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Livros desmatamento

Ursula Le Guin narra uma tragédia ambiental interplanetária em livro

'Floresta É o Nome do Mundo' expõe os riscos do progresso baseado na devastação

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​Floresta É o Nome do Mundo

  • Preço R$ 49,90 (160 págs.); R$ 34,90 (ebook)
  • Autor Ursula Le Guin
  • Editora Morro Branco
  • Tradutora Reci Regina Caniani

Em uma realidade alternativa futurista, um grupo de humanos de diferentes planetas, entre eles a Terra, descobre Athshe, um mundo intocado de natureza exuberante, florestas densas e uma população de humanoides pequenos, verdes e peludos que cultiva uma relação simbiótica com a mata.

Após a retirada quase total dos recursos naturais de seus mundos de origem, os humanos enxergam em Athshe a oportunidade de exploração. Ignorando os nativos, estabelecem uma colônia com bases espalhadas pelo planeta para a retirada de madeira e minérios e escravizam os athsheanos para que realizem trabalhos forçados.

Assim começa a história contada por Ursula Le Guin em “Floresta É o Nome do Mundo”, novela originalmente publicada em 1972 que chega este mês ao Brasil em volume da editora Morro Branco.

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A escritora Ursula K. Le Guin - NYT

A obra, que anos mais tarde viria a influenciar o sucesso dos cinemas “Avatar”, de James Cameron, narra um embate entre os nativos e os invasores em uma guerra pelos recursos naturais do planeta explorado.

A floresta é tudo para os athsheanos; nas palavras de Le Guin, a substância de seu mundo não era a terra, mas a floresta. “O homem terrano [terráqueo] era barro, pó vermelho. O homem athsheano era ramo e raiz”.

A conexão com a mata estrutura toda a sociedade dos nativos e também permite o sonho de um modo diferente do conhecido pelos humanos. O sonho athsheano acontece em um estado de semiconsciência, pode ser moldado por quem devaneia e também pode moldar a realidade.

Para esse povo, os humanos perderam a capacidade de sonhar dessa forma e isso os torna incompletos e os leva abusar de drogas para reencontrar essa sensação.

Inicialmente subjugados pelas armas dos invasores, os athsheanos aceitam a condição de dominados. Mas os excessos praticados pelos humanos, com violência física e sexual e humilhações de todo tipo, faz com que um nativo, Selver, se revolte e lidere seu povo em uma tentativa de evitar a destruição da floresta que é seu mundo.

O impulso para a destruição disfarçada de conquista para o progresso da humanidade está na representação do machão (não do macho), do tipo que não tolera ser contrariado e que se afasta sentimentos nobres e até cristãos, como compaixão e humildade.

Essa figura é o capitão Davidson, um militar machista, que trata mulheres como objetos para seu prazer e afirmação enquanto homem e que busca uma revanche contra os nativos desde a chegada ao planeta explorado, apenas por existirem de uma maneira diferente da sua.

No livro, Le Guin questiona o otimismo com relação aos avanços científicos e tecnológicos. Eles trazem inúmeras possibilidades para melhorar o mundo, mas também causam devastação. No caso de Athshe, o encontro com humanos bem equipados com armas e naves espaciais trouxe a destruição e abalou uma sociedade que teve que, dolorosamente, acomodar novos conceitos como assassinato, escravidão, exploração e inimizade.

Assim como uma mata virgem que conhece o desmatamento nunca mais volta a seu estado inicial, Athshe entra em um processo irreversível para se tornar um planeta bem diferente do que havia sido encontrado pelos humanos.

Em 1973, “Floresta” foi reconhecida como melhor novela do ano no prêmio Hugo, um dos mais importantes da literatura de ficção científica. A obra foi ainda finalista do Locus e indicada ao Nebula, premiações de destaque na área.

A publicação engrossa o número de obras da autora disponíveis em português para os brasileiros.

Geralmente, leitores de ficção científica no país têm intimidade com obras de autores clássicos do gênero como Arthur C. Clarke, Philip Dick e Isaac Asimov, mas mulheres que foram essenciais para a construção do gênero, como Le Guin e Octavia E. Butler são frequentemente esquecidas.

“Floresta É o Nome do Mundo” faz parte de um conjunto de romances, novelas e contos que ficou conhecido como ciclo hainiano (ou hainish). As histórias mostram realidades alternativas futuristas nas quais os humanos habitam outros planetas além da Terra e constroem relações diplomáticas e conflituosas entre esses mundos.

Outros livros do ciclo publicados no Brasil são “A Mão Esquerda da Escuridão”, de 1969, e “Despossuídos”, de 1974, ambos pela editora Aleph.

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