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Cinema

Centenário, 'O Garoto' prova que Carlitos é estrela de Chaplin

É em função do personagem, misto de gentleman e vagabundo, que a câmera e tudo mais se move

Completando cem anos agora, “O Garoto”, primeiro longa-metragem de Charles Chaplin, deixa claro que no cinema desse diretor o que vem primeiro é o personagem —Carlitos. O tipo mais marcante da história do cinema, com seu corpo coberto de paradoxos. Já nos trajes convivem o gentleman e o vagabundo, o nobre e o pária, reverberando em seu comportamento como se ali se concentrassem os equívocos todos da humanidade.

A tais e tantos equívocos Carlitos responde com um altivo —e não raro sarcástico— espírito de resistência e algum sentimentalismo. Permanece indiferente ao juízo da sociedade. É vagabundo e orgulhoso.

O certo é que tudo está em seu corpo, o que explica por que Chaplin passou momentos de tanta angústia quando começou a primeira exibição pública de “O Garoto”. Eram as cenas iniciais. Solenes, como ele mesmo definiu. Frouxas, digo eu.

Cena de 'O Garoto', de Charles Chaplin
Cena do filme mudo 'O Garoto', de Charlie Chaplin - Reprodução

Uma jovem mãe, sem dinheiro ou opções, deixa o seu bebê no interior de um automóvel. O carro é roubado por um par de malfeitores. Ao se depararem com a criança que chora no banco de trás, a tiram de lá e a põem ao lado de uma lata de lixo.

Toda essa parte expositiva sugeria um melodrama –o gênero era ainda mais central no cinema há cem anos do que é hoje. E onde estava Carlitos nisso tudo? Estava nos bastidores, suando frio, esperando pela reação da plateia. Logo, porém, ele surge. E basta o seu andar para suscitar os primeiros risos.

Carlitos apanha o bebê e o leva à sua pobre casa. Não sabe o que fazer com uma criança que chora. Improvisa, transforma um bule em mamadeira. Corta o assento de uma cadeira, fazendo um círculo onde possa sentar a criança para que ela faça suas necessidades.

A plateia veio abaixo. Ali estava Carlitos. Estaria ao longo do filme. Desafiando a lei e a ordem com altivez para guardar o menino das garras do poder "bem-intencionado”, sempre disposto a fechar a criança num orfanato ou pior.

Até esse momento, o espectador já está ao par das outras virtudes de Carlitos —o corpo tão ágil quanto o espírito, a combatividade, mas também certa alegria de existir, mesmo quando o mundo inteiro é adverso a ele.

Do começo ao fim, Chaplin se manterá fiel ao seu personagem. É sempre ele o centro das atenções da câmera, é em função dele que tudo mais existe e se move. O que é certo, porque o humor vem todo dele. É o inverso de um Buster Keaton, que dava vida a todos os elementos ao seu redor e só então inseria o seu tipo —ele existia então em função do mundo ao redor. Chaplin faz o mundo existir em função dele.

Ou quase todo o mundo, porque agora estamos em um longa e, afinal, existe uma mãe na história. Ela ressurgirá, claro, agora transformada em grande –e rica– estrela do teatro.

Entramos na segunda parte da história, onde Chaplin mistura habilmente o melodrama (é sempre no final que devemos nos comover, não no começo —lei do gênero), sem evitar o que hoje podemos ver como seu ponto fraco, o sentimentalismo à comédia.

E entramos também na história pessoal de Chaplin, cujo filho do casamento com Mildred Harris morreu três dias após o nascimento, segundo alguns. O comediante sentia o casamento como equívoco que deu lugar a um uma crise criativa sem precedentes na sua vida.

Um dia, para desanuviar, foi a um espetáculo de “music hall” em que topou com um menino de quatro anos que o encantou pelo talento e beleza. Era Jackie Coogan, que quase de imediato inspirou nele a ideia central do filme, a da criança que o vagabundo adota relutantemente no início, mas que amará com intensidade a seguir.

Jackie Coogan tinha a vantagem adicional de ser filho do ator Jack Coogan, amigo de Chaplin que esteve livre na maior parte do tempo das filmagens, podendo dessa maneira assessorar o filho nos momentos em que ele empacava (nas cenas mais simples, segundo o diretor). De passagem, Coogan, o pai, fez uma ponta como o batedor de carteira, na cena em que Carlitos e o menino dormem em um albergue.

Talvez não se deva esquecer também da mãe, Edna Purviance. Parceira de Chaplin em mais de 30 filmes, o caso amoroso entre eles havia terminado há anos. De certa forma, Mildred Harris entrou na história para curar as dores de amor do cineasta. Mas Purviance e Chaplin continuaram parceiros na tela por um bom tempo.

Momento especial para Chaplin, o lançamento de “O Garoto”, em 16 de janeiro de 1921. Para chegar ali suou bastante. Foram nove meses de filmagem e uma montanha de negativo gasto, na proporção de 53 rolos usados para cada um usado na montagem. No meio, o divórcio.

Já então ungido como o único gênio a praticar essa arte ínfima, o cinema, Chaplin comprovou no longa a genialidade que já tinha demonstrado nos filmes de um ou dois rolos. Talvez hoje ninguém mais acredite, como no passado, que Charlie Chaplin era o único gênio de uma arte ínfima, o cinema. Mas de seu gênio ninguém, até hoje, pode duvidar.

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