Descrição de chapéu The New York Times Livros

Este ano foi tão ruim que até o prêmio de pior sexo na literatura foi cancelado

Organização do prêmio fala que próxima edição do evento provavelmente terá novas práticas sexuais

Alan Yuhas
The New York Times

Pela primeira vez em mais de uma década, um concurso que premeia a pior escrita sobre sexo em língua inglesa não anunciará um vencedor, o que serve como alívio para os leitores que costumavam se incomodar com a seleção anual de premiados mas é uma notícia triste para os apreciadores da má escrita de todo o planeta. O Bad Sex in Fiction foi cancelado.

Os editores que organizam o concurso anunciaram a decisão no dia 8 de dezembro no site de sua revista, Literary Review, afirmando que o ano de 2020 já havia sido suficientemente desagradável sem a contribuição deles.

“Os jurados consideraram que o público já foi sujeitado a coisas ruins demais, este ano, para justificar expô-lo também a sexo ruim”, afirma o comunicado. “Mas eles advertiram que o cancelamento da premiação em 2020 não deveria ser interpretado como licença para escrever cenas ruins de sexo.”

Os membros da equipe da Literary Review, uma revista britânica que não deve ser confundida com uma publicação homônima que circula em Nova Jersey, exercitam a curadoria da pior literatura erótica do planeta há quase três décadas. O propósito da premiação, de acordo com a revista, é honrar “a cena mais espantosamente horrível de descrição sexual” do ano, e atrair atenção para “as passagens mal escritas, redundantes ou simplesmente repulsivas de descrição sexual na ficção moderna”.

Desde que o prêmio foi estabelecido, em 1993, pela crítica literária Rhoda Koenig e pelo editor Auberon Waugh, o filho do escritor Evelyn Waugh, as passagens premiadas incluem uma comparação entre um orgasmo e uma “enguia demoníaca”, descrições nada convencionais do corpo humano —por exemplo, a de ancas “com espaço suficiente para toda uma coleção de escovas de dentes”— e de jornadas coitais ao espaço sideral.

O vencedor de 2013, Manil Suri, comparou o sexo a supernovas em explosão, descrevendo personagens que “zuniam como super-heróis entre os sistemas solares”, e “mergulhavam entre escolhos de quarks e núcleos atômicos”. Norman Mailer conquistou o prêmio postumamente em 2007 graças ao seu uso inventivo da frase “uma espiral de excremento”. O vencedor de 1997, Nicholas Boyle, descreveu uma exclamação sensual que “ficava a meio caminho entre o ladrido de uma foca jogada à praia e uma sirene policial”.

Ainda que a lista de premiados seja dominada por homens, algumas mulheres já receberam o prêmio, entre as quais Rachel Johnson, uma antiga editora de revistas (e irmã do primeiro-ministro britânico Boris Johnson), ganhadora do prêmio em 2008. Os jurados apontaram para seu uso repetido de imagens de animais, como quando comparou os dedos de um personagem a “uma mariposa apanhada dentro de uma luminária”, e sua língua a “um gato lambendo um pires cheio de creme”.

Mulher e homem falam em microfone
A atriz Barbara Windsor, à esquerda, e o escritor Alexander Waugh anunciam o vencedor de Bad Sex in Fiction de 2011, David Guterson, no In and Out Club em Londres, em 6 de dezembro de 2011 - Andrew Testa/The New York Times

Os indicados incluíram alguns dos mais famosos nomes da ficção nos últimos 30 anos. No ano em que Johnson venceu, por exemplo, John Updike recebeu um prêmio especial pelo conjunto de sua carreira. E o “short list” do prêmio já incluiu escritores como Salman Rushdie, Stephen King e Haruki Murakami.

Nos anos menos atribulados, os editores de Literary Review se reúnem no In and Out Club, no centro de Londres, para celebrar, ler trechos em voz alta e entregar o prêmio ao vencedor: um pé de gesso. A maioria dos escritores recebe o prêmio com bom humor, o que inclui Johnson, que o definiu como “uma absoluta honra”, e Iain Hollingshead, que, depois de sua vitória em 2006, declarou que sua "esperança é vencer todo ano”.

Outros se provaram menos interessados, como o cantor Morrissey, que venceu em 2015 e disse ao jornal uruguaio El Observador que “o melhor é manter uma distância indiferente” desses “horrores repulsivos”. E alguns críticos definiram a ideia do prêmio como equivocada, e como uma forma de “bullying”, afirmando que sua existência poderia levar os escritores a ter medo de escrever sobre sexo.

Os editores da revista não afirmam que isso venha a acontecer, no entanto. No início deste mês, eles declararam por meio de um porta-voz que eles “aguardam um grande número de inscrições no ano que vem”, já que a regulamentação de lockdown deu origem a “inúmeras práticas sexuais novas”.

“Cabe lembrar aos autores que sexo online e outras formas de entretenimento caseiro se enquadram nos limites desse prêmio”, disse o porta-voz. “Cenas passadas em campos, parques ou quintais, ou dentro de casa com as janelas abertas e menos de seis pessoas presentes, não estarão isentas de escrutínio, tampouco.”

Tradução de Paulo Migliacci

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