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Cinema

Nem Meryl Streep e Nicole Kidman salvam 'A Festa de Formatura'

Filme adaptado da Broadway defende causas nobres ao atacar tirania religiosa, mas foge da arte que pratica, o cinema

A Festa de Formatura

  • Quando Estreia na Netflix nesta sexta (11)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Meryl Streep, Nicole Kidman e James Corden
  • Produção EUA, 2020
  • Direção Ryan Murphy

A fábula de “A Festa de Formatura”, ou “The Prom”, no original, uma rara sigla que ainda não virou partido político no Brasil, se passa numa cidadezinha do estado americano de Indiana onde a Netflix nunca mais será bem vista. Tudo acontece numa escola de lá, quando a associação dos pais, de pleno acordo com os também intolerantes filhos, decide cancelar a festa porque uma das alunas, Emma, insiste em levar sua namorada.

Nisso estamos, quando uns tantos artistas (Meryl Streep à frente), que amargam fracassos em série na Broadway, decidem ser urgente adotar uma boa causa para voltarem a brilhar no Twitter e, por conseguinte, na Broadway. Que melhor causa haveria para abraçar do que a LGBT? Eis então Nova York levando suas luzes e sua necessidade de relações públicas até a cidade caipira de um estado caipira. Não será fácil, claro, transformar tais mentes.

É preciso saudar a temática geral, lançada logo na abertura do filme. Primeiro porque a Netflix ousa, com a defesa da tolerância, num desses temas que levantam resistências ferozes. Ou seja, não é só em Indiana que arrebanhará detratores.

Segundo, porque o melhor de “A Festa de Formatura” é justamente esse início tremendamente irônico seja em relação ao narcisismo de “celebridades”, seja à repressão violenta do corpo a que são submetidas as vítimas da moral religiosa conservadora em boa parte do planeta. A cutucada na caipirice americana é tão saudável como é divertida a sátira ao oportunismo de certos meios artísticos (Hollywood à frente).

O desenvolvimento, no entanto, é menos feliz. A estrutura lembra exageradamente os musicais dos anos 1940, em que a questão central era sempre a dificuldade para conseguir montar um musical, ou para se tornar um astro famoso —coisas assim. Aqui é mais ou menos a mesma coisa, com outros percalços, certamente, mas nada que enriqueça muito a velha ideia, que é a de fazer uma festa.

Certo, não é fácil inventar num gênero tão cheio de convenções (mas “La La Land”, para não ir longe, consegue contornar alguns problemas que emperram “A Festa”) e não criar outros tantos. Um deles é que, se vamos tratar de um grupo de atores chatos, convém não dar muito espaço a eles, já que sua chatice vai se grudar ao filme e travar a evolução.

Por fim, o maior dos problemas vem do filme em si. Há um roteiro que entende que tirar lágrimas do espectador é a finalidade maior de um filme. Não faltam tentativas, em todo caso. Quanto à direção, parece acreditar que, no cinema, a câmera deve sempre se mexer. E assim se fez. A câmera se move loucamente, sem saber por que se move, sem saber aonde vai. A montagem vai no mesmo sentido –picota a coreografia com tanto empenho que às vezes, durante as danças, dá para lembrar de algum “Velozes e Furiosos”.

Ou, em poucas palavras, se o empenho em combater a tirania religiosa e o preconceito são intenções mais que atuais, é justo esperar que a ousadia do gesto venha acompanhada de um espírito mais aberto também em relação à arte que pratica, no caso o cinema. Nisso, “A Festa de Formatura” fica devendo um tanto.

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