Movimento estudantil segue como 'pedra no sapato' de governos, dizem debatedores

Debate sobre documentário 'Libelu - Abaixo a Ditadura' trouxe semelhanças com momento atual

São Paulo

Mudanças variadas ocorreram no perfil do movimento estudantil universitário ao longo das últimas quatro décadas. Além das principais bandeiras, que em meados de 1970 bradavam contra a ditadura militar e hoje se expandem para condições de permanência e autonomia universitária, houve também uma mudança de perfil: mais negros na linha de frente e mais mulheres na liderança.

Aluna do 5º ano de Relações Públicas na Universidade de São Paulo (USP) e diretora do centro acadêmico da Escola de Comunicações e Artes (ECA), Maria Luiza Nogueira acredita que parte da mudança se deve às transformações no perfil socioeconômico dos ingressantes.

“A democratização do acesso ao ensino a partir da política de cotas inaugura um novo formato de organização do movimento estudantil”, diz.

Segundo pesquisa do IBGE, 2019 foi o primeiro ano em que o número de alunos pardos e negros matriculados em universidades públicas brasileiras superou o de brancos.

Na USP, o estímulo institucional veio apenas em 2017, quando a universidade aprovou as cotas. E em 2021, pela primeira vez, metade das vagas do vestibular será destinada para candidatos da rede pública.

Apesar da mudança de perfil, o passar dos anos também deixou paralelos entre os movimentos estudantis. Algo que permanece são os reflexos que a conjuntura política nacional imprime na dinâmica dos estudantes —e vice-versa—, concordam os participantes do debate sobre o documentário “Libelu - Abaixo a Ditadura”, promovido pela Folha na quarta-feira (4).

O longa, de Diógenes Muniz, venceu o festival É Tudo Verdade 2020 e tem rendido elogios pelo resgate histórico que faz da Liberdade e Luta, tendência do movimento estudantil universitário construída durante a ditadura militar.

A obra mescla imagens de arquivo e depoimentos atuais dos ex-Libelus, muitos deles estudantes da USP na época, e busca entender como os militantes —hoje jornalistas, economistas, cientistas políticos— enxergam os frutos colhidos e o estado atual da democracia brasileira.

Uma das críticas que o documentário recebeu foi o suposto excesso de ênfase na irreverência cultural da tendência, que fazia uso incomum das artes e comunicações, e pouco no programa político do grupo.

O diretor, Diógenes Muniz, rebate. “As formulações políticas estão no filme. É possível ver a aliança operária estudantil, a crítica aos sindicatos, considerados pelegos pela Libelu, a crítica ao Lula, a campanha pela anistia.”

Vera Paiva, professora do Instituto de Psicologia da USP e ex-militante da Refazendo, tendência contemporânea da Libelu, diz que a obra cumpre um papel importante na preservação da memória e ajuda a suprir lacunas nas produções sobre o período.

"Tem uma tradição, no Brasil, de falar sobre 1968 e Diretas Já, mas se pula a geração de 1977, que teve um papel fundamental na reconstrução da democracia”, afirma.

O jornalista Ricardo Melo, ex-Libelu, vê nos movimentos atuais “uma passividade”, que destoa da época em que compôs as fileiras estudantis. Ainda assim, vê na juventude “uma inquietação, uma vontade de romper com grilhões”.

Se na época da Libelu o autoritarismo militar empurrava os universitários para uma mobilização organizada em defesa da redemocratização, dizem os debatedores, a última década viu movimentos mais amplos, muitos ligados à representatividade, ganharem espaço nas assembleias estudantis.

A "primavera feminista" de 2015, diz Maria Luiza, estudante da ECA e ativista do movimento negro, deixou legados.

“Foram fundados vários coletivos feministas que se espraiaram para dentro do movimento estudantil. Vimos dois aspectos: a formação de novas lideranças, muitas delas mulheres, e a incorporação de uma série de tarefas ligadas à mobilização feminista.”

As ocupações secundaristas de 2016, que se opunham à reorganização escolar proposta pelo governo de São Paulo e culminaram na renúncia do secretário de Educação Herman Voorwald, também tiveram peso.

Vera Paiva afirma que é possível ver mudança no perfil de consciência dos novos universitários que vivenciaram o movimento secundarista, e que houve um efeito rebote, mais conservador, que reagiu às ondas estudantis nos colégios e nas universidades.

“Houve uma radicalização da ideologia de gênero na escola e uma tentativa de controlar o professorado. Não era assim antes. 2016 provocou uma reação enorme.”

“A juventude segue dando demonstrações importantes e sendo extremamente crítica em relação aos governos. É uma pedra no sapato”, completa Maria Luiza.


Assista ao debate:


O debate teve mediação da jornalista Bianka Vieira, repórter da coluna Mônica Bergamo e responsável pela pesquisa e assistência de direção do filme.

"Libelu - Abaixo a Ditadura" ainda não tem data para estrear nos cinemas nas e plataformas de streaming em razão da pandemia de Covid-19.

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