Descrição de chapéu Livros Flip

No sexo, somos animais como quaisquer outros, diz Pilar Quintana na Flip

Colombiana discutiu com Ana Paula Maia a bestialidade do ser humano, em mesa bem azeitada

São Paulo

Numa mesa bem azeitada pela organização da Flip, a escritora colombiana Pilar Quintana discutiu com a brasileira Ana Paula Maia sobre um tema que perpassa a literatura de ambas, a animalidade do ser humano.

"Todo o universo que venho construindo traz uma presença muito intensa do animal humanizado, e o homem que se torna bestializado", afirmou Maia, que venceu duas vezes consecutivas o prêmio São Paulo de Literatura. "Tenho uma fascinação pela natureza bruta. Se você souber observar a sua essência, ela ensina muita coisa."

Os romances da escritora carioca são marcados por personagens rústicos, uma ambientação rural e narrativas repletas de violência e horror.

pilar e ana paula e schneiner em computador em garagem
Pilar Quintana (maior), Ana Paula Maia e o mediador Schneider Carpeggiani na quinta mesa da Flip, transmitida pela internet por conta da pandemia - Marlene Bergamo/Folhapress

Quintana, que acaba de lançar "A Cachorra" no Brasil, comentou que quis se aprofundar na relação das pessoas com os animais porque sempre achou um assunto sub-representado na literatura.

"Houve uma mudança muito rápida, em que os animais passaram a fazer parte das famílias. Quando eu era pequena, os gatos viviam longe da casa e serviam para comer ratos. Hoje as pessoas comemoram o aniversário do cachorro, vão ao cemitério fazer velório quando morrem."

Ela contou que, na região mais pobre e isolada do litoral colombiano do Pacífico —local onde viveu por nove anos e que inspirou o cenário de "A Cachorra"— as pessoas comiam todos os animais, sem distinção. "Isso era impensável para mim antes."

Leituras que fez a partir da década de 1990, que procuravam mostravar o ser humano como um animal comum imbuído por acaso de racionalidade, foram forte influência artística para ela.

"No sexo, quando sentimos desejo, tiramos a roupa, tiramos todas as máscaras e nos levamos por nossos instintos", comentou. "Ali somos animais como quaisquer outros."

A mesma lógica guiou sua abordagem da maternidade, tema central do romance recém-publicado pela editora Intrínseca. "Quis olhar para esse desejo de ser mãe e para a própria maternidade como um instinto bem animalesco."

Na obra, a protagonista Damaris, que não consegue engravidar mesmo após décadas de tentativas, acaba criando uma relação de maternidade deturpada com uma cachorra que adota no começo da narrativa.

"É um livro cheio de monstros. O mar, a selva, o esposo da protagonista, todos têm uma certa monstruosidade. Mas o mais horrível é que Damaris, que sempre esforça para ser boa, descobre que tem um monstro dentro de si. Penso que isso é o mais assustador de tudo."

A colombiana contou que a pergunta a que queria chegar, no fim do livro, era —"O que teria que acontecer a mim para que eu me convertesse no pior que posso chegar a ser? Para fazer aquilo que considero impossível?"

Esse horror psicológico é um dos traços artísticos que consagraram Maia, tanto em livros como "Enterre Seus Mortos" e "Assim na Terra como Embaixo da Terra" como no roteiro da recente série "Desalma", do Globoplay.

"Eu sempre sinto vontade de ir para esses lugares estranhíssimos, a que eu me sinto presa para criar", disse, em referência aos descampados ermos onde a ação de seus livros costuma se desenrolar. "Eu não tenho a visão de que aquele é um espaço horrível. É repulsivo, desconfortável, mas de algum jeito é agradável para mim."

Maia comentou ser uma daquelas pessoas que se sentem confortáveis, e não afugentadas, ao ver um filme de terror. "Eu evito ver muito tarde", divertiu-se. "Mas eu sinto um carinho, um abraço, um aconchego."

A visceralidade, afinal, é algo que está presente não só na literatura feita por Maia, mas no seu próprio processo criativo.

"Acho que todo autor escreve intuitivamente, por mais que tenha uma bagagem por trás. Eu já fui completamente engolida já pelo que eu escrevo. Estou entregue", afirmou. "Alguém tem que ser o preparador de corpos, fazer o trabalho sujo. Acho que é isso que eu sou."

A conversa foi mediada pelo editor Schneider Carpeggiani. A Flip segue até domingo, com mais sete mesas veiculadas de forma virtual e gratuita.

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