Descrição de chapéu
Pedro Almeida

Mercado editorial precisa ir além do discurso contra o racismo

Não se explica como alguém que foi indiferente à discriminação pode se transformar em paladino da justiça

Pedro Almeida

Há um movimento de valorização das obras de autores negros, mas é preciso estar atento para o direito legítimo não se transformar em moda e, daqui a pouco, passar.

Percebi a falta de espaço para negros no ambiente editorial quando ela me foi apontada por negros. Fato óbvio, mas negado na prática.

Integrei por três anos o conselho do prêmio Jabuti, até o presidir em 2019, ano em que Conceição Evaristo foi escolhida para ser homenageada —fato inédito em premiações nacionais.

Para a edição daquele ano, convidamos negros para mestre de cerimônias e apresentação. Questionaram: estávamos produzindo um Jabuti preto? A pergunta deveria ser: por que não houve negros antes?

É notória a falta de espaços, mas por que continuam escassos? A consciência pública do problema não é suficiente. Falamos de preconceito como se fosse perpetrado pelos outros. Não. Ele foi mantido pela elite cultural, que funciona como entidade fechada. Mais de 120 anos e não termos nenhuma escritora negra na ABL não é coincidência.

É preciso abrir espaço em todas as áreas, por isso a necessidade das cotas. No caso de Evaristo, Ruth Guimarães, Maria Firmina, Geni Guimarães, faltou apenas não impedir o acesso: a literatura delas faria o trabalho.

Durante a cerimônia de premiação, aconteceu um fato pessoalmente significativo. Quando apresentamos as imagens dos jurados, percebi a quantidade ínfima de negros.

Escrevi para o Quilombhoje, que produz "Os Cadernos Negros" há 40 anos revelando talentos da literatura feita por negros, e contei que me sentia envergonhado. Pedi que indicassem jurados para 2020. Não escolheríamos pelo tom da pele, mas pela qualificação, que sabemos haver.

Essa decisão veio de outra descoberta: o cânone europeu não dá conta de apreciar os distintos aspectos dessa literatura, o que acabou por apagar a contribuição de tantos escritores da literatura nacional. Sem jurados que entendessem o conceito, nada iria mudar. Precisava incluir negros na fase que decide o prêmio.

Ao lançar livros de Ruth Guimarães, percebi que ela sempre é citada como autora negra. Ela é uma autora muito importante e com trabalho de altíssima qualidade. Ela e outros estão sendo redescobertos porque o mercado editorial não pôde continuar como uma reserva de escritores de bairros modernos dos grandes centros. A vasta obra de Guimarães, que ficou fora de catálogo por anos, é sinal de algo que deve ser corrigido.

Dois aspectos me chamaram a atenção sobre o seu lugar na literatura: o de sua capacidade e o que ela, de fato, alcançou. Guimarães é a versão feminina de Câmara Cascudo e Mário de Andrade, tanto no registro do folclore quanto na pesquisa. Mas não teve o mesmo espaço nas editoras e nas escolas.

Recentemente me perguntaram por que Guimarães só está sendo redescoberta depois de Maria Firmina e Carolina de Jesus. Só consigo pensar que é por ela ter tido grande importância acadêmica e não ter morrido na miséria —uma cilada da elite cultural de buscar outsiders ao os destacar por um viés externo à qualidade das obras. Muitas vezes uma "reparação" pode ser um meio de manter tudo exatamente onde estava.

Há uma prática repetida de brancos que tentam se tornar porta-vozes antirracistas: ao descobrirem o fato, logo se sentem capazes de dar lições. Deveriam assumir que seus discursos partem de reconhecimento de culpa. Como alguém que foi indiferente à discriminação pode se transformar no paladino da justiça racial?

Brancos podem escrever sobre racismo, mas não tomar o lugar dos negros de falarem.

Hoje as pessoas estão atentas ao discurso antirracista, que não se sustenta sem uma família miscigenada, sem negros em postos relevantes em empresas. Quem praticou o racismo está mudando —por reconhecerem a discriminação ou receio de serem confrontados pelo discurso vazio que situa brancos como benfeitores e transformam em produto a desigualdade que ajudaram a construir.

Pedro Almeida

É jornalista e professor de literatura. Editor há 26 anos, é membro do conselho do Prêmio Jabuti desde 2016 e sócio da Faro Editorial.

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