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Cinema

'Pacarrete' liberta Marcélia Cartaxo de arquétipo de Macabéa

Em longa de Allan Deberton, atriz vive mulher apegada à cultura erudita e em oposição à cidade caipira

Pacarrete

  • Onde Em cartaz nos cinemas
  • Elenco Marcélia Cartaxo, Zezita Matos, Soia Lira
  • Produção Brasil, 2019
  • Direção Allan Deberton

Desde que apareceu, como a Macabéa de “A Hora da Estrela”, em 1985, Marcélia Cartaxo ficou aprisionada ao tipo da nordestina pobre, triste e tímida que a marcou tão fortemente naquele momento.

Esse é um mal-entendido que “Pacarrete” desfaz com desenvoltura. Ao menos nos primeiros dois terços do filme, Cartaxo faz com enorme facilidade um tipo que se parece mais ao que é —extrovertida e alegre o bastante para sustentar o tom da comédia.

Ou um pouco mais. Marcélia Cartaxo é o filme ou, pelo menos, o eixo em torno do qual ele existe.

Começando pelo começo, Pacarrete, papel de Cartaxo, é uma professora aposentada que para estar próxima da irmã troca Fortaleza pela cidade de Russas, no interior do Ceará. Desde então, o deslocamento de Pacarrete pode ser diferente, mas não maior que o de Macabéa.

A atriz Marcélia Cartaxo em cena de ‘Pacarrete’, filme do diretor Allan Deberton - Divulgação

Ela sente falta da metrópole próxima do exterior, da Paris mítica que tem na cabeça, de uma cultura europeizada. Sente falta de sua juventude, também.

Tudo isso ela deseja compensar dançando “A Morte do Cisne” na festa da cidade. Ocorre que tal apresentação se daria num palco onde o forró é que dá o tom. E Pacarrete, se um dia foi boa bailarina, hoje mal se aguenta nas pernas.

É nessa circunstância que conhecemos a personalidade extrovertida e excêntrica de Pacarrete, que luta para impor a “grande cultura” de que se considera portadora à cidade caipira. A cidade reage ora de modo condescendente —como faz o dono do bar, papel de João Miguel—, mas quase sempre a tratando mesmo de amalucada.

É de tudo isso que Cartaxo dá conta com humor, embora um tanto à custa do conjunto —Allan Deberton apoia boa parte do filme, excessivamente, na atriz e na palavra.

A boa produção dá a impressão, por vezes, de estarmos diante de um daqueles filmes da Embrafilme feitos na década de 1980. Ou seja, embora não haja excessos tolos na realização, feitos só para impressionar, sobra pouco espaço para invenção, para planos como aquele (a meu gosto o melhor do filme) que junta uma tela de TV onde dança uma bailarina, Pacarrete diante dela, numa imitação lamentável, e ao fundo a empregada que limpa a casa com o esfregão.

Dito isso, é preciso deixar claro que “Pacarrete” não é apenas o que se chama de “filme veículo” para uma estrela nem tem a “qualidade” como fim. No centro da produção está um feixe de questões que envolvem a dicotomia entre arte (e sentimento) popular ou erudito, autóctone (ou similar a isso) ou importado, o sonho de ser (francesa, no caso de Pacarrete) e a realidade de ser brasileira, a loucura e a sanidade etc.

Podemos argumentar que não são problemas exatamente novos. Em compensação não se pode dizer que sejam superados. Allan Deberton se serve deles para chegar a um filme que trabalha a comédia e o melodrama com bom andamento e desenvoltura nas transições, e ninguém dirá que isso é um mau começo para quem faz seu primeiro longa. Este é um interessante compromisso com o cinema popular.

Talvez o cinema popular já não exista (pior para o cinema), mas se “Pacarrete” é uma homenagem a sonhos impossíveis, ressuscitar esse cinema pode ser outro sonho, mas bem em sintonia com a personagem e com o próprio filme.

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