Descrição de chapéu The Wall Street Journal Coronavírus

Museus apostam na arte como terapia para acalmar os nervos em meio à pandemia

Para reconquistar o público, instituições estão expondo obras que visam fomentar tranquilidade e esperança

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Judith H. Dobrzynski
The Wall Street Journal

Quando a pandemia do novo coronavírus começou a se propagar, no início deste ano, o Bass Museum of Art, em Miami, se viu diante de um problema. Uma exposição que fazia parte de sua programação —"Hi, How Are You, Gonzo?”, de Abraham Cruzvillegas— era interativa. “Envolvia muito o ato de tocar, muitos micróbios”, explicou a diretora executiva e curadora-chefe do museu, Silvia Karman Cubiñá. “Não foi possível.”

Mas neste mês o museu começou a erguer uma instalação de Cruzvillegas que casa perfeitamente com os tempos de pandemia. “Agua Dulce” cobre uma área de quase 1.300 metros quadrados no parque que cerca o museu e contém mais de mil plantas nativas, incluindo muitas que supostamente possuem propriedades medicinais.

Bancos feitos de materiais locais e artistas que imitam o canto de pássaros e o zunzunzum de insetos completam o ambiente, que tem como finalidade ajudar os visitantes a se curar emocionalmente e aliviar o estresse provocado pela pandemia.

No início do ano, o Rubin Museum of Art, de Nova York, decidiu converter seu terceiro piso num laboratório de mandalas, um espaço de 250 metros quadrados dedicado ao aprendizado social e emocional e que aproveita a especialidade do museu, a arte do Himalaia. O diretor executivo do museu, Jorri Britschtgi, disse que na primavera, quando a Covid-19 estava impondo um lockdown à cidade, o plano pareceu ainda mais oportuno.

O projeto custou entre US$ 1,2 milhão, ou R$ 6,4 milhões, e US$ 1,5 milhão, ou R$ 8 milhões, e inclui trabalhos novos de 15 artistas. Os visitantes podem apreciar obras de arte ligadas ao mindfulness e outras práticas budistas. O objetivo é ajudar as pessoas a trabalhar sua ansiedade e lidar com as dificuldades pessoais e sociais intensificadas deste ano. A construção já começou, e o laboratório vai abrir as portas no segundo semestre de 2021.

Boa parte da arte contemporânea popular visa provocar. Mas, neste ano já tão atribulado, alguns museus, como o Bass e o Rubin, estão instalando obras e mostras que visam fazer o oposto. Estão dando destaque ao lado meditativo e até espiritual, com mostras que pretendem acalmar os nervos, facilitar a comunicação, fomentar a exploração de emoções e propiciar a superação do estresse.

Esse impulso nasceu de anos de experiência com a arteterapia, que começou a ganhar popularidade crescente muito antes da pandemia. Muitos museus atendem veteranos de guerra que sofrem com lembranças traumáticas com programas em que os eles fazem arte, estudam ou fazem as duas coisas.

Desde 2018 o Currier Museum of Art, em Manchester, no estado americano de New Hampshire, realiza um programa semanal que reúne famílias afetadas pela crise dos opiáceos. As pessoas olham obras de arte e refletem sobre um tema, como a resiliência ou a vergonha. “Recentemente ampliamos o programa para abranger também a ansiedade adolescente”, contou o diretor do Currier, Alan Chong.

No Canadá, médicos receitam visitas ao Museu de Belas Artes de Montreal como tônico para pacientes com enfermidades crônicas como diabetes, mandando 405 pacientes por ano ao museu, até março, quando o coronavírus fez as visitas serem suspensas.

O museu foi autorizado a reabrir em junho, com ingressos limitados e cronometrados, mas instruído a fechar as portas novamente entre 1º de outubro e 23 de novembro. A instituição ainda promove programas terapêuticos virtuais baseados em seu acervo permanente e voltados a pessoas com doença de Parkinson, autismo e outras.

“Durante a pandemia venho usando muitas cenas de natureza. Parece que isso ajuda as pessoas a explorar a dimensão imaginária mais livremente”, disse Stephen Legari, diretor de programas educacionais de arteterapia do museu.

O Museu de Arte de Nova Orleans fechou as portas na primavera americana, mas reabriu em julho recebendo 50% do fluxo normal de visitantes, além de outras precauções. Pouco depois de a pandemia começar, o museu decidiu montar uma exposição para ajudar os visitantes a lidar com a situação, imaginando o mundo depois da peste e outras calamidades, como as tempestades violentas e recorrentes na região.

Onze artistas receberam encomendas de obras enfocando perdas e incerteza, mas também esperança e superação. A exposição “Mending the Sky”, ou consertando o céu, em português, abriu em outubro e deve seu título a uma instalação de Beili Liu baseada em uma fábula chinesa na qual uma deusa costura um rasgo no céu onde incêndios, fome e doenças chovem sobre a terra.

A curadora da exposição, Katie Pfohl, disse que observou visitantes nas galerias e viu como “seus ombros relaxam e seus rostos se iluminam” quando veem a instalação de Liu. “Às vezes as pessoas ficam sentadas por horas assistindo a vídeos no resto da exposição”, disse ela.

Segundo Pfohl, muitos museus, fechados há meses, não têm os recursos que precisariam para promover exposições novas e diferentes. Mas alguns poucos reconheceram a influência do vírus, com projetos e trabalhos online que sugerem esperança, como o trabalho de Yoko Ono encomendado pelo Metropolitan Museum of Art, “Dream Together”, composto de duas faixas penduradas na fachada do museu. Alguns museus oferecem ingresso gratuito ou prioritário a profissionais de saúde.

O vírus também afetou Cruzvillegas, artista conceitual mexicano que vive e leciona em Paris. Trabalhando de longe devido às limitações impostas às viagens, ele ainda não pôde ver o local de sua nova instalação em Miami, muito menos planejar a mostra pessoalmente.

“Agua Dulce” leva adiante sua prática de enfocar o local, além da sustentabilidade e adaptabilidade. Como é seu costume, Cruzvillegas pesquisou espécies vegetais locais e como se propagam, consultando o livro “Healing Plants: Medicine of the Florida Seminole Indians”, de Alice Micco Snow e Susan Enns Stans. Acabou por escolher 23 espécies nativas.

Juntamente com a equipe do museu Bass e com um consultor ambiental do estado da Flórida, Cruzvillegas planejou a mostra com desenhos, muitos emails longos e detalhados e várias videoconferências. Ele indicou que o aspecto curador da amostra é algo oblíquo, e não direto. “Não sou xamã”, destacou. Ele enxerga a própria natureza como o agente curador.

O museu Bass —que durante este período também está promovendo outras mostras ligadas à pandemia e tratando de solidão, isolamento e resiliência— espera que “Agua Dulce” atue como bálsamo de efeito prolongado. Quando a instalação fechar, dentro de seis meses, as plantas serão arrancadas e dadas aos visitantes.

Tradução de Clara Allain

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