Descrição de chapéu Flip

'Aprendi a nomear o racismo só depois de adulta', diz poeta Luz Ribeiro na Flip

Autora participou de debate de encerramento do evento, sobre poesia e periferia, ao lado da escritora Nathalia Leal

São Paulo

O encerramento da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, deste ano contou com uma conversa sobre a rima que vem da periferia entre duas jovens escritoras, criadoras e participantes de slam (batalhas de poesia falada).

A poeta Luz Ribeiro, primeira mulher a vencer o Slam BR —campeonato brasileiro de slam, diz que só aos 24 anos passou a enxergar a poesia como uma área possível para sua atuação. "Quando ouvi Jenyffer Nascimento, poeta negra e periférica, falando de coisas que compõem a minha história, falando 'Corinthians', falando 'favela', entendi que esse lugar da poesia também é para mim", afirmou durante a mesa.

mulher negra usa camisa branca com jovens sentados ao fundo. ela olha para o lado
A poeta Luz Ribeiro em 2019 - Greg Salibian - 25.jan.2019/Folhapress

O debate, mediado pela jornalista Jéssica Moreira, foi gravado antecipadamente e exibido na noite deste domingo (6). O evento foi realizado de maneira totalmente virtual em 2020 devido à pandemia de coronavírus.

Ribeiro contou sobre a relação com seus professores na escola e como os incentivos para ampliar sua visão de literatura surtiram efeito. "Nesse lugar de ter uma escrita que não é considerada valorosa, tive a alegria de ter um professor que notou que eu escrevia", disse.

"Eu escrevia e queimava ou rasgava os textos. Era uma maneira de expurgar tudo o que socialmente era colocado para mim; foi uma ideia muito útil. Tem coisas que eu aprendi a nomear só depois de adulta. Hoje sei que muitas coisas que eu vivi foram racismo e questões de classe", afirmou.

Segundo Ribeiro, o slam permite que meninas pretas e periféricas possam também ter espaço para contar suas histórias, o que é privilégio de homens brancos, heterossexuais e cisgêneros.

O debate foi gravado no terminal rodoviário de Paraty, local onde acontece o Slam de Quinta, evento idealizado por Nathalia Leal e colegas que acontece às quintas-feiras. Leal conta que o slam nasceu de uma necessidade por espaço e ocupação.

Segundo a escritora, existe um estereótipo de Paraty que está longe da realidade. "É uma cidade vista como turística e burguesa, mas Paraty é uma cidade de periferia, quilombola, indígena e caiçara. Todo o território de Paraty é tradicional, e reivindicar isso é nosso projeto de vida", disse.

"Temos a possibilidade de tirar o véu dessa Paraty turística, que está baseada num turismo predatório que a natureza não aguenta mais. Um tipo de turismo que não está alinhado com a floresta nativa", completou.

Nos últimos quatro dias, a Flip contou com a participação de 22 escritores brasileiros e estrangeiros e os vídeos das mesas de debate tiveram mais de 60 mil visualizações, segundo os organizadores.

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