Descrição de chapéu
Terry Teachout

Instalações cafonas ofuscam o que há de melhor na arte

Apresentações virtuais em grande escala de pinturas famosas obscurecem suas fontes, em vez de as iluminar

Terry Teachout
The Wall Street Journal

Para que ir a um museu de arte? É verdade que geralmente é possível almoçar bem num museu, mas a pergunta não encerra uma pegadinha. Vamos a museus para olhar grandes obras de arte, nos deleitar com elas e aprender mais sobre elas.

Pouquíssimos de nós vamos possuir uma tela de Manet ou Mark Rothko algum dia, mas podemos ver exemplares de obras deles expostos em museus americanos de costa a costa, uma experiência que difere completamente de olhar uma reprodução num grande livro de fotos feito para ficar sobre uma mesa de centro.

Ou, melhor dizendo, podíamos ver –a pandemia de Covid-19 obrigou muitos grandes museus de arte a fechar as portas ou limitar drasticamente o número de visitantes que recebem. Além disso, muitos amantes da arte hoje relutam compreensivelmente em visitar os museus que ainda continuam abertos.

Como, então, podem as pessoas que amam a arte continuar a enriquecer sua vida estética de maneira que guarde alguma semelhança com seu habitual? O Museu de Arte Moderna, em Nova York, propõe uma ótima resposta.Visões Virtuais: ‘Noite Estrelada’, de Van Gogh” é uma exposição online dedicada a um dos quadros mais conhecidos e amados do MoMA.

Ela inclui um vídeo introdutório e debate com Ann Temkin, a curadora-chefe de pintura e escultura do museu, seguidos por uma “leitura performativa” feita pela atriz e dramaturga Anna Deveare Smith das cartas trocadas entre Vincent Van Gogh e seu irmão Theo. O pacote também inclui várias outras atrações excelentes, incluindo “a visão de um cosmólogo do célebre céu da pintura”.

Muitos museus de arte estão apenas começando a pensar em utilizar seus sites de maneiras convidativas e trabalhadas, mas “Visões Virtuais: ‘Noite Estrelada’, de Van Gogh” é um exemplo de como atrair de uma maneira tanto interessante quanto instrutiva o público que está fazendo quarentena.

Tirando realmente estar em pé diante de “Noite Estrelada”, nos maravilhando com a beleza da tela, não consigo imaginar uma maneira melhor de ampliar nosso entendimento do quadro, visto por muitos como a maior obra de Van Gogh.

Essa é a boa notícia. A má notícia é “Immersive Van Gogh”, videoinstalação high-tech de 14 mil metros quadrados inaugurada em 21 de dezembro em Toronto e marcada para abrir em 11 de fevereiro em Chicago e 18 de março em San Francisco.

A instalação usa 50 projetores digitais para exibir versões animadas de “Noite Estrelada” e várias das outras obras-primas de Van Gogh, acompanhadas por música new age. O material de divulgação fala intensamente sobre como o visitante —de máscara e respeitando o distanciamento social, é claro— vai “se movimentar entre imagens encantadoras em movimento, iluminando verdadeiramente a mente do gênio”.

Não vi a exposição pessoalmente, mas os videoclipes longos aos quais assisti online sugerem que uma visita a “Immersive Van Gogh” não guarda nem uma semelhança remota com a experiência envolvente de ver a pintura de perto. Em vez disso, a obra de um dos maiores artistas visuais da história foi convertida em algo que mais lembra um videogame gigante. A única coisa “iluminada” por um show de luzes e truques como “Immersive Van Gogh” é a diferença entre vivenciar arte e a monetizar.

Lamentavelmente, empreitadas comerciais como essas vêm se popularizando. Outra delas, “NHKS4220 Bar Illusion”, do Noiland Collective, instalado recentemente no Chelsea Market, em Nova York, é baseado em “Nighthawks”, de Edward Hopper. Essa pintura profundamente misteriosa, de 1942, mostra um grupo de pessoas tomando café numa lanchonete, numa esquina deserta de uma cidade grande.

O grupo americano Noiland Collective converteu “Nighthawks” numa imagem tridimensional em estilo de holograma, em tamanho natural, em que o espectador desempenha um papel. Conforme o divulgado, “‘NHKS4220 Bar Illusion’ representa a cena de ‘Nighthawks’ como um momento vivo no passado e no presente". "O visitante pode se posicionar no ponto central da instalação e ver sua silhueta integrada à obra de arte."

Também desta vez, porém, assisti a videoclipes dessa instalação tecnocafona e minha reação é uma pergunta –por que não simplesmente converter “Nighthawks“ num filme da rede televisiva Lifetime e fim de papo?

Não sou totalmente avesso à utilização de reproduções de grandes obras de arte para que pessoas que não vivem perto dos museus que abrigam as telas originais —"Nighthawks” faz parte do acervo do Art Institute of Chicago— possam se familiarizar com os originais.

Dois anos atrás, escrevi sobre uma exposição pop-up —de réplicas de alta qualidade e tamanho natural de nove telas famosas de Van Gogh— que percorreu shoppings de seis cidades americanas. Como expliquei em minha coluna, “não apenas [a exposição] transmite com clareza surpreendente a aparência das pinturas reais, como sua apresentação é simples, direta e sem firulas". "Como diz a placa, você pode ‘entrar para ver os quadros de pertinho’, em vez de ser afastado por guardas.”

Mas aquele foi um esforço sério de proporcionar a plateias novas uma experiência semelhante à de ver grandes obras de arte pessoalmente. “Immersive Van Gogh” e “NHKS4220 Bar Illusion” são inteiramente outra coisa. Não consigo imaginar qualquer pessoa que assista a esses exercícios eletrificados de puro exibicionismo enfeitado e saia dizendo “uau, agora quero ver um pouco de arte de verdade!”.

Diferentemente das exposições pop-up em shoppings, criadas com o intuito de fomentar o desejo de frequentar museus, essas instalações só promovem elas mesmas.

Tradução de Clara Allain

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