Melody Gardot alterou letras e ocultou autoria de canções em novo disco, diz músico

Cantora de jazz teria mudado títulos e versos de faixas de Pierre Aderne e usado versões em seu álbum; ela não se manifestou

São Paulo

Há cinco anos, quatro músicos se reuniram no sítio do pintor Gonçalo Ivo, em Teresópolis, para compor.

Uma foto da época mostra a cantora de jazz Melody Gardot olhando com expressão alegre para o compositor Pierre Aderne; sentado ao lado deles, Philippe Baden Powell toca violão. O trio está no meio do verde da mata atlântica, e o clima é descontraído.

As sessões musicais dos 15 dias passados no sítio seriam o embrião de algumas canções incluídas no recém-lançado disco de Gardot, “Sunset in the Blue”, segundo relatos de participantes daqueles ensaios. Mas uma destas pessoas afirma ter sido prejudicada pela cantora.

Aderne —compositor brasileiro com décadas de carreira, que já escreveu músicas para Seu Jorge e para o cantor português de fado António Zambujo, entre outros— diz que quatro músicas compostas por ele em parceria com Gardot nos últimos anos acabaram no disco dela sem que seu nome fosse creditado. Ao menos uma foi fruto das sessões intimistas em Teresópolis.

A cantora e compositora Melody Gardot, em sessão de fotos em Paris - Joel Saget -17.jun.2020/AFP

A cantora de 35 anos —que ganhou destaque na cena de jazz na última década com sua elogiada voz—, mudou os títulos destas músicas e fez alterações nas letras, para que pudesse assinar como se fossem composições só suas, acrescenta Aderne. Ela teria também, de acordo com o compositor, tentado negociar royalties mais baixos para ele.

Procurados, a cantora e a Universal, representante da Decca no Brasil, não se manifestaram.

“Eu fiquei muito mais triste do que com raiva, até porque era uma relação de amizade, desses anos todos. Não é só uma pessoa que eu encontrei para escrever, é uma pessoa que faz parte da minha intimidade, que conhece meu filho. Mandei um e-mail dizendo 'você mudou as letras, você mudou os títulos, mas essas ainda são as músicas que escrevemos juntos”, afirma Aderne, que diz compor com ela desde que se conheceram, em 2012.

Uma das canções alteradas, ele relata, foi “Com Vista pro Mar”, composta pela dupla em Paris, no final do ano passado, e que no disco de Gardot virou “Um Beijo”. A versão final que está no álbum, no caso, tem um refrão quase igual à daquela divulgada por Aderne em suas redes sociais, bem como a repetição constante da expressão “tantas vezes”.

As outras canções alteradas, segundo o músico, foram “Let me Show You Where To Go”, que virou “If You Love Me”, “Ave”, renomeada “Ave Maria”, e “Saudades Vem”, que aparece no álbum de Gardot como “Ninguém, Ninguém”. O nome do compositor não está nos créditos de nenhuma destas faixas.

Descrito pelo site Allmusic como tendo um “brilho profundamente arrebatador” e uma interpretação memorável de “Moon River”, de Henry Mancini, o quinto disco de Gardot —excluindo um ao vivo— foi gravado entre 2019 e 2020 em vários estúdios, dentre os quais os icônicos Abbey Road, em Londres, e Capitol, em Los Angeles, e finalizado em Paris, onde ela mora.

Parte das canções de “Sunset in the Blue” foram executadas num primeiro momento em uma turnê pelo Japão, há quatro anos, com um quarteto que reunia, além da dupla Gardot e Aderne, Philippe Baden Powell no piano e Dadi Carvalho no baixo.

O repertório desta turnê foi mais tarde registrado num estúdio no Rio de Janeiro e então apresentado à gravadora da cantora, a britânica Decca, pois o grupo tinha a ideia de lançá-lo oficialmente. A empresa, contudo, não gostou do que ouviu e recusou o projeto do disco, de acordo com Aderne e com Powell.

Powell conta ter percebido que a cantora era tratada de forma especial pela gravadora. Caso a empresa topasse lançar um disco do quarteto, teria que ser em prol dos interesses dela, em detrimento dos objetivos do grupo, ele afirma.

Powell diz ainda acreditar que as supostas mudanças feitas por Gardot nas quatro faixas em questão foram uma maneira que ela encontrou para colocar as músicas do quarteto no seu disco solo, à revelia da gravadora, de acordo com o que ela teria lhe contado. O selo teria pressionado a cantora para que fizesse um álbum só com standards de jazz.

“O Pierre [Aderne] e a Melody são muito próximos. Não consigo acreditar que a Melody tenha feito isso para prejudicar o Pierre”, diz Powell. Segundo ele, a cantora manteve algumas faixas compostas por Aderne intactas no disco, como “From Paris With Love”, “There Where He Lives In Me” e “C’est Magnifique” —nestas, o compositor está creditado.

Gardot se aproximou da bossa nova e de músicos brasileiros após sofrer um terrível acidente de bicicleta em 2003, que a deixou sem andar por dois anos e com altíssima sensibilidade à luz, motivo pelo qual está quase sempre usando óculos escuros.

Numa entrevista à rádio americana NPR, a cantora do estado de Nova Jersey contou que, enquanto estava hospitalizada, ganhou uma compilação de bossa nova interpretada pelo saxofonista Stan Getz e ficou encantada com Astrud Gilberto cantando “Garota de Ipanema” em inglês.

Enfim recuperada, ela viajou ao Brasil para entender melhor a cultura do país, e mais tarde gravou com o violoncelista Jaques Morelenbaum e violonista Yamandu Costa. Depois, morou em Portugal, onde aprendeu português e conheceu, por intermédio de um amigo em comum, Pierre Aderne, radicado em Lisboa.

Diante do imbróglio atual, a editora que administra as composições de Aderne fez uma reclamação junto à editora de Gardot, pedindo que as quatro faixas supostamente alteradas por ela sejam removidas dos serviços de streaming e que as originais sejam postas no lugar.

O compositor afirma ter vontade de que o público tenha acesso às músicas originais, e não a versões, que compara a “covers de bar”. Ele diz ter certeza de que ela se arrepende do que fez, pois “as canções não merecem isso, nem nós”, e relata estar tentando resolver a situação da forma mais amigável possível.

Entenda o imbróglio

  • O compositor Pierre Aderne afirma que Melody Gardot alterou títulos e letras de quatro composições suas feitas em parceria com ela, mas não o creditou; estas faixas foram usadas no recém-lançado disco da cantora de jazz, “Sunset in the Blue”, segundo ele
  • Aderne quer a remoção das faixas supostamente alteradas dos serviços de streaming e pede que, no seu lugar, sejam colocadas as músicas originais —ele publicou uma delas em suas redes sociais
  • Das 12 faixas de “Sunset in the Blue”, o compositor aparece creditado em três, sempre junto com Gardot, com quem mantém uma parceria musical de vários anos
  • Tendo recebido boa recepção da crítica, que elogia a habilidade vocal da cantora, “Sunset in the Blue” é o quinto disco de estúdio de Gardot, no qual ela canta músicas próprias em inglês e português e também alguns clássicos do jazz
  • “Sunset in the Blue” teve produção de Larry Klein, que já trabalhou com Joni Mitchell e Bob Dylan, e do arranjador Vince Mendoza, de discos de Björk e Elvis Costello
  • Na última década, Gardot firmou seu nome no circuito de jazz, lançando discos pelo selo Verve —hoje pertencente à Universal—, gravadora dos EUA que, desde o final dos anos 1950, é sinônimo do estilo

Sunset in the Blue

  • Onde Nas plataformas digitais
  • Autor Melody Gardot
  • Gravadora Decca/Verve
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