Descrição de chapéu

Espanto com escultura de vagina gigante tem 50 tons de misoginia

Artista Juliana Notari sofreu ataques que mostram o quanto estamos dispostos a permanecer falocratas

Bruno Albertim

Pernambucano, é jornalista e membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA)

Há mais de cem anos, Gustave Courbet quase foi emparedado depois que expôs num dos salões de Paris sua "A Origem do Mundo".

Em vez das pinceladas dramáticas dos românticos, tintas objetivas e de um realismo direto e ginecológico para nos exibir, quase saltando da tela, uma vagina. Uma carnuda vagina. Uma quase não-metáfora. É por uma vagina que o mundo começa.

Funcionários de museu na França instalam tela 'A Origem do Mundo', de Gustave Courbet, de 1866 - AFP

Um século depois, Juliana Notari escava, por um ano, uma superlativa vulva de 33 metros e mais de seis de profundidade na montanha de uma antiga usina de açúcar na zona da mata de Pernambuco. Land art, catalogamos assim as obras construídas direta e em interação com a natureza. Uma land art sobre as terras em cópula forçada, historicamente, com o açúcar. Sempre ele, o macho e branco açúcar.

“Diva” é mais uma das obras que fazem do projeto Usina de Arte uma realidade, um projeto que acumula aplausos e êxitos ao converter em instituto de arte a terra de uma usina falida. Um museu a céu aberto que, comparação inevitável, vai se tornando um Inhotim pernambucano, ou um forte esboço disso.

A vulva, além de fecundidade e nascimento, pretende Notari, é também a ferida desta terra.

Se "Diva" contou com mão de obra de homens de rostos mais sulcados que aquela terra, de rostos quase todos pretos, tão pretos que só deixam a brancura da artista ainda mais branca, há outras contradições entre aquelas fendas por onde, nos avisou Joaquim Nabuco, a escravidão vai decantar muito além da rapadura, até deixar de ser uma das características da doçura nacional.

"Diva" é erguida também no massapê onde o patriarcado civilizou, e sifilizou, diria Gilberto Freyre.

Desde que expôs a foto da obra concluída, Notari teve quase 10 mil compartilhamentos —e dezenas de milhares de ataques com mais de 50 tons de misoginia, sexismo e da violência verbal que, bem mais que a vulva da artista, vão virando paisagem no Brasil. Nossa land (porque somos território) art (por que somos linguagem) verbal e cotidiana.

Beberrão, fanfarrão e boêmio, Courbet foi acusado de degradado e degradante.

Cordata, branca, abstêmia, filha de uma certa elite intelectual pernambucana, de trânsito e prêmios em âmbitos nacionais e internacionais, Juliana Notari é acusada de degradada e degradante.

Não terá sido a primeira vez que sujou sua arte com sangue fêmeo para tensionar perversidades históricas de gênero. Mas é a primeira vez em que ela ousa transformar isso em paisagem. Não se mexe com a paisagem.

A relativos poucos quilômetros dali, enquanto dezenas de peças e um parque de esculturas, mais pesadas que aquela vulva da artista já foram roubadas sem provocar gritarias, o Recife vive em também relativa harmonia com a "Torre de Cristal" projetada por Francisco Brennand para marcar a passagem nos anos 2000.

Consagrada como "Pirocão de Brennand" pela língua ardida do povo nas ruas quentes do centro, a obra, o próprio jamais negaria, se ergue como um falo. Não haverá Brennand, sabemos, sem Eros.

Sim, houve a primeira-dama incomodada em enxergar o óbvio latejante que pouca gente vira. Houve o prefeito armado invadindo um jornal, o colunista acuado. Mas não consta ter havido alguns milhares de dezenas de vozes loucas para ver Roma arder em chamas. Ríamos nos bares sobre a comoção oficial em torno daquele falo tão simbólico e concreto.

De qualquer forma, a vulva de Juliana Notari ainda nos diz o quanto estamos dispostos a permanecer falocratas. Ou sobre como nosso café segue sendo adoçado com o mesmo, macho e branco, açúcar.

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