Viver a cultura em 2021 terá sensação de 'déjà-vu', pelo menos até vacinação ampla

Medo do coronavírus ainda deixa plateias vazias e faz subir procura por diversão em casa

São Paulo

No início de 2020, ninguém poderia imaginar que terminaria o ano isolado de familiares e amigos, assistindo a um grande lançamento do cinema no streaming ou jogando Playstation 3 enquanto come o sanduíche de um chef estrelado preparado numa “dark kitchen”, os restaurantes que só existem nos aplicativos.

Agradeça ao coronavírus por este fim de ano, e se prepare. Esta deve ser a sua realidade, e a de milhões de pessoas, pelos próximos meses. A Covid-19 forçou uma mudança na maneira como a cultura e o entretenimento são produzidos, distribuídos e consumidos. Essas novidades vieram para ficar, pelo menos até que a maioria de nós esteja vacinada e sem medo de frequentar plateias —e restaurantes.

Primeira apresentação do Coral Lírico de São Paulo e da Orquestra Sinfônica Municipal no Theatro Municipal - Eduardo Knapp -20.dez.2020/Folhapress

Com muita gente em casa, a busca por videogames antigos cresceu 15% entre fevereiro e setembro, de acordo com dados do site de revenda de usados OLX. Xbox 360 e as versões dois e três do Playstation, todos da década passada, estão no top cinco dos consoles mais procurados pelos brasileiros. Ou seja, só alguns poucos endinheirados vão ter acesso às novas versões desses aparelhos, que prometem ser sucesso em 2021, devido ao alto preço no Brasil —a partir de R$ 4.000— e à dificuldade de se reservar um em loja.

Se para os gamemaníacos a tela ficou preta, para os cinéfilos é só alta definição. O fechamento das salas de cinema fez com que muitos filmes passassem a estrear direto no streaming —com uma mensalidade que custa menos do que um ingresso de cinema—, criando uma tendência irreversível. A Warner, uma das principais produtoras do mundo, anunciou que, nos Estados Unidos, todos os seus longas de 2021 serão lançados na plataforma HBO Max ao mesmo tempo em que chegam à tela grande. Até o Oscar vai aceitar filmes lançados primeiramente no streaming.

Facilidade de acesso aos lançamentos terão também os leitores, que se acostumaram ao contato virtual com livrarias e editoras. Foi no mundo online que as vendas se seguraram durante a pandemia —as casas investiram nos seus próprios sites e na venda por WhatsApp, e os clubes de assinatura de livros ficaram mais populares, a exemplo do recém-surgido da editora Todavia. Por outro lado, 2021 verá um esforço do mercado em reativar as livrarias físicas, que, embora sejam a principal vitrine para os novos títulos, ainda amargam público escasso.

As prateleiras terão ampla seleção de livros de autores negros, num esforço para ampliar o leitorado de títulos antirracistas. Essa foi uma das grandes apostas do mercado editorial em 2020, na esteira do movimento decolonial que tomou conta de outras áreas da cultura, como a música, as artes visuais e a moda. Um dos lançamentos mais esperados de 2021 é a nova edição da obra da poeta Carolina Maria de Jesus pela Companhia das Letras —a autora será ainda tema de uma exposição no Instituto Moreira Salles paulistano.

Artistas negros devem passar a ocupar também os quadros das gravadoras, uma das promessas da indústria da música em 2020. Partiu dela a iniciativa de incentivar o público a postar um quadrado negro no Instagram em apoio ao movimento Black Lives Matter, e a cobrança virá. Os sons mais ouvidos também tendem a se afastar da branquitude, a julgar pelo sucesso recente do hip-hop do nigeriano Burna Boy e do porto-riquenho Bad Bunny, o artista mais ouvido de 2020 no Spotify. Nesse sentido, “world music” é o novo pop.

Essa música será consumida em lives superproduzidas, atraindo milhões de espectadores pagantes num movimento que decreta o fim do modelo de sofá e violão na sala de casa, popular no início da quarentena. Espere também acessar mais o Twitch, que se tornou casa para DJs e conteúdo relacionado à música —a exemplo de Marcelo D2, que gravou um disco inteiro ao vivo na plataforma —e o TikTok. Com os desafios de dança, a rede chinesa de vídeos curtos se firmou como app de difusão de músicas, novas ou velhas, com alcance global.

As lives também devem ser incorporadas pelas artes cênicas, sobretudo aquelas transmitidas ao vivo dos próprios palcos, movimento que se intensificou no segundo semestre de 2020, a exemplo do espetáculo “Histórias de Confinamento”, do Grupo Galpão. Algumas companhias testaram um modelo híbrido de plateia limitada no teatro e transmissão ao vivo, e pode ser que isso se torne mais frequente. Mas a crise do setor chegará a 2021, já que os teatros independentes que reabriram tiveram público reduzido e outros tantos fecharam as portas.

Se a plateia do teatro está vazia mesmo com distanciamento, as pessoas vão retornar aos corredores lotados das feiras de arte? A SP-Arte, uma das maiores do hemisfério sul, anuncia sua edição presencial para abril, em São Paulo, mas a incerteza da chegada da vacina a pode fazer adotar o modelo híbrido, parte offline e parte online. Em 2020, com as salas de exposição virtuais, os colecionadores passaram a ver as obras, já com o preço, na tela do computador antes de fechar o negócio na própria sede da galeria.

Questões que ficaram mais urgentes com o coronavírus, como o colonialismo, o poder do discurso e da circulação de imagens e a ascensão do autoritarismo devem aparecer em exposições que, de maneira voluntária ou não, dialogam com a pandemia, a exemplo da 34ª Bienal de São Paulo, que espalhará sua programação em diversas instituições culturais paulistanas ao longo do ano, culminando com a grande mostra entre setembro e dezembro.

Até lá, devemos estar todos vacinados. Contudo, se este não for caso, o pavilhão no parque Ibirapuera que abriga a exposição principal é grande o suficiente para que ninguém se aglomere.

O que mais esperar em 2021?

  • Velhos amigos: Em profunda crise, a Cinemateca Brasileira passou a ser controlada diretamente pelo Ministério do Turismo; no primeiro trimestre de 2021, quem deve assumir temporariamente o espaço é a Sociedade Amigos da Cinemateca
  • A favorita: O edital que escolheria a nova entidade gestora do Theatro Municipal de São Paulo foi suspenso pelo Tribunal de Contas do Município, e a então administradora teve seu contrato suspenso pela prefeitura; sem chamamento público, acabou assumindo temporariamente a gestão o Santa Marcelina Cultura, que desde quando o edital foi publicado era vista como favorita para o certame e deve acabar assumindo o posto em definitivo em 2021
  • Saudades, novela: O brasileiro noveleiro vai poder respirar aliviado com a provável volta de todos os novos folhetins da Globo e de outras emissoras à grade de programação televisiva, já nos primeiros meses do ano

  • Música é coletiva: Shows com cercadinhos já são uma realidade, mas a volta da experiência coletiva de ouvir música é um anseio tanto de público quanto de artistas, e vai depender de fatores externos; pelo menos os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro estão marcados para julho

  • Superlotação de streamings: Os brasileiros podem esperar duas grandes novas concorrentes chegando ao país —a Star+, equivalente da Hulu na América Latina, e a HBO Max, da WarnerMedia, que vai substituir a HBO Go

  • Sanduíche de grife: Eis um nicho consolidado que deve se tornar ainda mais forte com a maior demanda do delivery: sanduíches e comidinhas triviais, até as com assinatura de chef, têm preço amigável e viajam bem —a equação perfeita para a insegurança sanitária e econômica

Clara Balbi, Eduardo Moura, João Perassolo, Marina Consiglio, Marina Lourenço, Laura Lewer, Leonardo Sanchez, Lucas Brêda, Walter Porto

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