Alguém tem chance de derrotar Chadwick Boseman na disputa pelo Oscar?

Morto no ano passado, astro de 'Pantera Negra' deve ser lembrado pela Academia por 'A Voz Suprema do Blues'

Kyle Buchanan
The New York Times

As disputas pelo Oscar deste ano serão tanto mais demoradas quanto mais difíceis de prever do que costumam. Em meio à pandemia continuada, a cerimônia foi adiada para o dia 28 de abril –filmes lançados até 28 de fevereiro poderão participar da disputa–, e o circuito habitual de festas e famosos praticamente desapareceu, deixando em sua esteira uma coleção de links anódinos.

Mas existe pelo menos uma categoria importante de premiação sobre a qual me sinto confortável em sagrar um favorito. Na disputa pelo prêmio de melhor ator, que poderia ter muito candidatos, Chadwick Boseman está em vantagem por seu trabalho excepcional em “A Voz Suprema do Blues”.

Diante de uma oportunidade primorosa como essa para premiar um superastro desaparecido, os votantes do Oscar certamente não deixarão de aproveitar a ocasião.

Mas não antecipe que a lista de cinco finalistas seja formada simplesmente por Boseman e quatro azarões. Este ano, a categoria pode ser memorável, porque os rostos já conhecidos no Oscar são superados de longe por muitos atores em ascensão que buscam conquistar sua primeira indicação.

Quais desses nomes são os mais prováveis indicados? Abaixo, minhas projeções.

Riz Ahmed, 'O Som do Silêncio'

Riz Ahmed já fez trabalhos sensíveis como coadjuvante em filmes como “O Abutre” e “The Sisters Brothers”, mas seu papel principal em “O Som do Silêncio” é um passo além. Como baterista que enfrenta problemas de vício em drogas e não consegue aceitar sua perda repentina de audição, Ahmed simplesmente destrói.

Uma recente vitória no prêmio Gotham, contra Boseman, sugere que ele tenha o necessário para conseguir sua primeira indicação. Vamos esperar que os votantes se lembrem de incluir seu maravilhoso companheiro de elenco Paul Raci, cujo desempenho comove como o do líder do grupo que ajuda na recuperação do personagem de Ahmed.

Kingsley Ben-Adir, 'Uma Noite em Miami'

Embora este filme sobre a era dos direitos civis, disponível na Amazon, dê peso igual aos quatro membros do elenco principal, a decisão do serviço de streaming foi pôr Kingsley Ben-Adir, que vive Malcolm X, e Eli Goree, intérprete de Muhammad Ali, na disputa pelo prêmio de melhor ator e posicionar Leslie Odom Jr., que faz o papel de Sam Cooke, e Aldis Hodge, intérprete de Jim Brown, na categoria coadjuvantes. É uma estratégia arriscada, mas Ben-Adir parece merecer destaque como ator principal. O britânico oferece um retrato intimista de Malcolm X e consegue fazer com que o ícone pareça muito humano.

Chadwick Boseman, 'A Voz Suprema do Blues'

A morte de Chadwick Boseman criou um senso de urgência quanto a celebrar o ator, mas seu trabalho na adaptação da peça de August Wilson teria valido uma indicação ao Oscar de qualquer maneira. Ele está simplesmente tremendo no papel de um sujeito falastrão e atirado, muito distante de seu estoicismo em “Pantera Negra”.

Vitórias póstumas no Oscar são raras, mas Boseman faz lembrar Heath Ledger em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, oferecendo uma de suas mais brilhantes interpretações no final de uma carreira lamentavelmente curta demais.

Sacha Baron Cohen, 'Borat: Fita de Cinema Seguinte'
Borat sempre teve a manha de chegar como penetra a festas, e Sacha Baron Cohen não pode ser esquecido, especialmente porque o primeiro filme de Borat rendeu a ele um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar por melhor roteiro adaptado.

As duas coisas podem se repetir agora, embora o impulso de indicar Baron Cohen para o Oscar de melhor ator possa ser esvaziado por sua indicação, muito mais provável, ao Oscar de melhor ator coadjuvante, pelo papel de Abbie Hoffman em "Os 7 de Chicago”.

Tom Hanks, 'Relatos do Mundo'

Uma indicação como ator coadjuvante por “Um Lindo Dia na Vizinhança”, no ano passado, pôs fim a quase duas décadas de seca para Tom Hanks, cujos trabalhos mais recentes não parecem atrair muita atenção. Se os votantes optarem por privilegiar os nomes famosos neste ano, Hanks terá chances, mas seu papel como um veterano da guerra civil americana em “Relatos do Mundo” é muito contido e não se destacará em meio a tantos concorrentes vistosos.

Anthony Hopkins, 'The Father'

As coisas teriam de ir muito mal para que Anthony Hopkins não seja indicado. No papel de um patriarca que começa a perder seu lugar no mundo por causa da demência senil, Hopkins apresenta um desempenho que coroa a porção final de sua carreira –o filme sai em 26 de fevereiro. Papéis bons assim não aparecem com frequência para atores de 83 anos, e em quase qualquer outro ano esse trabalho deveria valer a Hopkins seu segundo Oscar. Mas será que os votantes negligenciarão sua única oportunidade de premiar Chadwick Boseman?

Delroy Lindo, 'Destacamento Blood'

Delroy Lindo, de 68 anos, faz um trabalho maravilhoso como um veterano da Guerra do Vietnã, no novo filme de Spike Lee. O ator jamais foi indicado e se beneficiou de um empurrão forte dos críticos, sendo selecionado como melhor ator pelo New York Film Critics Circle e pela National Society of Film Critics. Porque ele é o único candidato na lista a ser parte de um filme que saiu na metade do ano passado, os elogios da crítica o vão ajudar a manter a atenção dos votantes durante uma temporada do Oscar que ainda vai se arrastar por mais alguns meses.

Gary Oldman, 'Mank'

Será que “Mank” vai se tornar o “Era uma Vez...em Hollywood” desta temporada, um filme de época caro sobre a indústria cinematográfica que conquista muitas indicações mas encontra problemas para as converter em prêmios?

Gary Oldman, um veterano no Oscar, fez uma interpretação sutil, do tipo que em geral seduz os votantes. Cada uma de suas falas, numa voz que range como uma porta de tela, está repleta de grandes escolhas. Mas os votantes com quem conversei mais respeitam do que amam o filme.

Lakeith Stanfield, 'Judas e o Messias Negro'

Este drama sobre o assassinato do líder do partido Pantera Negra, Fred Hampton, vai mudar a corrida pelo Oscar de melhor ator coadjuvante, porque o desempenho de Daniel Kaluuya como Hampton poderia até merecer indicação ao prêmio de ator principal –o filme sai no dia 12 de fevereiro.

O que isso significa para Lakeith Stanfield, o verdadeiro ator principal do filme, que interpreta um informante dúplice do FBI que se infiltra no círculo mais próximo de Hampton? Se o filme funcionar, o talentoso ator pode conquistar uma indicação; embora as motivações de seu personagem sejam confusas, Stanfield se sai muito bem em cena após cena.

John David Washington, 'Malcolm & Marie'

Depois de ficar a um passo de uma indicação ao Oscar por “Infiltrado na Klan”, Washington pode se sair melhor com seu desempenho feroz em “Malcolm & Marie”, que estreia em 5 de fevereiro, um trabalho filmado na quarentena no qual ele interpreta um cineasta chapado e irritante que reclama com a namorada, papel de Zendaya, por uma hora e 45 minutos. É certamente a interpretação mais vistosa e falastrona da lista, ainda que os votantes talvez simpatizem mais com Zendaya, o alvo de suas arengas.

Steven Yeun, 'Minari'

Steven Yeun merecia ter sido indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por seu desempenho astuto no filme “Em Chamas”, de 2018, mas os votantes logo o poderão compensar. No aclamado “Minari”, que sai dia 12 de fevereiro, Yeun interpreta um pai imigrante que se muda com a família para uma fazenda no Arkansas, e você sente seu orgulho e frustração mesmo nas cenas que transcorrem com pouco diálogo.

Mas, em um grupo de atores com monólogos eloquentes, um ator como Yeun teria chance? Nem mesmo o Gotham, um prêmio que privilegia o cinema independente, o indicou, e a concorrência será ainda mais séria no Oscar.

Tradução de Paulo Migliacci

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