'Pagode Black-tie' veste de smoking e gravata borboleta samba carioca dos anos 1980

Disco de Nei Lopes e Guga Stroeter busca mostrar importância histórica do ritmo com roupagem de big band

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Rio de Janeiro

Faz tempo que Nei Lopes aponta o samba surgido no Rio de Janeiro na década de 1980, batizado de pagode, como algo transformador da música brasileira. Teria peso semelhante ao da bossa nova no final dos anos de 1950. “Pagode Black-tie”, álbum que está lançando, é um passo a mais nessa campanha de esclarecimento ou convencimento.

O trabalho foi desenvolvido pelo compositor carioca em parceria com o maestro paulistano Guga Stroeter. São 12 músicas interpretadas por uma big band, a Projeto Coisa Fina, arranjos de Dino Barioni e, no papel de crooner, Nei Lopes. Nas fotos de divulgação, ele está de smoking.

Dois homens de roupa formal lado a lado. Um é branco e outro negro
Guga Stroeter (à esq.) e Nei Lopes (à dir.) - F. Pepe Guimarães

“O traje de malandro, camisa listrada e chapéu palheta, enseja abordagens repressivas, daquelas em que a vítima era autuada por vadiagem. Usando smoking e gravatinha borboleta preta, o samba é tratado como doutor”, diz Lopes, recorrendo ao humor para falar sério.

Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra e outros revitalizaram tradições como a do partido alto e incorporaram à sonoridade do samba instrumentos como o tantã e o repique de mão.

“A criação desse novo estilo de compor e interpretar comprovou a riquíssima diversidade do samba e apontou para outras possibilidades, sem a necessidade de nenhum hibridismo ou fusão”, afirma Lopes.

Stroeter assume que, quando ainda não tinha intimidade com o assunto, misturava o pagode dos anos de 1980 com o que imperou na década seguinte, o de Raça Negra e outros conjuntos. Ao conhecê-lo melhor, passou a ser um entusiasta do repertório.

“Quem trabalha com orquestras fica atento a boas melodias e harmonias. Essas músicas tinham a melhor qualidade do que se produzia naquele momento”, exalta ele, para quem “o álbum é um manifesto”. “A ideia é chamar atenção para um recorte específico da história da música brasileira.”

As letras também têm uma riqueza nem sempre reconhecida. Exemplo maior de letrista é Luiz Carlos da Vila, autor com os irmãos Sombra e Sombrinha de “Além da Razão”. Lopes seleciona um trecho: “Por te amar eu pintei um azul pro céu se admirar/ Até o mar adocei e das pedras leite eu fiz brotar/ De um vulgar fiz um rei e do nada um império pra te dar”.

Outros sambas do álbum fizeram e ainda fazem sucesso, conciliando popularidade e qualidade. São os casos, por exemplo, de “Morrendo de Saudade”, de Wilson Moreira e Nei Lopes, “Água de Chuva no Mar”, de Wanderley Monteiro, Carlos Caetano e Gerson Gomes, “Mel na Boca”, de David Correa, “Conselho”, de Adilson Bispo e Zé Roberto, e “O Show Tem que Continuar”, de Arlindo Cruz, Sombrinha e Luiz Carlos da Vila.

Embora rostos colados estejam em baixa por causa da pandemia, é um álbum para dançar. Stroeter montou uma versão robusta das antigas orquestras de gafieira: quatro trompetes, quatro trombones, cinco saxofones, violão, cavaquinho, bandolim, guitarra, contrabaixo, bateria, piano, percussões e coro. É um universo que mexe com a memória de Lopes, irmão de um trombonista e um crooner.

“Isso pesou, sim. E, também, minha grande admiração por orquestras como a Tabajara, de Severino Araújo.

O pagode não ter o mesmo reconhecimento de outras manifestações é, para ele, fruto de preconceito e de uma formação colonizada.

“Tudo o que vem se esclarecendo sobre o chamado racismo estrutural cabe na trajetória do samba. A música popular brasileira de consumo foi construída com base no ‘supremacismo’ europeu e, mais tarde, na música americana. Dentro desse contexto, o samba foi e continua sendo geralmente visto apenas como música de carnaval.”

Escritor, pensador, estudioso das culturas de origem africana, Lopes está lançando seu 42º livro: “Filosofias Africanas – Uma introdução”, em parceria com o historiador Luiz Antonio Simas. Para ele, “Pagode Black-tie” é mais uma prova de que não é um radical.

Nei Lopes, Projeto Coisa Fina e Guga Stroeter no Pagode Black Tie

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