Descrição de chapéu The New York Times

'Lola', do The Kinks, um dos primeiros sucessos do pop com tema gay, faz 50 anos

Ray Davis explica composição da letra, que abarcava o espectro do não conformismo de gênero, nos anos 1970

Jim Farber
The New York Times

Em 1970, atos homossexuais ainda eram proibidos em certas áreas do Reino Unido e continuariam a ser por mais de uma década depois disso. Mas, dois anos antes que a primeira marcha pelo Orgulho LGBT acontecesse no país, Ray Davis, do grupo Kinks, o mais britânico dos compositores, compôs “Lola”, uma canção que abarcava todo o espectro do não conformismo de gênero.

“Meninas serão meninos/ e meninos serão meninas”, ele cantava, antes de enfatizar que “é um mundo misturado, confuso e torto/ com a exceção de Lola”.

A canção chegou ao segundo lugar das paradas de sucesso britânicas, ficou entre as dez mais ouvidas dos Estados Unidos e conquistou o primeiro lugar das paradas de cinco outros países. A reação do público ainda hoje surpreende o autor. “Eu não achava que a canção estivesse tão adiante de sua época”, Davies diz, “mas o tempo provou que era esse o caso”.

Para enfatizar o papel importantíssimo do single e celebrar seu 50º aniversário, Davies montou um box set que oferece versões remixadas e faixas excluídas do álbum que continha a canção, “Lola Versus Powerman and the Moneygoround, Part One”. O disco, uma sátira sarcástica à exploração dos artistas pela indústria fonográfica, ajudou a virar a situação comercial do Kinks, que não era muito favorável, e causou tamanha impressão ao cineasta Wes Anderson, que tinha 12 anos quando o álbum foi lançado, do qual ele usou três faixas em “Viagem a Darjeeling”, seu filme de 2007.

“Planejei cenas do filme especificamente em torno de ‘This Time Tomorrow’ e ‘Strangers’”, revelou Anderson via email. “Canções sublimes de um grupo de irmãos, o que de alguma forma tem relação com o filme. Depois criei mais uma cena, só para completar uma trilogia”, usando “Powerman”, ele diz.

Em conversa por vídeo de sua casa em Highgate, na região norte de Londres, Davies falou com sua habitual franqueza irônica. Ele está vivendo lá desde que a pandemia começou, “se bem que ‘vivendo’ talvez não seja o melhor termo”, disse Davies. “É mais como estar numa prisão.”

Mas ele reconheceu que o lockdown deu a ele tempo para montar a caixa especial e para começar a escrever uma nova peça baseada nos personagens do disco, uma obra que talvez possa servir como “parte dois” do original, 50 anos mais tarde.

A criação de “Lola Versus Powerman” surgiu num momento particularmente complicado na história do Kinks. Eles não conseguiam um grande sucesso havia quatro anos, uma situação exacerbada pelo fato de a banda estar proibida de excursionar pelos Estados Unidos. Davies diz que um dos motivos para isso é que eles se recusaram a assinar certos documentos para satisfazer os sindicatos. Outro envolvia um incidente no programa televisivo "Hullabaloo".

Numa gravação, depois que a câmera se afastou da banda para mostrar outros convidados, ela voltou ao Kinks e revelou o baterista Mick Avory e Davies dançando de rosto colado. “Na época, tudo que pudéssemos fazer para incomodar as pessoas, nós fazíamos”, diz Davies, rindo. “Hoje a cena seria aceitável. Na época, não era.”

Apesar das consequências que a brincadeira teve na carreira da banda, "ser banido dos Estados Unidos é uma das maiores realizações” deles, acrescentou Davies.

A pausa nas turnês da banda pelos Estados Unidos deu a Davies a oportunidade de prosperar em termos criativos, levando aos seus primeiros discos conceituais, “The Kinks Are the Village Green Preservation Society” e “Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire)”.

Mas o objetivo dele com “Lola” era declaradamente as paradas de sucessos. Para refrescar seu som, Davies procurou um instrumento com uma sonoridade que se destacasse no rádio. Ele o encontrou no violão ressonador National, uma espécie de “dobro” que produzia o som duro e metálico de um banjo.

“Meu pai tocava banjo”, diz Davies. “E me disse que, se eu quisesse um disco de sucesso, precisava dar um jeito de pôr um banjo na música. O violão National foi o mais perto disso que encontrei.”

Em seguida ele buscou uma melodia irresistível para o refrão, e testou a ideia em casa. “Eu tinha uma filha de um ano de idade, na época”, diz Davies. “Ela engatinhava pela casa cantando ‘lo lo lo lo Lola’. E concluí que, se ela cantava junto, os fãs do Kinks fariam o mesmo.”

Quanto ao tema ousado da canção, muitas histórias foram contadas ao longo dos anos sobre o que a teria inspirado. Davies diz que a ideia veio de um encontro numa casa noturna de Paris que a banda frequentava, o Castille Club. “Um cara que era parte da nossa equipe na época conheceu uma bela loira e a levou para o hotel. De manhã, ele percebeu a barba crescendo em seu queixo. Ou seja, teve uma surpresa!”

Davies diz que sua empatia por Lola vem de ter crescido em companhia de seis irmãs mais velhas. “Nós nos arrumávamos e fazíamos festas em casa”, ele diz. “Os homens se vestiam de mulher. Meu pai, que é um dos caras mais machos que você possa imaginar, de vez em quando colocava uma peruca e dançava pela casa, brincando, e eu encorajava isso. É parte da cultura do music hall que nós temos aqui. É mais aceito em Londres.”

O retrato de Lola que Davies oferece, ele diz, reflete sua abordagem geral quanto a personagens. “Quando componho canções, me ponho no papel do protagonista”, ele explica. “Em ‘Sunny Afternoon’ eu queria saber quem era aquele aristocrata combalido, e me transformei nele. Para a jornada de Lola, pesquisei um pouco conversando com drag queens.” Ele acrescenta que admira qualquer pessoa que se levanta e tem a coragem de ser aquilo que é.

Davies acredita que a letra da canção tenha “passado”, junto aos ouvintes de mente menos aberta, porque “as pessoas só ouvem um terço da letra de uma música ao decidir se gostam ou não dela". "Escutam só as partes grudentas.”

O assunto também pode ter passado despercebido pelos censores da BBC, que só objetaram à menção da marca Coca-Cola na letra, o que violava as regras da rede quanto a inserções comerciais. Para resolver o problema, Davies gravou uma versão alternativa com a letra mudada para “cherry cola”.

Embora referências gays já tivessem surgido em canções pop anteriores, “Lola” foi o primeiro sucesso com um tema LGBT, disse JD Doyle, historiador da música que apresentava o programa de rádio “Queer Music Heritage”. Segundo ele, “’Lola’ fez história”.

De acordo com Davies, “Lola” encorajou outros compositores a explorar território semelhante. “Antes de morrer, Lou Reed me disse que ‘Lola’ o influenciou muito”, diz Davies. “Foi reconfortante para ele quando estava compondo ‘Walk On the Wild Side’.”

Mais tarde na década de 1970, Davies compôs “Out of the Wardrobe”, sobre um homem heterossexual que gosta de usar roupas femininas, o que inicialmente incomoda sua mulher, mas ela mais tarde vem a curtir a ideia. Da mesma forma, o narrador em “On The Outside”, outra canção do Kinks, encoraja o personagem principal a aceitar sua identidade, que Davies descreve hoje como transgênero. “É alguém que está passando por um tremendo trauma emocional por causa da necessidade de ser alguma coisa que sabe que não é”, ele diz.

Lola era um dos poucos personagens simpáticos em “Powerman”. Boa parte das demais faixas do disco —que também inclui duas composições notáveis de Dave, o irmão de Davies— foram inspiradas por um contrato de gravação doloroso que tornava difícil para o Kinks ganhar dinheiro. “É a velha história do artista que assina um contrato impossível”, diz Davies. “E era algo que eu tomava como afronta pessoal.”

Ironicamente, o sucesso do single e do álbum permitiram que o Kinks assinasse um novo contrato e tivesse um futuro melhor. Mas uma das canções que eles gravaram para o disco, “Anytime”, foi excluída da versão definitiva porque Davies a considerava “comercial demais para seu próprio bem”. (O som e o sentimento da canção são próximos de “Hey Jude”, dos Beatles.)

O box set traz uma nova versão da faixa, expandida por um monólogo de uma misteriosa personagem feminina que fala de um mundo de isolamento e solidão, que reflete a vida durante a pandemia. É um assunto que atingiu Davies de maneira especialmente pesada, porque uma de suas irmãs mais velhas morreu de coronavírus alguns meses atrás. “Não pudemos ir ao funeral”, ele diz.

Para o novo lançamento, ele conduziu uma série de entrevistas com seu irmão, Dave, tendo em mente um propósito mais amplo –promover uma reunião do Kinks, que não se apresenta como banda há 23 anos. “Eu gostaria de trabalhar com Dave de novo —se ele aceitar trabalhar comigo”, diz Davies. “Minha esperança é que isso o inspire a confiar mais em mim.”

Por enquanto, Davies está concentrado na peça que leva adiante a história contada em “Lola Versus Powerman”. Ele diz que a continuidade de seu trabalho e do trabalho do Kinks são muito importante para ele. "Tudo que escrevo, escrevo tendo em mente o quadro mais amplo.”

Tradução de Paulo Migliacci

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