Descrição de chapéu Livros Clarice 100

Fui um dos poucos com o privilégio de ser aluno de Clarice em português

Leia depoimento de ex-ministro da Fazenda sobre a convivência com a escritora centenária no exterior

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Marcílio Marques Moreira

Ex-ministro da Fazenda (1991-1992, governo Collor) e ex-embaixador do Brasil nos EUA (1986-1991)

A celebração, no último dia 10, dos cem anos de Clarice Lispector envolve-nos, simultaneamente, de tristeza por seu passamento precoce e de alegria de com ela ter convivido em três tempos: em Nápoles e Berna, em Washington e no Rio de Janeiro.

O primeiro encontro, em fevereiro de 1946, menos de um ano após terminada a guerra, foi impactante. Viajava com meus pais e irmãos em navio de transporte da Marinha, o Duque de Caxias, na primeira viagem pós-Guerra à Europa.

Ao nos aproximarmos do porto de Nápoles, vimos que, de fato, se tratava de vários navios afundados sobre os quais fora construído, em madeira, o pretenso “cais” pelo qual desembarcamos. Clarice e seu marido Maury nos esperavam de braços abertos.

Maury, entretanto, nos advertiu: é preciso ficar observando as malas e caixotes de vocês, pois os carregadores procuram roubá-los jogando-os em buracos abertos na madeira. Meus irmãos e eu ficamos atentos, eu recuando gradualmente para melhor enxergar o desembarque, até que pluft: em vez de mala no buraco, fui eu que lá cai, amavelmente içado pelo prestimoso Maury.

O Vesúvio que há pouco explodira em erupção, vomitando fogo, era símbolo da Nápoles conturbada, por vencidos e por vencedores, tal como descrita pelo controverso livro de Curzio Malaparte, "A Pele".

Recebidos para o almoço pelo embaixador em Roma, partimos no dia seguinte de trem para Berna, o que levou mais de 24 horas, pelas inúmeras pontes reconstruídas em madeira que, pela evidente fragilidade, lembravam o madeirame improvisado do cais de Nápoles.

O casal Clarice-Maury havia chegado a Nápoles em agosto de 1944. A cidade, já liberada dos alemães, ainda sentia o fragor da guerra em plena e cruel atividade. Pode-se imaginar o quanto o macabro quadro pintado por Malaparte deva ter impactado Clarice, tão sensível às pulsações humanas. E o quanto a mudança para Berna, em abril de 1946, significou em termos de contraste.

Chegada a Berna com Maury, Clarice foi de extrema lhaneza ao acatar a ideia de minha mãe de preservar o meu português, uma vez que eu, além de recontactar-me com o “hoch deutsch” dos tempos de Viena, tinha de absorver o alemão e ainda dedicar-me ao francês, indispensável em país de quatro línguas. O meu português, cercado de todos os lados, estava prestes a se liquefazer.

Clarice me pedia, a cada semana, que redigisse um texto —às vezes trocando ideias sobre possíveis temas. Corrigia-o na semana seguinte, com paciência e simpatia, o que me credenciou a ser um dos poucos alunos que puderam contar com o privilégio de ter Clarice como professora de português.

Dois episódios lembram o casal em Berna, a pacata. O primeiro, contado por ela mesma. Queixava-se dos bondes demasiado eficazes. Clarice assinava o Journal de Genève e costumava ler os jornais no bonde. Uma vez lidas as passagens que mais lhe interessavam, deixava o jornal no banco.

Não é que no dia seguinte recebia os jornais de volta pelo correio? E o ciclo se repetia, com a precisão típica da capital suíça. Clarice sentia-se perseguida pelos jornais genebrinos, não a deixavam em paz.

Por sua vez, Maury gostava de bicicleta, o meio mais prático de transporte em Berna. Convidou-me para juntos passearmos, e não é que conhecia, melhor do que eu, os caminhos de bicicleta através dos campos?

Meu pai, seu chefe em Berna, o considerava excelente funcionário. Comentando as atas dos colóquios na Casa das Pedras, anos mais tarde, em que San Tiago Dantas, em 1961, reunira a nata intelectual do Itamaraty para discutir os rumos da política externa independente, o embaixador Gelson Fonseca comentou que deles participaram “notáveis diplomatas... parte da elite de uma geração, como Paulo Leão de Moura, Lauro Escorel, Henrique Valle, Maury Gurgel Valente, Carlos Silvestre de Ouro Preto e Dário Castro Alves”.

Diplomado no Instituto Rio Branco, em meados de 1957 fui removido para a embaixada do Brasil em Washington, como Terceiro Secretário. Minha mulher Maria Luiza e eu lá reencontramos o casal, convivendo com Clarice e Maury até 1959. Grávida, Maria Luiza foi recebida com muita simpatia por Clarice, que lhe ofereceu nomes de médicos, pediatra, hospital.

O embaixador, Amaral Peixoto, era casado com Alzira, filha de Getúlio Vargas, muito ativa e amiga de Clarice. Lembro-me de encontros na embaixada em que Alzira sentava-se no chão para brincar com os filhos de funcionários brasileiros em Washington.

Quando voltamos ao Brasil, em 1963, retomamos contato com Clarice até o desafortunado ano de 1977. Visitas ao apartamento no Leme nos faziam sempre bem recebidos por Clarice, que gostava de contar incidentes curiosos como o do mecânico de televisão que, segundo seu porteiro, queria deixá-lo subir para consertar o aparelho.

Não, eu não estou com problema na televisão e não chamei nenhum técnico, respondeu Clarice. O porteiro, pressionado, pediu a Clarice que explicasse diretamente ao mecânico que esperava na portaria. Qual foi a sua surpresa quando percebeu que era o escritor Trevisan que lá estava para fazer-lhe visita de cortesia.

Outro episódio, também mencionado na biografia de Benjamin Moser, foi o encontro, que testemunhei, de Clarice com San Tiago Dantas, no casamento de sua sobrinha na igreja dominicana do Leme. Ao se queixar San Tiago de insônia, Clarice aconselhou: leia os contos policiais de Simenon. O arguto investigador Maigret consegue descobrir as mais intrigantes charadas policiais e, assim, driblar a insônia.

Em outras ocasiões, a grande amiga Nélida Piñon oferecia agradáveis jantares em sua casa: comida e bebida competiam bravamente com a alta qualidade das conversas.

Essa era a Clarice na memória do aluno saudoso, no mês da mais que merecida celebração dos seus cem anos. Viva Clarice!

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