Descrição de chapéu The Wall Street Journal

ONG que revelou pinturas feitas por mulheres da Renascença será fechada

Advancing Women Artists identificou obras italianas do século 16 e financiou a restauração de 70 delas

John Hooper
The Wall Street Journal

A AWA (Advancing Women Artists), entidade sem fins lucrativos dedicada a resgatar as obras esquecidas de artistas mulheres, foi fundada pela filantropa Jane Fortune e está sendo fechada.

Desde sua fundação, em 2009, a AWA já identificou centenas de obras criadas por artistas italianas entre os séculos 16 e 20 e financiou a restauração de 70 delas. A organização atraiu atenção mundial no ano passado quando mostrou ao mundo a obra que talvez seja a mais ambiciosa pintada por uma mulher durante a Renascença italiana: “A Última Ceia”, de Plautilla Nelli.

Detalhe da obra 'A Última Ceia', de Plautilla Nelli
Detalhe da obra 'A Última Ceia', de Plautilla Nelli - Reprodução

Muitas das telas que chamaram a atenção da AWA foram encontradas, encardidas, em depósitos empoeirados de museus e igrejas toscanas escuras e úmidas. O trabalho da entidade levou Jane Fortune a ser apelidada na Itália de Indiana Jane, alusão tanto a seu estado natal quanto ao intrépido e fictício caçador de tesouros Indiana Jones.

Uma mensagem enviada aos membros da AWA em 1º de dezembro e postado no site da entidade na internet diz: “Nossa organização muito amada fechará suas portas oficialmente em junho de 2021”.

Ironicamente, o anúncio do fechamento da AWA foi feito em um momento de interesse inusitado pela arte criada por mulheres. Trabalhos de artistas mulheres do século 20 vêm alcançando preços recordes em leilões; uma obra da pintora britânica Jenny Saville foi arrematada em 2018 por mais de US$ 10 milhões (R$ 51,5 milhões), o valor mais alto já pago por uma pintura feita por uma mulher.

Obra 'Sensation', da artista plástica Jenny Saville, vendida por US$ 10 milhões, o valor mais alto já pago por uma pintura feita por uma mulher viva
Obra 'Sensation', da artista plástica Jenny Saville, vendida por US$ 10 milhões, o valor mais alto já pago por uma pintura feita por uma mulher viva - Reprodução/Instagram/@jenny_saville_art

Em fevereiro, o historiador de arte Michael Cole, da Universidade Columbia, publicou uma monografia extensa sobre a artista italiana do século 16 Sofonisba Anguissola. Mais recentemente, a National Gallery, em Londres, inaugurou uma grande exposição dedicada à pintora barroca Artemisia Gentileschi.

Mulher branca toca instrumento
Autorretrato da pintora barroca Artemisia Gentileschi, datado 1615. - Wadsworth Atheneum Museum of Art

O anúncio feito pela AWA, que não explicou por que será fechada, surpreendeu muitos apoiadores da entidade. A diretora da ONG, Linda Falcone, disse que a AWA não possui os recursos financeiros necessários para levar seu trabalho adiante e que não conseguiu encontrar um benfeitor que tomasse o lugar de Jane Fortune, que morreu em 2018.

“Simplesmente não tínhamos muitas das condições de base que necessitaríamos para poder continuar”, explicou Falcone. “A gente precisa de contribuições enormes de financiadores. Para podermos avançar, também precisaríamos de engajamentos em projetos de diversas instituições.”

Em seu testamento, Jane Fortune legou sua coleção de arte ao Eskenazi Museum of Art, de Bloomington, em Indiana, nos Estados Unidos, juntamente com o que o museu, em seu site, descreveu como um “presente patrimonial transformador”. A doação permitiu ao museu criar o Fundo Jane Fortune para Artistas Mulheres. O museu se negou a comentar.

Mas, para a surpresa de muitos, Fortune não criou um fundo para a AWA. “Por que ela não criou o fundo?” disse Falcone. “Por que quis deixar o fundo nos Estados Unidos. Ela se sentia mais próxima da entidade ali e tinha mais controle sobre ela.”

Falcone acrescentou que Fortune “queria que outras pessoas assumissem esta missão. Ela realmente pensou ‘isto daqui tem grande valor, e eu já fiz minha parte. Lancei o esforço, e, se ele vai sobreviver, o fará graças ao empenho de outros’”.

Jane Fortune foi inspirada a iniciar seu caminho quando, num quiosque de antiguidades em Florença, topou com os documentos de uma conferência acadêmica promovida em 1998 sobre a freira dominicana Plautilla Nelli, morta em 1588. Organizada pelo professor Jonathan Nelson, da Universidade Syracuse em Florença, a conferência foi inspirada pela descoberta por Nelson de um livro sobre Nelli escrito por outra freira.

Durante séculos, mulheres que quisessem pintar ou esculpir enfrentavam obstáculos enormes. Nos tempos renascentistas, elas não podiam ser aprendizes de um mestre. Eram proibidas de estudar anatomia ou de desenhar nus masculinos a partir de modelos vivos.

Mas Anguissola, Gentileschi e Lavinia Fontana, de Bolonha, acabaram sendo reconhecidas por seus contemporâneos como artistas de valor. Quando, no final do século 16, um embaixador persa em Roma decidiu encomendar seu retrato, pediu a Lavinia Fontana que o pintasse. Foi nos séculos subsequentes que as realizações de artistas mulheres foram esquecidas ou apagadas.

“Quando primeiro conheci Jane [Fortune], havia pouquíssimo interesse na Itália por artistas mulheres entre curadores, historiadores de arte e o público”, disse o professor Nelson. “Jane investiu energia, paixão e recursos financeiros enormes para mudar essa situação.”

“Acho que realmente demos ao mundo algo sobre o qual pensar”, disse Falcone. “Temos assistido a uma mudança enorme desde 2014 no modo como os museus estão começando a recuperar e redescobrir arte criada por mulheres.”

A AWA cooperou estreitamente com o Programa Jane Fortune de Pesquisas sobre Artistas Mulheres na Era dos Médici. Desde a morte de sua benfeitora, o programa está suspenso, também por falta de recursos.

A diretora do programa, Sheila Barker, comentou: “Temos muito poucas obras de arte criadas por mulheres na Renascença que tenham sobrevivido em museus em condições aceitáveis, e esses trabalhos correm o risco de ser perdidos para sempre se não forem conservados periodicamente. Sinto realmente que esta é uma missão que precisa ser assumida pelo Fundo Mundial de Monumentos. Corremos o risco de perder um conjunto precioso de obras de arte que atestam a contribuição de mulheres para a civilização”.

Tradução de Clara Allain

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