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Chadwick Boseman escondeu o câncer para se despedir em 'A Voz Suprema do Blues'

Diretor de novo filme diz que não sabia da doença do ator, estrela de 'Pantera Negra', morto em agosto

David Kamp
The Wall Street Journal

O cineasta George C. Wolfe completou o trabalho de pós-produção em “A Voz Suprema do Blues” em junho. O filme, estrelado por Viola Davis e Chadwick Boseman, estava pronto para lançamento, bem antes das datas previstas para sua entrada em cartaz nos cinemas, no dia 25 de novembro, e na Netflix, no dia 18 de dezembro. O que, diante das circunstâncias imprevistas que estavam se desenrolando na metade deste ano, causou frustração ao diretor.

“A coisa chegou a um ponto que, lá por volta de julho, comecei a apelar para lançar o filme imediatamente, porque eu queria que o filme se tornasse parte do diálogo que estava acontecendo naquele momento”, diz Wolfe, gesticulando tão ferozmente diante da câmera de seu computador que eu quase conseguia sentir o deslocamento de ar, do meu lado da conversa.

Vestindo uma camisa jeans, ele conversou comigo via Zoom, de seu apartamento em Manhattan, em Nova York, onde está vivendo desde que começou o lockdown causado pela pandemia da Covid-19, em março.

O mês de junho havia sido caracterizado pelas manifestações do movimento Black Lives Matter que explodiram depois que George Floyd foi morto por um policial. Wolfe havia dedicado mais de um ano a preparar, ensaiar, filmar e adaptar sua adaptação cinematográfica da segunda das dez peças que compõem o celebrado “Ciclo de Pittsburgh”, de August Wilson.

“A Voz Suprema do Blues” se trata nominalmente de uma sessão de gravação de uma cantora de blues na década de 1920, mas tematicamente o trabalho tinha muito em comum com as manifestações de protesto do Black Lives Matter.

Wolfe ligou para dois dos produtores do filme, Denzel Washington e Todd Black, para pleitear seu caso em favor de um lançamento rápido do filme. “Eu disse que queria lançar logo, que queria lançar, queria lançar”, diz Wolfe. “E eles responderam que não era possível. Eu argumentei que o planeta estava enlouquecendo, que havia uma campanha eleitoral [americana] em curso, e que ela também era uma loucura. Será que as cidades ainda vão estar de pé em dezembro? Pedi que lançassem o filme e lançassem já.”

Por fim, Washington e Black prevaleceram, e a data planejada de lançamento foi mantida. Wolfe veio a reconhecer, posteriormente, que a decisão era sábia. Mais que a maior parte das pessoas, ele está em posição para compreender que uma grande obra de arte transcende o período em que foi criada.

Wolfe dirigiu a produção original na Broadway de “Angels in America”, de Tony Kushner, em 1993. Na época, a peça épica em duas partes era encarada como quase que uma reportagem jornalística em tempo real sobre a epidemia da Aids. Mas, depois, como minissérie da HBO e em remontagens numerosas, a obra provou ser uma história duradoura sobre as disfunções e a hipocrisia dos Estados Unidos.

“A Voz Suprema do Blues” oferece a mesma qualidade de permanência mordaz. Wilson escreveu a peça em 1982, e ela chegou à Broadway dois anos mais tarde. Os eventos que ela retrata transcorrem em 1927. Gertrude Ma Rainey, pioneira cantora de blues nascida na Geórgia —papel de Viola Davis no filme de Wolfe—, uma veterana guerreira musical que já tinha passado dos 40 anos, passa um dia desconfortável num estúdio de gravação de Chicago, com os quatro músicos de sua banda e o proprietário branco do lugar, enquanto os músicos discutem as complicações de seu relacionamento.

O elemento desestabilizador da peça é Levee —papel de Chadwick Boseman— o trompetista, uma geração mais jovem que seus pares e ostentando arestas de personalidade que a meia-idade ainda não atenuou.

Como compositor e como músico, Levee considera que o repertório da banda é ultrapassado, “música velha de uma banda de pinguços”, e ele não hesita em alardear sua opinião. A vida é curta demais, especialmente se você é jovem e negro, para manter o silêncio e a humildade.

Para interpretar Ma Rainey, Davis me disse em uma entrevista por telefone, ela cancelou a parte da sua cultura, e mesmo a parte de si e da sua família, que não sente ter valor, que não sente ser digna de respeito. "Canalizei as profundezas da alma de todos os afro-americanos que jamais puderam levar adiante os seus sonhos, que passaram a vida tendo que ouvir que eram inferiores”, disse ela.

O lado desafiador e explosivo de Levee ganhou maior ressonância desde o final de agosto, quando Boseman morreu, aos 43 anos. O diretor e seus colegas de elenco não sabiam durante a filmagem que ele estava passando por um tratamento para câncer de cólon. “A Voz Suprema do Blues” foi o último filme do ator.

O desempenho que Wolfe obteve de Davis e Boseman são pontos altos nas carreiras dos dois atores. Boseman, interpretando um homem cerca de dez anos mais jovem do que ele, é elétrico, e sua voz, elevada de seu usual barítono para um tom mais agudo e metálico, lembra o timbre de Chris Rock. Ele parece muito, muito distante da compostura e da retidão que exibiu ao interpretar T’Challa, Jackie Robinson e Thurgood Marshall.

Davis opera em direção completamente distinta, plácida e ameaçadora como Rainey, uma cantora endurecida por anos de experiências não reveladas mas inesquecíveis, como mulher bissexual e negra no sul dos Estados Unidos em plena era da segregação racial.

Ela é um vulcão em repouso —é perceptível que Rainey é capaz de erupção, e é exatamente por isso que ninguém gosta de mexer com ela. Com dentes de ouro na boca e trajes que a transformam numa figura roliça, criados pela lendária figurinista Ann Roth, de 89 anos— “Ann trabalha com o figurino do mesmo jeito que um ator trabalha com o método”, diz Wolfe, em tom de admiração—, Davis está praticamente irreconhecível se comparada à elegante advogada de defesa que interpreta na série de TV “How To Get Away With Murder”.

O filme também é uma realização pessoal significativa para Wolfe. No teatro, há pouco que ele não tenha realizado. Prodígio nascido no estado americano de Kentucky, ele ganhou fama em 1986 com sua agressiva sátira “The Colored Museum”, serviu como diretor artístico do prestigioso Public Theater de Nova York entre 1993 e 2004 e dirigiu 17 espetáculos na Broadway.

Mas, embora Wolfe já tenha se saído bem no comando de filmes para a TV como “Lackawanna Blues” e “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, o novo trabalho representa —se é que a expressão pode ser aplicada a um artista de 66 anos de idade— sua revelação como cineasta.

Num ano horrendo para o teatro ao vivo, “A Voz Suprema do Blues” oferece a intimidade de uma peça –com muitas tomadas de foco estreito mostrando personagens em diálogo e o complicado texto que caracteriza Wilson— sem jamais parecer sufocante.

Curiosamente, apesar de sua sobreposição como duas das figuras negras mais prestigiosas do teatro americano, Davis e Wilson mal se conheceram. O dramaturgo morreu aos 60 anos, em 2005. Wolfe recorda ter encontrado Wilson ao vivo só uma vez, no banheiro do Goodman Theatre de Chicago, em 1999, quando ele, na sua condição de diretor do Public Theater, foi assistir à peça “Jitney”, de Wilson.

Um contato que os dois têm em comum é Denzel Washington. Wolfe dirigiu Washington na remontagem de “The Iceman Cometh”, de Eugene O’Neill, em 2018, na Broadway. Washington é um zeloso guardião do legado de Wilson, tendo obtido do espólio do escritor os direitos para adaptar todas as peças do chamado "Ciclo de Pittsburgh" para as telas. Ele dirigiu e estrelou o primeiro desses esforços, uma adaptação de “Fences”, em 2016, na qual ele contracenou com Davis, que foi premiada com o Oscar por sua atuação.

Mas, quando Washington procurou Wolfe para falar sobre “A Voz Suprema do Blues”, o diretor teve de admitir que, embora admirasse a peça, não a conhecia intimamente. Foi preciso algum tempo, lembra Wolfe, “para realizar a jornada toda de aprendizado” sobre “A Voz Suprema do Blues”, e compreender o texto de dentro. Mas quando ele o fez —estimulado pela proposta de Washington, diz Wolfe—, sua "reação foi dizer meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus”.

Antes que começasse a gravar o filme, Wolfe reuniu o elenco para duas semanas de ensaios intensivos, no terceiro trimestre de 2019, em Pittsburgh, a cidade natal de Wilson. Não é uma abordagem que todo ator de cinema adore. Alguns deles preferem se poupar para as câmeras. Mas o elenco do filme —que inclui Colman Domingo como Cutler, trombonista e líder prático da banda, Glynn Turman como Toledo, o pianista, e Michael Potts como Slow Drag, o baixista— contava com muita gente com formação teatral e que acreditava na abordagem do diretor. “Literalmente uma vez por semana, Chadwick me procurava para dizer que ‘graças a Deus tivemos aquelas duas semanas’”, o diretor conta.

Como espaço para ensaios, os produtores encontraram um velho centro comunitário na zona sul de Pittsburgh que havia caído em desuso, equipado com “um sistema de ar-condicionado que, quando ligado, soava como o fim do mundo”, disse Wolfe.

O mais comum era deixar o ar-condicionado desligado, tanto para que os atores pudessem ouvir uns aos outros quanto para que eles se acostumassem com o realismo claustrofóbico que Wolfe desejava criar. Uma das grandes liberdades que ele e o roteirista do filme, o dramaturgo Ruben Santiago-Hudson, tomaram com o texto de Wilson foi transferir a ação do inverno para o verão, a fim de intensificar a tensão.

“Foi uma decisão brilhante, porque o calor se torna um personagem a mais”, diz Davis. A verdadeira Ma Rainey, ela apontou, era descrita como "sempre molhada de suor". Sempre. "O calor me deu a oportunidade de mostrar as profundezas da personagem, o jogo de status que ela jogava. Ela usa chapéu e casaco de pele mesmo no verão, porque eles são símbolos de status e não deixa que o desconforto a abata."

De fato, enquanto todos os demais personagens parecem cansados, Rainey, na interpretação de Davis, projeta força —seu torso suarento reluz como o de um gladiador, enquanto a maquiagem pesada que ela usa se derrete e se transforma em pintura de guerra.

Descobertas como essas sobre os personagens não teriam ocorrido, disse Wolfe, se ele tivesse reservado um espaço de ensaio arrumadinho e convencional, para o período de preparação. “Um espaço de ensaio precisa ser um pouco sujo, um pouco horripilante, porque somos todas essas coisas, naquele momento”, ele disse. “O que estamos fazendo é um processo sujo, e o espaço deve refletir o fato. Se o espaço é ordeiro demais, não é o espaço certo para descobertas.”

Domingo recorda que o elenco costumava conversar a sério sobre suas famílias, e sobre a conexão pessoal de cada um deles com a chamada grande migração, na qual, do começo até a metade do século 20, americanos negros se transferiram em grande número do sul rural para o noroeste, centro-oeste e oeste urbanizados dos Estados Unidos.

“Venho do centro de Filadélfia, mas minha família do lado materno vem da Geórgia e do Alabama”, disse Domingo. “Há essa ideia de que ainda somos sulistas vivendo nas cidades do norte. Isso é o que minha mãe, que continua a fazer ‘chitlins’ e ‘hog maw’ a cada Dia de Ação de Graças, me ensinou.”

O sentimento de deslocamento ecoa uma linha narrativa recorrente no trabalho de Wilson, a de que os sonhos de ascensão social despertados pela migração não se realizaram, para a maior parte dos negros. “George estava extraindo isso de nós, nos forçando a contemplar essas questões dolorosas”, disse Domingo.

E a dor era real. Há uma cena no filme em que Boseman, como Levee, critica Cutler por este ser religioso, o que resulta num confronto físico e numa fala feroz na qual Levee olha para o céu raivosamente e desafia o “Deus de Cutler”.

No salão de ensaios lituano, de acordo Wolfe, estavam "fazendo a cena de modo bem casual". "Presumi que Chadwick pararia quando chegasse a hora da fala de Levee. Mas ele não parou. Levee tomou o controle, e ele foi em frente. Foi bruto e explosivo. Depois, Chadwick começou a chorar, e Colman o abraçou, e a namorada de Chadwick quase o pegou no colo”, completou ele. (Boseman e sua namorada, Taylor Simone Ledward, se casaram antes de ele morrer.)

Não se pode assistir à cena no filme, ou ouvir a descrição de sua criação, sem ponderar as circunstâncias em que o trabalho foi produzido. Boseman não revelou a doença a Wolfe ou aos colegas de elenco. Se ele parecia física e emocionalmente esgotado pelo trabalho, o mesmo podia ser dito sobre todos os demais.

A última semana de filmagem teve uma agenda absurdamente pesada, com muitas cenas complicadas para os homens do elenco, porque elas ficaram para depois do retorno de Davis a Los Angeles. O calendário dela em “How to Get Away With Murder” dispôs que as cenas da atriz como Rainey fossem rodadas primeiro.

Segundo Turman, o decano do elenco, que tem uma cena fisicamente intensa com Boseman, exaustão abjeta era inevitável. “George era o capitão e estava no leme, nos forçando a usar cada gota de energia que tínhamos”, diz ele. “Não queria que levássemos nada conosco. Nós demos tudo que tínhamos, naquele calabouço de ensaio."

Mas houve momentos do ano passado que ganharam novo significado, em retrospecto. Quando Boseman estava se preparando para uma cena na qual Levee mostra uma cicatriz no peito, produto de um episódio traumático em sua infância no estado de Mississippi. "Ele me falou sobre ter um segredo, e sobre o quanto é intenso revelar um segredo a alguém, sobre como isso faz com que uma pessoa se sinta vulnerável”, diz Wolfe.

“Dava para perceber, com Chad, em alguns momentos, que havia alguma coisa em seu pensamento. Ele entrava em uma sala e não falava com ninguém”, diz Domingo. Depois que isso aconteceu algumas vezes, Domingo brincou com o colega, dizendo, em tom de falsa afronta, “você chega e nem diz oi?”. Boseman sorriu e depois disso fazia questão de apertar a mão de Domingo e dar um abraço nele a cada dia, quando chegava para o ensaio.

Davis recorda que, entre as cenas, Boseman se retirava para seu trailer para tocar djembe, um tambor do oeste africano. “Tudo que ele carregava na alma, despejava naquele tambor”, ela diz. “E afirmava que precisava daquilo, que era uma cura para ele.”

Wolfe não gosta de falar sobre a morte de Boseman e prefere celebrar o desempenho de seu ator. O diretor passou por experiência semelhante no passado, ao colaborar com Nora Ephron no texto de sua última peça, “Lucky Guy”, sem saber que ela estava gravemente doente, com leucemia. A peça, dirigida por Wolfe e estrelada por Tom Hanks, estreou em 2013, quase um ano depois da morte da escritora.

Como Ephron, Boseman guardou segredo sobre sua doença e não a tornou parte de sua arte —uma escolha que Wolfe pretende honrar.

Como os demais atores, Boseman participou do processo de edição final, em maio, regravando trechos de diálogo quando necessário. Enquanto fazia os cortes finais no filme, Wolfe só sabia o que tinha diante dele, e por isso, não sentiu qualquer peso, afirma ele. "Só a empolgação do trabalho.”

O fruto do esforço de Wolfe, a concisa versão cinematográfica de “A Voz Suprema do Blues”, com 94 minutos, “é um extraordinário presente de Natal para os espectadores, este ano, especialmente depois de tudo que passamos como país”, diz Domingo.

“Se você ouve alguém falar de Black Lives Matter, agora vai poder ver um exame da vida dos negros e de artistas negros buscando uma voz, buscando poder de agência no mundo, num sistema racista. August Wilson sabia bem que esse tipo de coisa acontece desde o passado imemorial.”

Já Wolfe está ansioso por voltar a escrever, ainda que num formato novo para ele, o de memórias. “Vou escrever sobre ser sulista, sobre ser do teatro”, ele disse. “Vou contar histórias sobre pessoas. Isso vai causar confusão.”

No que tange ao teatro, ele não tem planos imediatos, o que acontece raramente. A esta altura de sua vida profissional, o diretor se vê primordialmente como “uma espécie de serviço”, ele diz, disponível para aqueles que possam legitimamente se beneficiar de seu conhecimento especializado e de sua experiência.

Poucas semanas atrás os serviços dele foram solicitados de forma inesperada, quando um desconhecido o abordou na rua, desesperado.

“Ele literalmente me impediu de passar”, diz Wolfe, ainda intrigado com o episódio. “E ficou perguntando quando o teatro ia voltar e dizendo que sentia falta do teatro, que Nova York não é Nova York sem ele.”

“E eu respondia que, pois é, você tem razão, e que sim, eu concordava”, diz Wolfe. “Meu trabalho era esse.”

Tradução de Paulo Migliacci

A Voz Suprema do Blues

  • Quando Estreia sexta (18)
  • Onde Na Netflix
  • Elenco Viola Davis, Chadwick Boseman, Colman Domingo, Michael Potts, Glynn Turman, Dusan Brown e Taylour Paige
  • Produção EUA, 2020
  • Direção George C. Wolfe
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