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The New York Times

Shawn Mendes, o galã pop solitário e inseguro, lança disco inconsistente

Em 'Wonder', um álbum de pop-rock em geral insosso, o astro canta sobre a solidão do estrelato

Jon Caramanica
The New York Times

O assunto mais tradicional para as composições dos astros pop, desgastado mas ainda confiável, talvez continue a ser “como foi que cheguei aqui?”, seguido por “e será que vão me deixar ficar?”.

Uma fama gigantesca é uma coisa solitária e faz com que almas sensíveis ponderem se elas são de fato merecedoras de toda a atenção que recebem. E fama dessa ordem também causa distorção, e torna difícil que a pessoa afirme sua identidade quando a natureza pública de seu trabalho a define muito antes que ela mesma possa começar a se definir.

Da incerteza existencial que resulta disso, Shawn Mendes fez seu ninho. Sua busca —por ele mesmo, por amor, por aprovação, por confiança— se tornou o tema mais vívido de sua música. Isso já era válido no disco de 2018 que levava seu nome —seu terceiro álbum completo, que pulsava com dor teatral— e se aplica ainda mais ao novo disco, “Wonder”, um emaranhado de canções às vezes grudentas que falam sobre duvidar de si mesmo e de uma melancolia entremeada de apelos sofridos por amor.

Segundo Mendes, de 22 anos, um astro que não tem uma ideologia musical firme que vá além do pop-rock acelerado, compor um disco que deixa transparecer a ansiedade sobre a dinâmica fã-astro e o vazio que ela mascara se torna uma posição estética.

As letras são desoladas, um tantinho trágicas; elas tornam necessário um estilo de canto não muito efusivo. “Você tem um milhão de rostos diferentes/ mas eles jamais compreenderão”, ele canta no início da doce e melancólica “Intro”, a faixa de abertura do disco, que Mendes interpreta com pesar digno de uma velha música de fossa.

Depois vem a faixa-título, com muito mais balanço, a canção mais vigorosa do disco. Ele soa mais vivo quando está sofrendo agonias. “Se quero ser real/ digo minha verdade ou filtro o que sinto?”

Esse tipo de solidão ressurge ao longo do disco. “Call My Friends” trata do que acontece quando não existe espaço para um parceiro na subida para a fama, e “Song for No One” é como que uma fotocópia borrada das canções angustiadas em que Mendes baseou seu disco passado. “Estou completamente sozinho/ dez ligações perdidas, um par de SMS/ nenhum deles de quem estou procurando.”

“Wonder” é em geral um disco muito menos polido do que o trabalho anterior de Mendes, ou o anterior, “Illuminate”, de 2016, ainda seu melhor álbum, um pacote muito bem embalado de pop-rock adolescente.

(Ainda que ele continue a trabalhar com alguns dos mesmos colaboradores, como Kid Harpoon, Nate Mercereau e Scott Harris, uma ausência notável é a de Teddy Geiger, o compositor e produtor que dava peso e energia aos discos anteriores.)

Pode ser que Harry Styles consiga mais capas de revista glamorosas e memes de fãs sedentas, mas Mendes sempre foi um representante mais convincente dessa abordagem musical. O estilo de Styles sugere uma busca permanente por uma visão sônica distinta, enquanto Mendes, em seus melhores momentos, parece capaz de disparar uma sequência de hits quase automáticos.

No novo disco, porém, as letras perdem o rumo e nunca chegam a expressar sentimentos verdadeiros, e o canto parece menos coeso. Ele continua a saber como inflar sua voz, de um sussurro a um grito de angústia. Mas neste novo e inconsistente disco, o canto de Mendes raramente transmite sentimentos profundos.

As canções de amor tolinhas —“24 Hours”, que tilinta como uma música natalina, ou “305”, com sua levada de rock passadista— não são compatíveis com o clima do trabalho. A exceção talvez seja “Look Up at the Stars”, uma canção de amor ambivalente sobre o relacionamento entre o ídolo e aqueles que o tornam ídolo. “O universo é nosso/ e não vou decepcionar vocês”, Mendes canta tepidamente, como alguém que compreende que essa dinâmica está além de seu controle, e parece resignado com o fato.

O astro pop mais famoso dos últimos dez anos parece sobrecarregado pela ambivalência quanto ao sucesso. Estou falando de Justin Bieber, que canta com Mendes em “Monster”, uma canção queixosa na qual os dois cantores parecem estar discorrendo sobre as preferências de seus fãs. “Você me põe em um pedestal e me diz que sou o melhor”, canta Mendes sem uma gota de alegria.

Bieber, quatro anos e mais ou menos duas vidas inteiras mais velho que Mendes, há muito tempo se tornou um artista para quem o estrelato mesmo é sua razão de existir, com a música em um distante segundo (ou quinto, ou nono) lugar, pelo menos até o disco “Changes”, deste ano.

O refrão que ele canta é mais duro, mais direto. “Me erguendo, erguendo, e derrubando, derrubando.” Ele parece exasperado quanto a isso, como um irmão mais velho tentando explicar ao caçula o quanto o mundo pode ser cruel. Bieber compreende que chegou lá e agora está procurando a saída.

Wonder

  • Onde Nas plataformas digitais
  • Autor Shawn Mendes
  • Gravadora Island

Tradução de Paulo Migliacci

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