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Novo álbum de Toquinho transborda variedade, mas não é obra-prima

'A Arte de Viver' não chega a brilhar, mas também não abre espaços para nuvens escuras

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A arte de Viver

  • Quando 6 de novembro
  • Onde Todas as plataformas digitais
  • Autor Toquinho
  • Produção Rafael Ramos
  • Gravadora Deck

Além do violão de excelência, Antonio Pecci Filho, o Toquinho, parece imprimir em seus trabalhos a leveza que seu sorriso traduz. Não é diferente no primeiro álbum de inéditas que ele lança em nove anos, “A Arte de Viver”.

O fio óbvio que liga as 11 faixas é o fato de todas serem parcerias com Paulo César Pinheiro. A dupla repete, depois de um longo hiato, a experiência de “Mosaico”, lançado em 2005. Mas também há a esperança que resiste mesmo numa canção de amor desfeito, como “Papo Final”. No duo, Maria Rita faz aquela que, cansada de sofrer, não aceita dar outra chance. Toquinho é o homem que aposta em mais um recomeço.

Nos extremos do disco, está clara a crença de que vale a pena olhar para frente. A primeira música já mostra a que veio no título, “A Arte de Viver”, do verso “o mundo é um brinquedo pra quem merecer”. A última é um samba cantado em coro, com participação de Paulo César Pinheiro e fé em que as coisas podem mudar. “A aliança do plebeu é a queda do imperador”, afirma a letra.

Não há qualquer obra-prima no repertório. É certo que eles já fizeram composições melhores em suas cinco décadas de carreira. Mas há coesão pelos motivos já lembrados aqui. A variedade de gêneros usados não nega isso, mas confirma.

A valsa “Amor Pequeno”, com solo do sempre perfeito bandolinista Hamilton de Holanda, tem letra triste, mas não cruel. E, no final, está lá a esperança em “de novo amar”.

Se, na valsa, Pinheiro gira em torno de rimas em “eno”, na modinha “Rainha e Rei” os versos terminam em “inha”, reforçando a delicadeza da melodia. A voz tão suave quanto firme de Camilla Faustino —também presente em “Roda da Sorte”— completa a gravação graciosa.

No maxixe “Ousadia”, Pinheiro aproveita o gênero do início do século 20 para temperar a letra com “faceira”, “balaio”, “mestiça”, “molejo”, “Iaiá” e outras palavras que rescendem a tempos há muito idos —algumas imagens nem passam pelo crivo do politicamente correto de hoje.

O disco do paulistano Toquinho foi realizado no Rio de Janeiro, cidade da gravadora Deck e do produtor Rafael Ramos. Por isso, tantos músicos da vida carioca na ficha técnica, tais como Paulão 7 Cordas, no violão, Jorge Helder, no contrabaixo, e Thiago da Serrinha, na percussão. O violão de Toquinho, por vezes, fica discreto demais nos arranjos.

Não é o que acontece, muito apropriadamente, no alegre samba “Mão de Orfeu”, homenagem a um gênio do instrumento, Baden Powell. De Toquinho, Baden foi amigo e mestre; de Pinheiro, amigo e parceiro em dezenas de composições. Mas as duas que ganham menções na interpretação são “Samba da Benção” e “Deixa”, feitas com Vinicius de Moraes —também parceiro de Toquinho.

Outro tema alegre, mas aspirante a crônica política, é um momento de resultado infeliz. A letra de “Fato Novo”, frágil a exaltar as prisões de poderosos brasileiros, soa a um “samba da Lava-Jato”, ode que o tempo mostrou discutível— por causa dos atalhos pouco republicanos tomados pela força-tarefa da operação e pelo juiz Sergio Moro.

O samba com toques de fox “Quero Ficar com Você” é caso explícito de leveza, enquanto a trova “Medieval” é lúgubre sem chegar a ser sombria.

Embora o conjunto de músicas não chegue a brilhar, nuvens escuras quase não há em “A Arte de Viver”. Saímos da audição até com alguma esperança na vida —o que não é pouco nestes tempos.

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