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Literatura não deve ser didática, diz Isabela Figueiredo no Fronteiras

Autora discutiu efeitos do colonialismo e defendeu equilíbrio entre humanidade e natureza em palestra errática

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São Paulo

"Quando eu escrevo, não tenho uma intenção didática. Não vejo a literatura como um livro escolar."

A escritora abriu sua conferência no ciclo Fronteiras do Pensamento, que aconteceu virtualmente na noite desta quarta, com uma defesa de que o livro é uma construção conjunta entre escritor e leitor. "Eu preciso dos outros para construir arte. Não sei se seria capaz de fazer arte se estivesse fechada numa gruta."

A fala da escritora, gravada com antecedência em sua casa, foi dispersa e errática —ela havia alertado desde o começo que suas "ideias têm muitas esquinas".

Em diversos momentos seu fluxo de pensamento foi interrompido por sua cachorra, Nina, o que ela usou como gancho para ressaltar que é essencial a sociedade investir numa boa convivência com "os não humanos".

A reinvenção do humano, tema geral do ciclo do Fronteiras deste ano, "passa por esse equilibrio com o não humano", segundo ela. "Os jovens de hoje têm uma consciência enorme da importância do planeta Terra. Conheço jovens cientistas que preferem seguir um caminho de vivência em comunidades, explorando o solo, plantando sua comida, não usando a força animal nem as máquinas."

Isso faz parte de um equilíbrio que precisa ser buscado de forma interseccional, o que vale tanto para essa coexistência com a natureza quanto para a superação das injustiças de raça e classe provocadas pelo colonialismo.

A espinha dorsal de sua fala passou pela história de seu pai, português que era um "branco de segunda", segundo suas palavras.

"Meu pai é um desgraçado com privilégios. As estruturas de poder do Ocidente, ao longo da história, se serviram destas pessoas que têm pouco poder, mas precisam pagar o aluguel. O poder precisa destes para se manter vivo e escravizar os outros. Alguém explora alguém que explora alguém, e enquanto não se vir sangue e não ouvirem gritos, essa roda continua a girar."

Seu pai nasceu em uma família pobre, se formou eletricista e se mudou para Moçambique, onde nasceu a escritora, na época em que o país era uma colônia de Portugal.

Era um momento, nos anos 1960, que os países africanos buscavam a independência e os portugueses eram um dos poucos povos que insistiam em manter seu poder nos territórios coloniais "através da presença do homem branco".

"Meu pai progrediu na terra dos negros explorando os negros, o que para ele era uma coisa natural, tal como hoje para nós é normal explorar e matar os animais. Ele falava da vida dos ricos sem perceber que ele próprio era explorado por esses ricos."

Mas, de forma paradoxal, foi ele também que transferiu para a filha "essa ambição de ir mais longe, esse desejo de ser livre e questionar o mundo".

A escravidão foi abolida em Portugal em 1869, mas, vivendo na África um século depois, ela disse ter testemunhado quando menina moçambicanos escravizados na mão dos mesmos portugueses.

Consciente de seus privilégios, Figueiredo disse que procurou, em "Caderno de Memórias Coloniais", romance autobiográfico que busca traçar um acerto de contas com a exploração da metrópole sobre as colônias, expelir essas reflexões de dentro dela "como um veneno". E não deixou de se incluir na crítica.

"Durante um tempo se discutiu muito se pessoas como eu deviam ser responsabilizadas como meu pai. Muitos dizem que sim, e nesses eu me incluo. Eu senti que saía do meu livro muito limpa, muito branca, senti necessidade de me tornar parte culpada."

Instada a falar sobre como enxergava o Brasil, país que ela visitou algumas vezes, Figueiredo afirmou que o país "ainda está no passado". "Há todo um caminho de reconhecimento do colonialismo que ainda não foi feito. Os brasileiros no privilégio não sabem que colonizam seus irmãos mais escuros ou de classe social diferente."

"Quando eu vou ao Brasil, sinto que viajo no tempo. Sinto que o Brasil é Lourenço Marques, e não Maputo", disse, em referência à capital moçambicana, que mudou do primeiro nome para o segundo em 1976, depois de conquistar a independência.

Também jornalista e professora, Figueiredo ganhou notoriedade não só com as reflexões de traços ensaísticos de "Caderno de Memórias Coloniais", mas também com elogiada sátira ficcional "A Gorda".

A fala da escritora encerra o ciclo Fronteiras do Pensamento deste ano, que teve palestras virtuais de nomes como Timothy Snyder, Alain Mabanckou e Andrew Solomon.

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