Descrição de chapéu The New York Times tiktok

Dançarino de Lady Gaga viraliza com maiô de oncinha em seus vídeos no TikTok

Mark Kanemura mistura teatro, drag e fantasias em posts escapistas para centenas de milhares de fãs

Margaret Fuhrer
The New York Times

Você está precisando de uma injeção de serotonina agora?

Os vídeos em que o dançarino Mark Kanemura dubla canções famosas são direcionados diretamente aos nossos receptores de prazer. Nessas fantasias da cor do arco-íris, produzidas a baixo custo, Kanemura acentua os beats da música pop com corridinhas dramáticas e jogadas de cabelo.

Agita a bandeira do orgulho LGBT com todo o ímpeto de um toureiro. Um vestido longo, improvisado com base em uma lona, pode ocultar uma grande quantidade de balões. Quando ele tira uma peruca, isso tende a revelar outra —e mais outras e outras.

Ainda que seus vídeos mostrem combinações astutas de movimento e música —ele gosta muito dos singles dançantes de Carly Rae Jepsen—, Kanemura não os define como dança, exatamente. “Eles são uma mistura de todas as coisas que amo”, disse ele, em entrevista por vídeo. “Obviamente a dança, mas também teatro, drag e fantasias.”

Os vídeos viciam e inspiram muitos memes e parecem feitos sob medida para o TikTok, rede social em Kanemura conquistou mais de 175 mil seguidores. Mas não foi no TikTok que ele começou a fazer os vídeos.

Em 2017, quando publicou o primeiro trabalho da série, as postagens de Kanemura aconteciam no Instagram, onde a dança e os dançarinos prosperam. Os vídeos de dublagem se popularizaram junto a uma audiência que talvez já conhecesse o talento de Kanemura na dança, graças à sua participação no programa “So You Think You Can Dance” e aos anos que ele passou trabalhando com Lady Gaga.

Mas esses vídeos ofereciam algo diferente –um vislumbre de sua mente criativa. Não demorou para que eles conquistassem a devoção de uma grande comunidade de seguidores no Instagram.

Agora, Kanemura está construindo uma audiência no TikTok, como acontece com muitos dançarinos profissionais que se viram com mais tempo livre do que o habitual. No caso dele, porém, parece menos um experimento do que um retorno triunfal. Ele já criava conteúdo para o TikTok antes mesmo que o TikTok tivesse chegado.

Kanemura não é nem de longe a maior estrela do aplicativo. Mas o que o seu trabalho tem de envolvente é exatamente aquilo que torna o TikTok envolvente no momento específico que vivemos. Ambos oferecem escapismo, numa escala que parece apropriada para uma sociedade que está aprisionada em casa.

Como acontece com muitos outros criadores de vídeos para o TikTok, Kanemura realiza a maior parte de seus vídeos em seu quarto, a cela de prisão e refúgio a que toda pessoa recorre durante a pandemia. E esses vídeos destacam mais uma originalidade refrescante do que um perfeccionismo exaustivo.

Para se tornar um sucesso viral no TikTok, a pessoa precisa “se aproveitar do clima cultural”, segundo Shauna Pomerantz, professora associada na Universidade Brock, na província canadense de Ontário, que está estudando a criatividade no aplicativo. “Acredito que o TikTok é uma plataforma tão viral atualmente por causa do momento em que estamos.”

Muitos dos fãs de Kanemura são crianças, que parecem simpatizar com seu jeito brincalhão. (Meu filho de quatro anos de idade, grande admirador, o chama de “homem arco-íris”.) Talvez isso aconteça porque os vídeos de Kanemura sejam versões dos shows que fazia na sala de sua casa, quando era um menino obcecado por vídeos de música e teatro, em Oahu, no estado americano do Havaí.

“Eu era aquele menino que guardava dinheiro não para comprar brinquedos, mas para comprar adereços”, disse Kanemura. “Quando companhias de teatro levavam espetáculos ao Havaí, ‘Fantasma da Ópera’ e ‘Cats’, eu assistia e depois os tentava recriar em casa, com os recursos de que dispunha —caixas de papelão, lençóis.”

A escala podia ser pequena, mas as produções eram prodigiosas. “Ele me ensinou o que é ser ‘extra’, ou seja, extraexagerado”, disse Marissa Kanemura-Morin, irmã mais nova de Kanemura e sua colaboradora nos shows da infância. “Ele usava cartolina para fazer o candelabro do ‘Fantasma’, e de alguma forma todo mundo acreditava.”

No ensino médio, Kanemura começou a praticar dança intensivamente. Também começou a sair escondido para assistir a shows de drag queens em casas noturnas. “Eu estava muito ansioso para ingressar na cena gay”, disse Kanemura, acrescentando que admirava a engenhosidade das drag queens e seu lado teatral. “Elas não tinham muito dinheiro para gastar em fantasias ou no seu look e por isso faziam tudo sozinhas. E eu percebi que drag é teatro e teatro é drag."

Depois de alguns empregos iniciais como dançarino em navios de cruzeiro e na Disney de Tóquio, Kanemura conseguiu vaga na quarta temporada de “So You Think You Can Dance”, em 2008.

Nas primeiras temporadas, o programa era homofóbico de um jeito casual. O produtor e jurado Nigel Lythgoe queria que os homens "dançassem como machos”. Kanemura não se enquadrava nesse papel, mas se tornou um dos favoritos dos fãs, mesmo assim, conseguindo lugar entre os seis finalistas. A coreógrafa Sonya Tayeh o escalou para “The Garden”, um número criado por ela que continua a ser considerado como um dos melhores momentos do programa.

O programa levou Kanemura ao mundo de Lady Gaga, que fez uma de suas primeiras apresentações na TV durante um episódio da quarta temporada. No trabalho dela, disse Kanemura, ele reconheceu todas as suas coisas favoritas –teatro, drag, fantasia, além de um modelo de liberdade artística.

“Eu a vi sendo aquela criatura maravilhosa, bonita e criativa no mundo, e isso me deu a coragem de ser eu mesmo.” Lady Gaga contratou Kanemura para sua apresentação no MTV Music Awards de 2009, e ele logo se tornou presença constante em suas turnês e nos vídeos de suas canções.

Mas até mesmo o emprego dos sonhos de um dançarino pode se tornar rotineiro. Depois de quatro anos e meio de viagens quase constantes com Lady Gaga, Kanemura estava exausto, lesionado e pronto para tentar alguma outra coisa. O que seria ele não sabia ao certo.

Ele criou algumas coreografias, entre elas uma para a canção “Call Me Mother”, de RuPaul, no programa “So You Think You Can Dance”, classificada pelo site Decider como “um triunfo para a evolução do ‘queerness’ no programa”.

Ele deu aulas em convenções de dança, trabalhou experimentalmente com curtas-metragens. “Foi um pouco apavorante”, afirmou Kanemura. “Você sente estar começando do zero e foi essencialmente o que tive de fazer”.

O período era difícil —depois de uma separação complicada, ele estava hospedado no apartamento de um amigo—, e foi então que Kanemura fez seu primeiro vídeo de dublagem, para a canção “Cut to the Feeling”, de Jepsen.

Ele usou uma peruca loira, uma bandeira de arco-íris e alguns punhados de pétalas de rosas como adereços. A produção foi modesta, se levarmos em conta seus padrões atuais, mas a exuberância da produção capturou a atenção da internet.

“Fazer os vídeos me dava alegria, e a reação que eu recebia era a de que eu estava levando alegria a muita gente”, ele disse. Também era um trabalho “libertador, divertido e livre”, ele acrescentou, uma forma de ser fiel a ele mesmo que suas postagens anteriores em mídia social não permitiam. Uma versão do vídeo para o mês do orgulho gay conquistou a aprovação de Jepsen. Ela convidou Kanemura para recriar o vídeo ao vivo durante seu show no festival Outside Lands de 2018.

Assim começou o terceiro ato de Kanemura, como influenciador no Instagram e agora no TikTok. Rosto conhecido na comunidade gay, ele usa o poder de sua celebridade na internet para promover a autoaceitação.

Kanemura sofreu bullying quando estava na escola e, mais recentemente, quando seu prestígio cresceu nas redes sociais. Por isso serviu como apresentador de eventos de arrecadação de fundos online para o Trevor Project, que apoia jovens LGBT em crise.

No ano passado, Todrick Hall, revelado pelo programa “American Idol” e transformado em astro pelo YouTube e pelo TikTok, escalou Kanemura para o vídeo de sua canção “Wig”, composta por Hall como um hino LGBT. “Ele usa barba e está com uma peruca e não dá para definir o que ou quem ele é, e ninguém sente a necessidade de tentar, porque o vídeo e a música deixam as pessoas felizes”, disse Hall.

Ainda que os vídeos de Kanemura se destaquem no TikTok, sua comunidade no Instagram continua a ser muito maior, e ciumenta. Em março, ele começou a comandar festas de dança para a quarentena, no Instagram Live, de seu apartamento em Los Angeles, já conhecido dos espectadores de seus vídeos de dublagem. Outros artistas da dança, como Ryan Heffington, coreógrafo de Hollywood, logo começaram a transmitir sessões semelhantes.

Mas as festas de Kanemura eram parecidas com seus vídeos mais marcantes –a probabilidade de que envolvessem globos espelhados ao estilo da disco music e macacões cor-de-rosa com estampas de frutas era considerável. Elas atraíram milhares de participantes, entre os quais a top model Heidi Klum. Kanemura estimulava todo mundo a dançar.

Manter uma personalidade inflexivelmente positiva, especialmente em períodos de emergência nacional e mundial, pode ser difícil. Kanemura não tenta esconder de seus seguidores os sentimentos de depressão e esgotamento. “Tento sempre garantir que eu esteja presente para as pessoas, que eu seja uma fonte de luz”, disse ele, "mas às vezes passo semanas ou até meses sem chegar a esse estado”.

Em maio, depois da morte de George Floyd, ele suspendeu suas festas de dança. Suas contas nas redes sociais ficaram em silêncio, exceto pela divulgação de endereços online do movimento Black Lives Matter. “Ficou claro que minha energia e tempo precisavam ser dedicados a outra coisa.”

Kanemura participou de manifestações em Los Angeles. Naquele momento, ele contou, a presença pessoal parecia urgentemente necessária. Mas com a disparada no número de contágios pelo coronavírus, em julho, a necessidade de manter virtualmente o senso de comunidade retornou.

Semanas depois, Kanemura ressurgiu online —de patins—, e seus vídeos começaram a atrair audiências no TikTok. Embora ele expresse gratidão por sua carreira dependente da web, que deu a ele uma fonte segura de renda (via postagens patrocinadas) durante o lockdown, Kanemura tem metas que vão além das telas. Quando o mundo voltar a funcionar, ele quer recriar suas festas de dança ao vivo, com um DJ.

“Eu adoraria criar um espaço seguro para que pessoas que não são necessariamente dançarinos se reunissem, dançassem e se expressasem de uma forma que você não encontraria em uma aula de dança convencional”, afirmou.

Até que isso aconteça, sempre que você quiser fazer uma pausa na leitura de notícias catastróficas, você sabe onde encontrar Kanemura.

Como apontou Pomerantz, numa crise, a continuidade oferece conforto. O mundo pode estar se desmontando, mas o TikTok continua a oferecer distração. E Kanemura, como sempre, continua a dançar, em seu apartamento salpicado de confetes.

Tradução de Paulo Migliacci

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