Música é ótimo, mas o povo precisa de casa, diz Supla, que lança disco de rock

Num ano de reclamações de quem tenta tocar a carreira musical, o músico não poderia ter ficado mais ocupado

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Retrato do cantor Supla, que lança o álbum

Retrato do cantor Supla, que lança o álbum "SuplaEgo" Mateus Mondini/Divulgação

São Paulo

Sete singles, sete clipes novos, um álbum com 13 músicas inéditas recém-lançado, lives, shows drive-in e um programa de entrevistas online. Num ano de reclamações de quem tenta tocar a carreira musical, Supla não poderia ter ficado mais ocupado.

Até março, 2020 oferecia outros caminhos. Ele tinha praticamente pronto “SuplaEgo”, sucessor do álbum duplo “Ilegal”, lançado em abril de 2018. No meio do caminho, soltou um trabalho alternativo.

Eu lancei em 2019 um álbum eletrônico, ‘S&V’, meio pós-punk, em dupla com Victoria Wells, minha parceira que mora em Nova York. Conseguimos fazer shows fora do Brasil. Tocamos no Rebellion Festival”, conta Supla, falando do maior evento punk do planeta, no Reino Unido.

Ele lembra perfeitamente quando os rumos mudaram. “Em 12 de março, cantei músicas do John Lennon no MIS, na abertura da exposição de fotos do Bob Gruen. No dia seguinte, fui para o Paraná fazer shows. Chegando lá, era o único a usar máscara. Ninguém ainda tinha a verdadeira dimensão da coisa.”

Numa tarde de autógrafos num shopping, o público pensou que a máscara era apenas mais um adereço no visual punk que Supla adota desde os anos 1980.

Na volta a São Paulo, os shows pararam. Ele tinha preparado uma apresentação no Centro Cultural São Paulo, para a qual já tinha montado o cenário. Decidiu então ir soltando os singles, com clipes. O terceiro a sair, ”Kung Fu on You”, viralizou e deu o sinal de que o caminho digital era inevitável.

Este, como todos os outros clipes da safra, foi gravado com precauções contra a Covid. Supla registrou imagens em Cubatão, no litoral paulista, com autorização da prefeitura. “Só eu e o cara me filmando. Inventei uma coreografia de movimentos de kung fu. Eu gravei em Cubatão, e a Victoria, coautora da música, fez a mesma dança no metrô e nas ruas de Nova York. Juntamos na edição.”

As visualizações transformaram “Kung Fu on You” no carro-chefe do álbum, apesar de ser uma das quatro canções em inglês no disco. “Preferi deixar a canção em inglês, como tinha escrito desde o começo. No ‘Ilegal’ fiz um disco duplo bilíngue, mas acho que às vezes traduzir tira a força da música.”

“SuplaEgo” é um disco de rock, sem atenuantes. Mas quem espera uma repetição constante da pegada punk deve se surpreender. Aos 54 anos, Supla sabe processar influências. Há, claro, rock rápido e pesado, já na trinca de abertura, “SuplaEgo”, “Embaixo da Unha” e “Fabinho Leproso”.

Uma variedade de timbres e levadas se espalha pelo resto do disco. “Kung Fu on You” é grudenta como antigos hits de rádio FM. Já “Sangue Vermelho” parece o rock com balanço que os Rolling Stones gravaram na segunda metade dos anos 1970.

“Minha trilha é a do rock, mas eu abro o campo”, diz Supla. “Acho que ‘Sangue Vermelho’ tem uma inspiração Studio 54, meio Stones, meio Blondie. Rock sem medo de ser discoteca, tipo ‘Emotional Rescue’, sabe?”, lembrando o álbum dos Stones de 1980.

“Sangue Vermelho” traz uma parceria de Supla e Karol Conka, na letra e nos vocais, com os dois bem à vontade em suas diferenças. Há mais sons que surpreendem, como “Delírio Tropical”, com letra que poderia ser da melhor fase de Lulu Santos, ou “Granada”, direta canção de amor.

Há potencial polêmico em “Rei dos Gays”, história de um homofóbico agressivo que se revela homossexual. “Já ficaram bravos comigo”, conta Supla. A letra é uma das que fez com Teodoro, sobrinho adolescente, filho do irmão André. “Ele estava num protesto na República, dali passou em casa e disse que queria tentar fazer letras comigo.”

Supla resolveu apostar mais ainda online, mesmo criticando a dependência digital em canções como “Fanáticos Virtuais” e “Cresça e Aconteça”. “Comecei a fazer lives e aí criei um programa semanal de entrevistas, consegui patrocínio. Já conversei com Bárbara Paz, Karol Conka, Erasmo Carlos, muita gente.”

Ainda planejando shows para “SuplaEgo”, ele adianta que já tem músicas novas no violão. Mas diz não saber exatamente se o mundo está precisando de mais música no meio da crise. “Olha essas filas na Caixa para receber uma miséria de auxílio! Música é ótimo, mas acho que a moçada está mesmo precisando de chão, de uma casa para morar.”

SuplaEgo

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