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Grifes cumprem acordo racial na São Paulo Fashion Week, que termina com lamento

Maioria dos modelos das apresentações era não brancos, e Isaac Silva e Ronaldo Fraga encerram temporada

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São Paulo

Foram necessários 25 anos de história, 50 edições, protestos do movimento negro em frente ao pavilhão da Bienal, um acordo com o Ministério Publico e, neste ano, um levante nas redes sociais. Mas, pela primeira vez, uma temporada da São Paulo Fashion Week, a SPFW, levou às passarelas um retrato mais realista dos tons de pele do país.

Depois de meses de debates entre a cúpula do evento, profissionais da indústria nacional e o coletivo Pretos na Moda, os 28 vídeos que mostraram rostos de modelos reais nesta edição virtual do evento cumpriram nova determinação de que pelo menos metade deles deveria ser negra, afrodescendente ou indígena.

É factível que se uma nova versão do documento no qual essa medida foi implementada não tivesse sido enviada antes do início das apresentações, incluindo asiáticos na cota, algumas marcas não teriam atingido por décimos o mínimo obrigatório. O detalhe, porém, não substituiria o fato de que, no computado de todos os desfiles, a média tenha ficado em torno de 70%.

O dado é uma estimativa baseada na quantidade de modelos não brancos que apareceram nas apresentações. O levantamento, porém, não é definitivo porque não foi possível contabilizar os possíveis laços sanguíneos das pessoas.

De acordo com a nova norma, podem entrar na proporção os modelos com segundo grau de parentesco, ou seja, afrodescendentes. No entanto, o cálculo é um salto se comparado aos 28% registrados na última análise deste jornal, em outubro de 2018.

O desajuste histórico na SPFW foi apontado pela primeira vez em 2008 e, vale lembrar, já foi tema do noticiário internacional. O debate, porém, não se restringe ao país.

O clamor por diversidade fez com que marcas centenárias, a exemplo da Gucci e da Prada, criassem conselhos de diversidade para definir estratégias de estímulo à inclusão racial e o combate ao racismo.
“A moda é um lugar de beleza, mas também de opressão”, disse Camila Simões, uma das fundadoras do Pretos na Moda, ao lado das parceiras no coletivo, Thayná Santos e Natasha Soares. Elas participaram de lives nos momentos finais do evento no domingo.

O trio diz que as conversas com a SPFW devem se desdobrar em planos de dar mais proporcionalidade ao setor.

Proporcionalidade também poderia resumir a penúltima apresentação desta São Paulo Fashion Week comemorativa. Quando o filme do estilista Isaac Silva começou, mostrando sua coleção “Jacira, Flores para Iemanjá”, três modelos de diferentes corpos, cores e gêneros apareceram na tela traduzindo o que a nova moda aponta para o mercado.

A coleção, que relaciona a orixá à memória de sua tia-avó que dá nome à coleção, destila silhuetas adaptáveis para vários biótipos brasileiros, além de conjurar um misto entre as técnicas de alfaiataria, vinculadas à ideia de elegância, e os traços de cultura e fé da população negra. O branco do início da apresentação se transmuta em listrados que, de perto, são linhas sinuosas como as ondas do mar que recebe as oferendas.

As flores, no vestido branco, parecem saudações costuradas com cuidado em base simples, como deixaram expostas a maioria das coleções desta SPFW, mas modelada com o rigor de quem tem uma visão sobre a diversidade de corpos e gostos do país.

Isso fica evidente nos pés, que em vez de calçados chiques, recebe os chinelos Havaianas mais simples, azuis e brancos como o manto de Iemanjá, que no país aparece ainda no catolicismo como Nossa Senhora da Conceição, ou a própria Virgem Maria.

Falar do país, sobre seus símbolos e sobre sua própria história foi o que conduziu também a performance final desta temporada de desfiles.

Ronaldo Fraga lembrou o périplo da estilista Zuzu Angel, que começou com a busca do filho morto pela ditadura e culminou em sua morte pelas mãos dos militares. Grande parte do vídeo simula uma conversa entre ele e a colega de profissão que há 20 anos inspirou outro desfile dele.

No papo imaginário, regado a vinho num apartamento pequeno no qual se via da janela prédios pegando fogo, Fraga mostra sua indignação com a chegada de miliares ao poder —do setor da moda, ele talvez seja o que mais vai expõe sua posição contrária ao governo de Jair Bolsonaro.

Uma modelo criada em computador, construída para representar os traços, os cabelos e a silhueta de Zuzu Angel, passeou sozinha em volta da mesa, coberta da chita de que a estilista tanto gostava, exibindo a nova coleção.

Eram roupas que ficam no segundo plano, sõ como motivo para a apresentação, mas que carregam simbolismo importante pelo fato de que foram produzidas em parceria com comunidades de rendeiras do Cariri paraibano. Fraga, hoje, no calendário da SPFW, é o maior entusiasta dos tesouros têxteis do país.

Nos minutos finais do filme, o que melhor explorou a capacidade do formato audiovisual proposto pelo evento, a cantora Cida Moreira surgiu ao vivo, do alto de um hotel de São Paulo, para cantar a
música “Angélica”, de Chico Buarque, feita por ele em homenagem à amiga estilista.

O lamento sonoro, de teor político como teve boa parte dos desfiles deste calendário paulistano de moda, traduziu em notas a aura ativista da temporada, as mudanças alinhadas com o humor vigente no mundo, que, nos últimos dias, parece estar vendo surgir alguma esperança por meio da representatividade.

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