pequeno vilarejo na região de Suffolk, Eno é filho de um carteiro, se formou em artes plásticas e se diverte contando que nunca aprendeu a ler partituras nem tocar um instrumento direito. Ele pensa na musica mais como um artista plástico conceitual, como um matemático ou cientista maluco do que como compositor.

"Foi ouvindo a trilha que Nino Rota compôs para 'Julieta dos Espíritos', de Federico Fellini, que entendi o potencial que uma trilha sonora tinha para emanar a essência de um filme. Percebi que tinha um buraco negro no centro daquela música", diz Eno, que ama compor trilhas.

"Aquele buraco no centro da música era o próprio filme e percebi que me sentia muito livre criando sons que gravitavam ao redor de ausências. Queria com eles incitar o ouvinte a preencher vazios com a própria imaginação."

Foi assim que começou a extrair instrumentos e temas das suas faixas e surgiu o álbum "Film Music 1976-2020". "Cada faixa era como um órfão que nunca encontrou seu espaço na trilha de um filme."

"Mas cada uma das faixas do novo álbum felizmente encontrou seu filme", conta. Ele compôs para pesos pesados como Michelangelo Antonioni, David Lynch, Peter Jackson, Danny Boyle e Michael Mann. A faixa "Decline and Fall" faz parte da trilha que Eno compôs para "O Nome da Morte", longa-metragem que escrevi e dirigi em 2017, baseado na vida e nas mortes de um pistoleiro brasileiro que matou 492 pessoas.

"Tentei explorar as dimensões mais universais e mitológicas da alma atormentada do pistoleiro", diz Eno. Prestando pouca atenção nas idiossincrasias socioeconômicas e culturais brasileiras, ele criou uma trilha dura e excruciante, um grito nórdico, gelado e pontiagudo que irrompe no calor torrencial e corrupto do Brasil contemporâneo.

Ele recentemente me convidou para dirigir o vídeo oficial produzido para promover o álbum, que será lançado mundialmente nesta sexta (13).

Brian Eno está há oito meses recluso na sua casa de campo em Norfolk, se refugiando da pandemia do coronavírus

"Apesar da melancolia e da preocupação serem tão palpáveis, estranhamente —talvez devido a esta própria pandemia— me sinto no momento especialmente aberto e livre para ouvir o mundo", conta.

O músico diz que está reelaborando trabalhos que compunha 20, 30 anos atrás. "Quando os ouço com frequência não me reconheço. Como posso ter criado aquelas letras tão estranhas? É muito estimulante colaborar com pedaços estranhos e desconhecidos de mim mesmo", conclui, dando gargalhadas.

Film Music 1976-2020

  • Onde Disponível em CD, vinil, MP3 e nas plataformas digitais
  • Gravadora Astralwerks
  • Artista Artista: Brian Eno
Henrique Goldman

Cineasta, dirigirá clipe de uma faixa que estará no próximo trabalho de Brian Eno

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