Descrição de chapéu The New York Times

Cocriador do Lollapalooza quer agora socorrer casas noturnas e artistas indie

Marc Geiger quer salvar setor do entretenimento, prejudicado durante a pandemia a Covid-19

The New York Times

Para as pequenas casas de música, a situação é grave. Privadas de receita desde março e sem apoio do Congresso, dezenas de casas noturnas independentes dos Estados Unidos estão fechando as portas —o que prejudica tanto os fãs quanto os artistas e representa um golpe brutal contra o ecossistema que desenvolve os futuros ganhadores do Grammy e os heróis do underground.

Mas um executivo de música se acredita capaz de salvá-las, com um plano que envolve investir em pequenas casas noturnas e criar uma rede para organizar turnês com artistas indie.

Marc Geiger, o antigo vice-presidente da divisão musical da WME, uma imensa agência internacional de talentos, criou uma reserva de fundos para fortificar as casas noturnas esvaziadas pela pandemia e ajudá-las a crescer quando puderem reabrir. Uma das figuras mais carismáticas nos bastidores da indústria da música —um futurista tagarela que ajudou a criar o Lollapalooza e foi um dos primeiros proponentes da ideia de que a internet poderia ajudar os músicos—, Geiger retrata seu mais recente empreendimento como uma espécie de cruzada pessoal.

“Uma das minhas atividades favoritas no planeta é ir a uma casa noturna, ser bem tratado e assistir a uma banda incrível”, disse Geiger, de 58 anos, em entrevista. “Por isso pensei que precisava levantar muito dinheiro e servir de apoio a todas aquelas casas noturnas. Vou ser uma solução de resgate para elas, e a companhia que vou criar para isso se chamará SaveLive."

O plano dele para a SaveLive é investir em dezenas de casas noturnas em todo o país, adquirindo pelo menos 51% de participação em todos esses negócios, e ajudá-las a se expandirem e transformarem em forças regionais, quando os shows enfim, voltarem com toda força, o que ele imagina só acontecerá a partir de 2022 ou ainda mais tarde. A SaveLive obteve US$ 75 milhões (R$ 414,8 milhões) em capital utilizável, em sua primeira rodada de financiamento, disse Geiger, e já está conversando com diversas casas noturnas espalhadas pelos Estados Unidos.

“A esperança, aqui, é criar um efeito de rede”, disse Geiger. “Ser um apoio em longo prazo, um amparo, um cultivador desses negócios, e desfrutar das vitórias."

O giro de público que acontece noite a noite nas casas de shows é menos lucrativo e glamoroso do que o mundo das turnês dos superastros. Mas serve como um canal vital de alimentação para o setor, e as casas noturnas em muitos casos inspiram uma devoção apaixonada, que pode ser medida pelos nomes e os logotipos de bandas rabiscados nas paredes que servem de fundo aos palcos.

A perspectiva de perder uma grande proporção das casas noturnas de pequeno porte do país —por falência ou venda forçada— vem causando muita preocupação. Este mês, a National Independent Venue Association, uma nova organização de defesa das casas noturnas independentes, arrecadou quase US$ 2 milhões (R$ 11 milhões) em um festival, transmitido no YouTube, que incluiu artistas como Dave Matthews, Foo Fighters e Brittany Howard, que tocaram em seus lugares favoritos e pediram ajuda para as casas. Recentementea, uma nova organização sem fins lucrativos, a Live Music Society, anunciou que, nos próximos dois anos, ofereceria US$ 2 milhões em assistência a casas noturnas com capacidade para 250 espectadores ou menos, que apresentam música ao vivo.

Desde junho, quando Geiger deixou a WME ao fim de seus 17 anos, sua próxima jogada vem sendo assunto de muita especulação no setor. Há quase três décadas, ele vem sendo um intermediário importante nas transações do meio e um visionário agressivo, e esteve muitas vezes entre os primeiros líderes da indústria da música a vislumbrar —e divulgar— o potencial de novas tendências na música e tecnologia.

“Em minha opinião, Marc sempre se manteve adiante do jogo”, disse Trent Reznor, do Nine Inch Nails, que Geiger contratou para a primeira turnê Lollapalooza, em 1991. “Ele sabe que a música precisa ser reverenciada. Não é apenas um ativo, mas sim algo especial que merece ser apresentado às pessoas de uma maneira que as ajude a descobrir a mágica."

Para que o SaveLive encontre sucesso, Geiger precisa da adesão de uma massa crítica de proprietários de casas noturnas. Em circunstâncias normais, essa seria uma proposição complicada, se considerarmos que os proprietários desse tipo de espaço tendem a ser lobos solitários que passaram décadas resistindo aos esforços de consolidação promovidos por grandes empresas. Mas mesmo pessoas que encaram Geiger com ceticismo admitem que talvez não existam muitas outras escolhas.

Homem branco de óculos ao lado de árvore
Marc Geiger, em Los Angeles, nos Estados Unidos, em 24 de setembro de 2020 - Elizabeth Weinberg/The New York Times

“A solução de Geiger me assusta, em certo nível”, disse Frank Riley, da High Road Touring, cuja companhia é um baluarte da cena indie e organiza shows de artistas como Wilco, My Bloody Valentine e Robert Plant. “Ele vai tomar o controle de propriedades que estão em risco por uma fração de seu valor, e terminará dono de 51% do negócio. Como dizer que uma casa nessa situação é independente? Não sei. Mas pelo menos salvará as plataformas nas quais as coisas crescem e que oferecem sustentação aos artistas."

Geiger, que fundou a SaveLive com John Fogelman, também egresso da WME, insistiu em que suas transações com as casas noturnas seriam parcerias, e que, a despeito de controlar uma participação majoritária, ele não tentaria revender as propriedades. Essa posição foi confirmada pelo principal investidor de Geiger, Jordan Moelis, da Deep Field Asset Management, que disse estar investindo dinheiro de sua empresa e de sua família. (Ele é filho de Ken Moelis, um conhecido executivo de investimentos de Wall Street.)

“Não é uma jogada que estejamos vendo como tomada de controle de ativos problemáticos”, disse Moelis em entrevista. “Para nós a jogada é reforçar aqueles negócios, uma jogada para nos tornarmos parceiros deles em longo prazo."

Mesmo com as casas noturnas por enquanto fechadas, a SaveLive projeta que será lucrativa dentro de quatro anos.

Em alguma medida, a vulnerabilidade das casas noturnas independentes deriva de sua independência. A maioria opera com margens baixas de lucros e conta com recursos financeiros limitados. Como parceiras da SaveLive, disse Geiger, elas teriam acesso a economia de escala e a transações em termos favoráveis para venda de ingressos e patrocínio —o que indica que a SaveLive em alguma medida seria uma versão em escala indie de grandes produtoras de shows como a LiveNation e a AEG, as gigantescas companhias que hoje dominam o mercado de turnês musicais.

Geiger de certa forma se enquadra ao estereótipo de um poderoso figurão de Hollywood, sempre recorrendo ao jargão mais recente e oferecendo declarações bombásticas e fáceis de citar, como “o underground tem poder”; o ringtone de seu celular é “Baba O’Riley”, do The Who.

Mas a despeito da posição que deteve por muito tempo na WME, onde ele comandava uma equipe que organizava turnês para algumas das bandas pop mais famosas do planeta, Geiger também tem a reputação de ser um apreciador consumado de música inovadora. Ele continua a falar com admiração de shows do New Order e Cocteau Twins que ajudou a organizar quando estava começando como agente, na década de 1980, um período em que quase ninguém via potencial no chamado college rock.

“A maior emoção no nosso negócio é ver um artista chegar ao sucesso”, ele disse. “Nada é melhor que isso."

Com o Lollapalooza —que ele criou com Perry Farrell, vocalista da banda Jane’s Addiction, e com outro agente, Don Muller—, Geiger ajudou a cristalizar o mercado alternativo no exato momento em que este estava para explodir. O sucesso das turnês teve impacto duradouro, disse Paul Tollett, organizador do festival Coachella, que disse que ele e outros organizadores regionais de shows “começaram a jornada” nas primeiras turnês Lollapalooza.

“Quando ouvi falar do Lollapalooza pela primeira vez”, disse Tollett, “liguei para meus amigos para dizer que eles tinham todo mundo —Jane, Siouxsie, a lista completa. Agora você coloca 150 nomes de músicos no cartaz e o público nem se abala. Quando o Lolla surgiu, eles tinham sete nomes. Sete. E no entanto pareciam ter todo mundo, naquele verão. Foi altamente influente."

Pela metade da década de 1990, Geiger se tornou uma das vozes do setor de música a prever mais ruidosamente —e a receber com mais alegria— o desordenamento que a tecnologia viria a trazer. A ArtistDirect, empresa da qual ele foi um dos fundadores em 1996, defendia a ideia, então radical, de que os artistas deveriam controlar seus canais de comunicação e comércio online. A empresa assinou com o Beastie Boys, Rolling Stones, Tori Amos e muitos outros artistas.

“Minha cabeça procura sistemas quebrados”, disse Geiger. “Por 25 anos, eu gritei que existia um sistema melhor via internet para ouvir, seguir, consumir e comparecer."

Ele talvez tenha chegado cedo demais. A companhia abriu seu capital em março de 2000, pouco antes do crash da bolha da internet. Geiger perdeu milhões de dólares e, ele conta, muita gente no ramo ficou feliz com a desgraça alheia.

“As pessoas me diziam que a internet tinha acabado”, ele conta. “Diziam que eu era uma fraude. Que a internet era uma fraude. E se contentavam porque o negócio tinha voltado ao passado. Eu fali."

Em 2003, Geiger estava de volta à William Morris, como agente. A companhia mais tarde se fundiria com a Endeavor para formar a WME, e ele se tornou um participante crucial na vasta expansão do setor de shows, que incluiu o crescimento dos festivais e a ascensão da dance music eletrônica.

Ainda que o mercado de shows esteja basicamente encostado, no momento, Geiger encara com otimismo o retorno da música ao vivo, afirmando que a “economia claustrofóbica” do lockdown dará lugar a uma alegria renovada —e a grandes negócios— quando os artistas pegarem a estrada de novo. A SaveLive, ele diz, é uma aposta para garantir que as casas noturnas menores sobrevivam e possam tomar parte nesse retorno.

“Acredito que a economia da arte vai crescer muito quando ela retornar”, disse Geiger. “Os artistas vão querer excursionar, para movimentar o caixa de novo, e as pessoas amarão sair, mais do que amavam no passado."

Tradução de Paulo Migliacci

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