Estudo sobre coronavírus na Alemanha traz esperança aos espectadores de concertos

Conclusões sobre um evento de teste indicam que concertos têm baixo impacto sobre índices de contágio

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Isabella Kwai
Londres

Pesquisadores da Alemanha talvez tenham algumas boas notícias para os espectadores frustrados de concertos em todo o mundo, cujas atividades foram restringidas pela difusão do coronavírus.

A análise de um concerto em espaço fechado organizado por cientistas em agosto indica que o impacto desse tipo de evento sobre a difusão do coronavírus é “entre muito baixo a baixo”, desde que os organizadores garantam ventilação adequada, protocolos de higiene rigorosos, e limitação na capacidade da sala, de acordo com os pesquisadores alemães que conduziram o estudo.

“Não existe argumento contra a realização de concertos desse tipo”, disse o médico Michael Gekle, parte da equipe da Universidade Martinho Lutero, em Halle-Wittenberg, que conduziu o estudo, em entrevista. “O risco de ser infectado é extremamente baixo”.

O resultado do estudo foi veiculado online e anunciado em uma entrevista coletiva na quinta-feira (5), mas ainda não passou por revisão científica.

O evento de teste, um dos primeiros exames detalhados de como o vírus poderia ser transmitido entre espectadores de um evento em espaço fechado, foi acompanhado atentamente pelo setor mundial de entretenimento, que teve suas atividades prejudicadas pelas restrições adotadas em função do lockdown na maioria dos países, desde que a pandemia irrompeu, no início do ano.

Alguns especialistas expressaram ceticismo sobre os resultados, afirmando que era necessário que eles fossem reproduzidos em novos testes, e que é preciso mais informação sobre a maneira pela qual os pesquisadores empregaram o modelo.

Gabriel Scally, médico que preside a área de epidemiologia e saúde pública na Real Sociedade de Medicina britânica, disse que as constatações eram potencialmente “úteis”. Ele também afirmou que poderia ser difícil reproduzir os controles que os pesquisadores adotaram quando as medidas tiverem de ser usadas em eventos reais.

Para averiguar os contatos durante o concerto, realizado em Leipzig, os voluntários foram examinados inicialmente para determinar se portavam o vírus, e passaram por controles de temperatura antes de entrar no local do espetáculo. Cada pessoa recebeu um desinfetante para as mãos que continha um corante luminescente e um rastreador digital de localização, e cenários distintos de distanciamento social foram simulados ao longo de dez horas. Entre eles, houve pausas para que os presentes usassem os banheiros e para que simulassem a compra de comida e bebida dos fornecedores da sala de espetáculos.

Os participantes não mantiveram distanciamento obrigatório, em um cenário. Respeitaram distanciamento parcial em um segundo. E ficaram distanciados rigorosamente no terceiro.

Os pesquisadores também usaram um gerador de nevoeiro para determinar a direção em que o ar se movia na sala, e calcular a probabilidade de exposição a gotículas em aerossol.

Em um dos modelos, bocais de jato posicionados no teto acima das fileiras de assentos mais elevadas da sala injetavam correntes de ar fresco na direção do piso. Em outro, o ar fresco era sugado para a sala, do topo do edifício, e os bocais de ar ficaram desligados.

Modelos de computador determinaram que dez vezes mais espectadores ficariam expostas aos aerossóis de uma pessoa contagiada no segundo cenário, comparado ao primeiro, o que indica que a circulação regular do ar reduz a densidade dos vírus presentes no aerossol, disseram os pesquisadores. O distanciamento social reduziu ainda mais a exposição aos aerossóis, segundo eles.

“Sabíamos que a ventilação era importante, mas não imaginávamos que fosse tão importante”, disse Gekle.

A simulação também determinou que o contato prolongado —de pelo menos diversos minutos— era mais alto durante as pausas na programação e no momento em que os espectadores entram na edificação.

Mas Paul Linden, professor de mecânica dos fluidos na Universidade de Cambridge, disse que o modelo de computador não havia levado em conta fatores como o calor que subia da audiência ou a turbulência do ar naquele espaço fechado, e que era difícil identificar com precisão se foi o padrão do fluxo do ar ou a ventilação menor no espaço que resultou em exposição mais ampla a aerossóis. Como regra geral, ele acrescentou, as salas precisam trazer o maior volume possível de ar limpo para dentro a fim de reduzir as taxas de contágio.

A equipe alemã já fez uma série de recomendações quanto a diretrizes de segurança em eventos ao vivo, entre as quais instalar novas tecnologias de ventilação que promovam troca efetiva e regular do ar, que as pausas para comer e beber sejam feitas com os espectadores sentados, que o uso de máscaras seja compulsório, e que os espectadores devem ser instruídos a chegar ao local por um número maior de portas.

Os organizadores de eventos receberam as constatações com otimismo cauteloso.

“Obviamente, se máscaras bastarão para eventos maiores, isso é um grande progresso”, disse Emily Eavis, uma das organizadoras do festival Glastonbury, no Reino Unido, um evento ao ar livre que atraía até 135 mil espectadores antes de ser cancelado por conta da pandemia, no trimestre passado, embora ela tenha acrescentado que era cedo demais para ter certeza. “Esperamos receber mais informações antes do final do ano”.

E pesquisadores de outros países estão trabalhando em estudos semelhantes na esperança de identificar uma maneira segura e viável de reabrir a vida noturna mesmo com a pandemia ainda presente.

“Estamos monitorando atentamente e com grande interesse todas as iniciativas semelhantes na Europa”, disse Marta Pallarès, porta-voz do Primavera Sound, um festival na Espanha, em email.

Os organizadores do Primavera Sound estão ajudando a conduzir um estudo para testar se exames rápidos do coronavírus podem ser uma medida eficiente de triagem em evento de música ao vivo. “Todos esses projetos são imensamente importantes a fim de garantir um novo futuro para a música ao vivo”, ela acrescentou.

Tradução de Paulo Migliacci

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