Descrição de chapéu The New York Times

A palavra que marcou 2020 para o dicionário Oxford? É bem difícil isolar uma só

Diante da pandemia do novo coronavírus, nada mais justo do que escolher uma série de termos

Jennifer Schuessler
The New York Times

A palavra do ano da Oxford Languages costuma ser um tributo à criatividade multiforme da língua inglesa e à realidade da constante mudança linguística, iluminando neologismos oportunos como “selfie”, “vape” e “unfriend”.

É claro que nem todo ano vê tanta diversão lexicográfica. O ano de 2017 coroou o termo “tóxico”. No ano passado, o vencedor foi o termo “emergência climática". Mas aí chegou 2020 —e você sabe o quê.

Este ano, a Oxford Languages, que publica o Oxford English Dictionary, decidiu abdicar da seleção de uma palavra só e preferiu destacar o impacto súbito e acelerado da pandemia sobre o idioma inglês. “O que a equipe viu como distintivo em 2020 foi a imensa escala e escopo da mudança”, disse Katherine Connor Martin, diretora de produto da empresa, em entrevista. “O evento foi experimentado em todo o mundo e, por sua natureza, mudou a maneira pela qual expressamos todas as demais coisas que aconteceram neste ano.”

Boca de alguém com a língua tocando teclas de teclado
'Poema', obra da artista plástica Lenora de Barros - Divulgação

A palavra do ano se baseia em dados de uso extraídos do banco continuamente atualizado de mais de 11 bilhões de palavras recolhidas pela Oxford Languages, de fontes noticiosas de todo o mundo de fala inglesa. A seleção tem por objetivo “refletir o clima, espírito e preocupações” do ano precedente, mas selecionando termos que também tenham “potencial duradouro de importância cultural”.

O relatório sobre 2020 destaca alguns neologismos espertos como “blursday”, um termo que combina a palavra em inglês para “borrão” e o termo para “dia” e denota a passagem indistinta do tempo em meio à pandemia; “covidiotas” (vocês sabem de quem estamos falando); e “doomscrolling” (ler ininterruptamente notícias pessimistas) —quem, eu? Mas a seleção parece em geral sublinhar até que ponto a pandemia dominou a conversação pública e nos propiciou um novo vocabulário coletivo aparentemente do dia para a noite.

Um exemplo é o termo “pandemia”. Seu uso cresceu em mais de 57.000% desde o ano passado. "Coronavírus”, uma palavra cunhada em 1968 mas até o ano passado raramente usada fora do contexto médico, também disparou.

Em janeiro, ela corria lado a lado contra “impeachment”, cujo uso estava em alta por causa do processo contra o presidente americano Donald Trump. Mas, em abril, “coronavírus” havia se tornado um dos substantivos de uso mais comum no inglês, superando até mesmo termos frequentes como “tempo”.

E isso, disse Martin, é altamente incomum, talvez até inédito (mais uma palavra cujo uso disparou, de acordo com o relatório). Usualmente, quando uma palavra tópica dispara, segundo ela, “se torna mais comum em relação ao uso de outros termos tópicos, mas não com relação a palavras que usamos o tempo todo em inglês”.

O relatório da Oxford Languages também destaca palavras e frases relacionadas à justiça social, entre as quais “Black Lives Matter”, “Juneteenth”, “descolonizar” e “allyship” (união entre aliados), algumas das quais registraram alta dramática de uso a partir do final de maio, em meio aos protestos causados pela morte de George Floyd em custódia da polícia. Mas a ascensão desses termos, embora notável, não chegou nem perto da alta no uso de termos associados à pandemia.

E a pandemia pode ter reduzido a frequência de uso de outros termos tópicos. No ano passado, a Oxford Languages divulgou um “short list” de termos associados ao clima, encimado por “emergência climática”. Mas, em março, com o avanço da pandemia, a frequência de uso da palavra “clima” caiu em quase 50%.

(O uso do termo se recuperou um pouco, mais tarde, e o relatório também registrou o surgimento de novos termos relacionados ao clima, como “antropausa”, proposto em um artigo publicado em junho pela revista Science para descrever a redução súbita e drástica da mobilidade humana e seu impacto sobre o mundo natural.)

A pandemia fez de termos de saúde pública antes obscuros, como “distanciamento social” e “atenuar a curva”, expressões de uso cotidiano e tornou comum o uso de termos como “lockdown” e “stay-at-home” ("ficar-em-casa"). De modo mais sutil, a pandemia também causou alterações no padrão de uso de palavras de uso pouco frequente como “remoto” ou “remotamente”.

Antes, os termos de acompanhamento mais comuns para remoto eram “aldeia”, “ilha” e “controle”. Este ano, segundo Martin, passaram a ser “trabalho, “estudo” e “força de trabalho”.

O relatório de Oxford também destaca o uso ampliado de “in-person” (em pessoa), muitas vezes em forma de “retronym” (“retrônimo”), o termo lexicográfico para designar uma nova variante usada para especificar mais precisamente o termo original (por exemplo “telefone fixo” ou “fralda de pano”). Em 2020, se tornou cada vez mais necessário usar a expressão “em pessoa” para especificar presença física quando termos como “votar”, “aprender”, “orar” e assim por diante eram usados.

Quase todos os anos, uma das grandes diversões da lista de Oxford são as palavras-valise, termos formados pela união de duas ou mais palavras, como “mansplain” —o hábito masculino de explicar coisas desnecessariamente às mulheres— e “broflake” —homens com postura machista mas ego frágil.

Mas, neste ano, mesmo os neologismos pareciam um tanto desanimados. Para cada “covidiota” e “Blursday” havia termos forçados como “twindemic” —a coincidência de duas epidemias— e “infodemic” —ansiedade causada pela explosão de informações sobre a pandemia. Assim, seria justo dizer que em 2020 até mesmo as palavras foram meio que terríveis?

Martin se recusa a ser negativa. Mas confessou sentir alguma nostalgia pela época em que seus dilemas giravam em torno de incluir ou não na lista termos como “lumbersexual” —para designar jovens urbanos que usam barbas e camisas de flanela xadrez como se fossem lenhadores—, o que ela fez em 2015.

Martin disse que sua esperança é que 2021 traga “palavras divertidas e positivas que não pareçam carregar o peso do mundo em seus ombros”.

Tradução de Paulo Migliacci

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