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'Somos a evolução das possibilidades', diz poeta queer em mesa da Flip

Danez Smith e Jota Mombaça lamentaram a morte das meninas Rebeca e Emilly, baleadas na porta de casa

São Paulo

"Nossos países nos canibalizaram. Não faz nenhum sentido. Quantos de nós temos que passar por isso?", perguntou Danez Smith na abertura da mesa 11 desta Flip, que aconteceu ao vivo na tarde deste domingo.

O trágico assassinato das duas garotas da Baixada Fluminense foi trazido ao debate pela mediadora Roberta Estrela D'Alva, ela também uma poeta, além de atriz, pesquisadora e MC.

A mesa era intitulada "Vocigrafias Insurgentes", e as palavras enigmáticas foram explicadas pela mediadora. "Vocigrafia é uma palavra que estou pesquisando, significa memória impressa pela voz. E insurgente se diz de quem desafia a normalidade".

computador na praia
Jota Mombaça (em destaque) em mesa com Danez Smith e mediação de Roberta Estrela D'Alva, que aconteceu neste domingo - Marlene Bergamo/Folhapress

Jota Mombaça, a outra convidada do debate, tem 29 anos e também é conhecida como Monstra Errátik e MC K-trina. Define-se como "bicha não-binária, gorda, racializada como parda, nascida e criada no Nordeste do Brasil". Originalmente de Natal, mora hoje em Portugal. Prefere ser tratada com pronomes, adjetivos e substantivos femininos.

"Existe um movimento de assassinato das vidas trans, pretas, indígenas, essas que são as nossas vidas. Diante de notícias como essa, confesso que tenho dificuldade de escrever, luto contra a insuficiência da palavra. Alguma coisa dentro de nós também morre quando mortes como essas acontecem", afirmou ela.

O poeta e performer negro americano Danez Smith também se classifica como não-binário, termo para quem não se identifica como masculino ou feminino. Usa "they" como pronome de tratamento, opção neutra em gênero em países de língua inglesa. Ele vive com HIV.

Tem três livros publicados em que aborda temas como raça, gênero e política. O primeiro, "[Insert] Boy", de 2014, não foi lançado no Brasil. O segundo, "Não Digam que Estamos Mortos", de 2017, lançado este ano pela editora Bazar do Tempo, ficou entre os finalistas do National Book Award e foi vencedor do Forward Prize —um trecho pode ser lido de graça no site da Flip.

Este ano apresentou uma nova coleção de poemas, "Homie", que também será lançada por aqui pela Bazar do Tempo. "A poesia para mim tem sido uma maneira de digerir os acontecimentos, me permite uma forma de transformação. Acho que todo mundo aciona suas ferramentas para tentar entender, e meu jeito é a poesia, é o que eu sei fazer, é a minha primeira reação ao que me provoca ira", afirmou Smith.

Mombaça ainda é artista visual, funkeira bissexta e principalmente ativista. Pode ser bem enfática em suas apresentações. Há várias de suas performances na internet. Além desta Flip, foi selecionada para a 34ª Bienal de São Paulo, adiada para o ano que vem por causa da pandemia. Também participou das Bienal de Berlim e da Bienal de Sydney.

Tem um livro pronto, "Não Vão nos Matar Agora", seleção de ensaios que muitas vezes foram adaptados em performances, já lançado em Portugal, prometido para 2021 no Brasil pela editora Cobogó. O prefácio pode ser baixado de graça até o fim da Flip nas principais livrarias virtuais.

Questionada a respeito da fluidez de gêneros com que se define, Jota se exaltou. "A expectativa com as audiências do meu trabalho está cada vez mais tensa. Como mudei para a Europa, vivo em meio a um contexto branco com herança colonial, e esperam sempre que eu seja especialista em racialidade e questões de gênero. O público prende a gente dentro desse debate", disse ela.

Mas insistiu que não pode fazer isso sozinha. "Temos que tramar juntas um modo de acabar com essa merda."

Smith aplaudiu a resposta e emendou "não acho que eu possa dizer nada melhor do que Jota disse". "Nós somos a evolução das possibilidades, e esse movimento permite uma liberdade maior, uma renegociação com os gêneros. Me dá mais possibilidades, para o corpo e para a alma. Algo assim", concluiu.

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