O que Stephen King pensa sobre as séries de televisão baseadas em seus livros

Com nova adaptação de 'A Dança da Morte', o escritor avalia as melhores e piores adaptações de suas obras

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Calum Marsh
The New York Times

Stephen King escreveu alguns dos romances de terror mais amados da história da literatura popular, e muitos deles foram transformados em filmes igualmente aclamados, e de muito sucesso. Trabalhos como “Carrie, a Estranha”, “Conta Comigo”, e “Um Sonho de Liberdade” conquistaram posições mais que merecidas no cânone cinematográfico. Outras de suas histórias —"Comboio do Terror”, “A Maldição” e “A Torre Negra”—, nem tanto.

Mas e a telinha? Como no caso das adaptações para o cinema, as tentativas de dar vida aos livros de King na televisão tiveram resultados variados, e poucas atingiram as alturas de “À Espera de um Milagre” e “Louca Obsessão”. Mas graças ao tempo de tela mais longo oferecido por uma série, diversos dos romances mais longos do escritor se provaram mais adequados à televisão do que ao cinema.

“Essa é a melhor coisa, na televisão”, disse King, falando de sua casa em Bangor, Maine. “As coisas podem ser tomadas da maneira que são, e expandidas.”

Com uma nova adaptação de um dos mais longos e complicados romances do escritor, “The Stand”, em dezembro na CBS All Access, King nos ofereceu uma avaliação sobre as melhores e piores adaptações de suas histórias para a televisão.

​'It', de 1990

A minissérie em dois episódios da rede ABC, uma adaptação do longo romance de 1986 sobre um monstro que assassina crianças em uma cidadezinha do Maine, talvez seja mais recordada pelo desempenho apavorante de Tim Curry como o palhaço Pennywise.

“Gostei muito da série, e acho que Tim Curry fez um Pennywise excelente”, disse King. “A série apavorou bastante muitas crianças naquela época.”

Homem fantasiado de palhaço
Tim Curry em 'It', de 1990 - Reprodução/Amazon

King, na verdade, credita ao impacto da série sobre as crianças o sucesso posterior da versão cinematográfica, “It – A Coisa”, com Bill Skarsgard como o palhaço diabólico, que faturou muito nas bilheterias em 2017. (Uma continuação lançada em 2019, baseada na segunda metade do romance, teve o mesmo sucesso.)

“Uma das razões para o filme ser um grande sucesso era que a garotada se lembrava de ter assistido a história na TV”, disse King. “E por isso foi ao cinema ver de novo.”

'Os Estranhos', de 1993

“Não gostei da adaptação, não gostei nem um pouco”, disse King sobre “The Tommyknockers”, versão para a TV de seu romance que fala dos efeitos paranormais sobre os moradores de uma cidadezinha de um objeto voador não identificado enterrado por lá. (Ele já descreveu o romance como “um livro horroroso”.)

O astro, Jimmy Smits, “é um bom ator”, disse King, mas, como Jim Gardener, o poeta alcoólatra, “ele tem muitos diálogos pretensiosos e pedantes a dizer”. E com pouco mais de três horas de duração, King acha que a minissérie “precisava ter sido muito mais longa”.

“A produção parece barata e improvisada”, disse ele. “E minha impressão foi a de que eles não entenderam o sentido do livro.”

'A Dança da Morte', de 1994

Depois que “It” e de “Os Estranhos” registraram altas audiências na rede ABC, a companhia decidiu aprovar uma adaptação ambiciosa de “A Dança da Morte”, épico lançado em 1978 por King sobre os sobreviventes de uma doença infecciosa que matou 99% da raça humana.

Adaptado por King e dirigido por seu amigo e colaborador Mick Garris, o resultado é fiel e coeso; o autor compara a série a outras produções nascidas de visões criativas singulares, como “Godless” e “The Queen’s Gambit”.

“Mick dirigiu tudo, eu escrevi tudo, e por isso não existia qualquer senso de desequilíbrio na maneira pela qual o trabalho fluía”, disse King. “Mick amava o livro e defendia a ideia de fazer só o livro, que foi o que fizemos. A ABC gastou muito dinheiro na série.”

'The Langoliers', de 1995

Uma adaptação menos conhecida de um trabalho de King, “Fenda no Tempo”, é outra minissérie em dois episódios para a rede ABC, baseada em um romance curto publicado como parte da antologia “Depois da Meia-noite”, de 1990. David Morse, Dean Stockwell e Bronson Pinchot estrelam como passageiros de um voo comercial que volta no tempo e termina encalhado no aeroporto de Bangor.

“Eles vieram a Bangor para filmar”, recorda King. “Gostei da adaptação porque trouxe dinheiro para a cidade, e gostei do roteiro. Não me lembro se escrevi ou não o roteiro. Escrevi?”

Na verdade o roteiro é de Tom Holland, que também dirigiu a minissérie. “Bem, eu trabalhei como ator na série”, disse King. Ele faz uma breve participação como um executivo sarcástico que aparece em uma cena de sonho na pista de pouso.

'O Iluminado', de 1997

King jamais hesitou em afirmar sua preferência pela versão para a TV de seu romance, ante a adaptação cinematográfica muito elogiada de Stanley Kubrick —“O Iluminado”— para o livro lançado em 1977. É a história de um professor e dramaturgo alcoólatra que é levado à loucura e à violência por um hotel isolado e mal-assombrado nas Montanhas Rochosas, no estado do Colorado.

“Vamos dizer o seguinte”, disse King. “Não gosto do filme. Nunca gostei. Admiro o filme, admiro Kubrick como diretor, o que às vezes é ignorado quando pessoas que absolutamente amam o filme criticam minha posição. Amo Kubrick como cineasta, mas sinto que ele não tinha o jeito necessário para esse trabalho específico.”

“Não gosto do arco da história de Jack Nicholson como Jack Torrance”, ele prossegue. “Porque não é um arco. É uma linha reta. Ele já começa maluco.”

King disse que Steven Weber, o astro da série da ABC, compreendeu melhor o personagem. “Ele sabia o que deveria estar fazendo. Tinha de expressar amor por sua família, mas o hotel lentamente sobrepuja seu senso moral e seu amor pela família.”

King também elogia Rebecca de Mornay por sua interpretação como Wendy Torrance, na qual ela “segue o que está no livro”, e diz que essa é “a verdadeira razão do meu amor pela série”. “Acho que devo assisti-la de novo”, diz King.

'A Tempestade do Século', de 1999

“Tempestade do Século” não é uma adaptação, mas uma série original escrita por King para a rede de TV NBC. E o escritor a considera como sua maior realização na televisão. “É meu completo favorito entre todos os trabalhos”, ele disse.

Colm Feore estrela como Andre Linoge, um demônio nefário que aterroriza uma cidadezinha em uma ilha do Maine que está sob os efeitos de uma terrível nevasca. “Amei Colm Feore como Linoge, e amo a história”, diz King. “Ela foi filmada em Southwest Harbor, no Maine, em pleno inverno, e eles capturaram a neve e o senso daquela tempestade terrível, e de as pessoas estarem aprisionadas por ela. Fizeram um trabalho excelente.”

'Rose Red – A Casa Adormecida', de 2002

King escreveu “Rose Red”, mais um projeto direto para televisão, quando estava se recuperando um acidente de carro que quase o matou, na virada do milênio. “Eu estava sentindo muita dor, mas achei que adoraria fazer uma homenagem a Shirley Jackson”, ele recorda. “O resultado foi uma história de fantasmas repleta de efeitos especiais, para a ABC, no espírito de ‘The Haunting of Hill House’, de Jackson”.

A produção encontrou problemas, entre os quais a morte do ator David Dukes, e, por fim, “não fiquei encantado com o resultado”, diz King. “A série não tinha o impacto de ‘Tempestade do Século’”, ele diz. “E alguns atores eram... bem, talvez o roteiro fosse ruim”.

'O Domo', de 2013

“O Domo”, romance de 2009, tem uma premissa irresistível: uma cidadezinha termina inexplicavelmente aprisionada sob um gigantesco domo impenetrável. A adaptação, para uma série da CBS, estrelada por Dean Norris, de “Breaking Bad”, como o vereador James Rennie (Big Jim), teve um começo promissor.

“Os primeiros episódios foram ótimos”, diz King. “O problema era que a CBS queria só o básico —nada de muito desafiador, só um programa para ocupar algumas horas”.

E à medida que a série avançava, “ela saiu dos trilhos completamente”, diz King, e por fim “decaiu à mais completa mediocridade” —não que isso o incomode especialmente.

“Foi triste, mas não me incomodou”, diz King. “Parei de assistir depois de algum tempo, porque não estava nem aí com a série”.

'Mr. Mercedes', de 2017

“Mr Mercedes” é uma adaptação muito boa e genuinamente assustadora de uma série recente de romances policiais de King sobre um detetive aposentado que vive no meio-oeste e é desafiado por um assassino serial que ele não conseguiu apanhar quando ainda estava na polícia. Desenvolvida pela Audience Network, uma subsidiária obscura da AT&T, a série não é tão conhecida quanto outras adaptações de trabalhos do escritor para a TV. King não acha justo que seja essa a situação.

“Foi como fazer um show de rock pensado para um estádio no palco de um bar”, diz King. “Gostei demais da série, mas ninguém assistiu.”

As três temporadas da série foram recentemente adquiridas pela rede NBC (não houve renovação para uma quarta temporada, por enquanto), e está sendo exibida no serviço de streaming Peacock. “E graças a Deus por isso. Pelo menos está sendo assistida agora.”

'Castle Rock', de 2018

“Castle Rock”, do serviço de streaming Hulu, difere das outras séries baseadas em King feitas para TV porque não é uma adaptação direta de uma de suas histórias, mas uma espécie de amálgama de seus personagens, temas e cenários.

“J.J. Abrams me procurou e disse que queria usar a cidade fictícia de Castle Rock como cenário para alguns de meus personagens e —isso pode soar pretensioso— para minha mitologia”, diz King. “As pessoas envolvidas eram muito fãs dos livros, e gostei muito do que fizeram.”

A Hulu cancelou a série depois de duas temporadas —bem no momento em que ela estava encontrando um ritmo, argumenta King.

“Na segunda temporada, eles realmente ganharam impulso”, diz o escritor. “Eu gostaria que tivesse continuado e crescido um pouco mais.”

'A Dança da Morte', de 2020

A nova adaptação de “A Dança da Morte” para a CBS All Access está sendo muito aguardada, e nem mesmo King viu o resultado completo.

“Vi algumas versões prévias, e não posso dar uma opinião ainda, exceto dizer que foi interessante ver a história trazida para o século 21, e ver algumas das mudanças que eles fizeram”, ele diz.

Uma melhora clara teve a ver com a seleção do elenco e a diversidade. “O romance era branco demais. A minissérie era branca demais”, ele disse. “Na nova versão, eles foram multiculturais, o que faz perfeito sentido.”

O escritor também contribuiu com um novo final —que não quer revelar.

“Sempre soube que havia alguma coisa a mais a dizer naquele livro, uma cena a mais que eu queria escrever, e por fim o fiz”, disse King. “E estou satisfeito com isso.”

Tradução de Paulo Migliacci

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