Descrição de chapéu The Wall Street Journal Moda

Como Harry Styles virou o maior ícone da moda deste ano usando um vestido

A internet quase parou com o look longo do músico, que ganhou elogios e enfrentou críticas conservadoras

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Jacob Gallagher
The Wall Street Journal

Harry Styles usou vestido. Você talvez já saiba disso, mesmo que não acompanhe de perto as notícias de moda ou de música. Fotos do cantor britânico usando o vestido Gucci feito sob medida —ele foi clicado para a capa da Vogue— encheram a internet algumas semanas atrás, enlouquecendo sua multidão de fãs.

Milhares de tuítes e artigos online reciclaram as imagens. A maior parte da cobertura midiática elogiou Styles por seu figurino atraente, de gênero fluido, mas, previsivelmente, alguns comentaristas conservadores —entre eles, Candace Owens— lamentaram o que ocorreu, interpretando a repercussão toda como a sentença de morte do chamado “homem com H”.

A própria capa da revista foi inusitada: Harry Styles é o primeiro homem a agraciar a capa da Vogue sozinho. Instantaneamente colecionável, o número da Vogue pode ser encarado como uma espécie de coroação, confirmando que o cantor de 26 anos agora já é oficialmente membro da realeza da moda.

Styles ficou famoso como membro da banda One Direction antes de fazer carreira solo. E age como provocador na área da moda há alguns anos. “Muso” do diretor criativo da Gucci, Alessandro Michele, Styles frequentemente veste as criações um tanto unisex da grife, como calças com estampa de tapeçaria, mocassins e blusas com laço na gola. (Representantes do artista não responderam a pedidos de comentários para este texto e, por meio de um porta-voz, seu stylist, Harry Lambert, se negou a comentar.)

No Instagram, perfis de fãs como @Hsfashionarchive (que tem mais de 100 mil seguidores) competem para identificar qualquer coisa que Styles seja fotografado vestindo, desde calças largas com estampa floral excêntrica do estilista britânico Steven Stokey Daley até um colar em cores pasteis da grife nova-iorquina de joias Eliou. Este ano Harry Styles encabeçou a lista dos “Poderosos Bem Vestidos” da Lyst, plataforma de buscas que enfoca a moda.

A classificação reflete a correlação forte entre o que Styles veste e o que os compradores online procuram. Camilla Clarkson, diretora de comunicações da Lyst, observou que o “estilo não binário” de Styles ajuda a elevar a popularidade do cantor, especialmente junto a uma geração mais jovem que habitualmente compra roupas sem se ater a normas de gênero.

Mas alguns observadores mais velhos não enxergam nada de muito novo nas escolhas de moda de Styles. “É mais ou menos a versão deste ano do figurino de um astro do rock”, comentou Vincent Boucher, de 67 anos, professor da Escola de Design de Parsons, em Nova York. Como precursores, Boucher apontou para Kurt Cobain, Mick Jagger e David Bowie, todos os quais trajaram vestidos décadas atrás, agilmente atravessando as divisões de gênero. (Eu acrescentaria a essa lista o cantor menos conhecido e abertamente gay Sylvester, que frequentemente oscilava entre usar roupas de homem ou de mulher —veja, por exemplo, o vídeo de seu sucesso número um de 1978, “You Make Me Feel (Mighty Real)”)

A capa da Vogue com Harry Styles suscitou pouco mais que um dar de ombros de Andrew Groves,de 52 anos, professor de moda na Universidade de Westminster, em Londres. Como ele observou, quando Bowie usou vestido, no início dos anos 1970, “foi provocante de verdade porque estava fora das normas da sociedade”.

Mesmo que Groves tenha achado o vestido longo de Styles indigno de provocar polêmica, o fato é que repercutiu por vários dias aqui nos Estados Unidos numa reação que se dividiu mais ou menos por linhas partidárias. Comentaristas conservadores alarmados postaram críticas verborrágicas no Twitter –entre eles Candace Owens, de 31 anos, uma voz conservadora que condenou a “feminização constante de nossos homens”.

Enquanto isso, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, em sua conta no Instagram alguns dias mais tarde, descreveu o ensaio de Styles na Vogue como “maravilhoso” e condenou as críticas: “Pode ser que para algumas pessoas isso provoque alguma raiva ou insegurança em torno de masculinidade/feminilidade, etc. Se sim, talvez isso seja parte da mensagem. Pare um pouco para refletir sobre essa reação, examine-a, explore-a, dialogue com ela e cresça com ela.”

A maioria dos astros homens ainda evita os riscos associados a vestir-se em estilo fashion demais. Dias depois de sair a Vogue com Harry Styles na capa, George Clooney foi capa da revista GQ. A repercussão subsequente nas redes sociais tratou não apenas de suas roupas (estrategicamente inofensivas), mas também das anedotas contadas pelo astro afável.

Muitos homens de determinada idade devem ter gostado do visual de Clooney, com sua camiseta polo elegante e óculos de sol Ray-Ban. Mas seu visual esteve longe de inovador, diferentemente dos looks escolhidos por Harry Styles e outros ícones de estilo dinâmicos e contemporâneos como A$AP Rocky, Tyler the Creator e Jaden Smith.

Graças em parte à internet e às redes sociais, que provavelmente lhe proporcionaram uma esfera de influência mais ampla do que a de ícones passados de moda de gênero fluido como Bowie ou Cobain, Styles está levando fãs receptivos a aderir a maneiras inovadoras de se vestirem. “Ele é realmente um pioneiro”, comentou Jordan O’Brien, de 28 anos, de Penngrove, Califórnia. O’Brien cria vídeos de moda masculina, um dos quais, intitulado “Recreating Harry Styles Iconic Outfits” (recriando os looks icônicos de Harry Styles), já foi visto mais de 123 mil vezes no YouTube. O vídeo mostra O’Brien seguindo mais ou menos o exemplo de seu ídolo, usando coisas como um terno lilás com camisa de malha do tipo rede de pescador.

O’Brien e outros admiradores com quem conversei não têm condições econômicas de comprar as roupas elegantes da Gucci e Bode divulgadas por Harry Styles. Tampouco estão realmente interessados em adotar seus figurinos mais de vangarda. O que eles procuram, ao invés disso, é canalizar a essência do estilo e da atitude flexível do cantor. “Adoro como ele ultrapassa as fronteiras” da moda masculina e mostra que “as pessoas podem vestir o que bem entendem”, disse O’Brien.

O barista Kyle Jordan, de 23 anos, de Barrington, Nova Jersey, estuda perfis no Pinterest dedicados aos figurinos usados por Styles. Ele aderiu ao gosto do cantor por calças mais largas e camisas abotoadas de formato quadrado e agora está de olho em um colar de pérolas, artigo que há anos faz parte da imagem de Styles.

Jovem branco usando vestido azul em jardim
Harry Styles como capa da Vogue em dezembro de 2020 - Twitter/Vogue

Camilla Clarkson, da Lyst, observou que sempre que Harry Styles usa algum item —pérolas, um terno azul, um chapéu amarelo— o site dela registra um aumento enorme nas buscas por itens comparáveis.

Um cardigã de patchwork das cores do arco-íris, da J.W. Anderson, que Styles usou no programa “Today” em fevereiro, é provavelmente o artigo que seus fãs mais têm tentado reproduzir. O casaco em tecnicolor virou sensação na internet, tendo sido compartilhado especialmente no TikTok.

Mas, ao custo de US$1.560, ou R$ 7.952, não cabia no orçamento da maioria dos fãs. E sua idiossincrasia era suficientemente extrema para que fosse difícil encontrar boas cópias. Assim, em uma instância rara em que uma grife de luxo cedeu à vontade do grande público, a J.W. Anderson divulgou o molde online para que os fãs pudessem tricotar sua própria versão, e emuladores de Styles começaram a postar em massa suas versões caseiras do cardigã. Quanto ao artigo original, está sendo enviado ao Museu Victoria & Albert, em Londres, reconhecido como um legítimo pedaço da história da moda.

Tradução de Clara Allain

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