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'Férias na Disney' investiga as entranhas da classe média que pôs Bolsonaro no poder

Segundo livro de poemas de Bruno Molinero retrata do calibre 38 guardado na gaveta à 'esquerda cirandeira'

São Paulo

“Odiei o Mickey/ papai// as orelhas são/ muito grandes// dói quando passa/ a cabecinha.”

O poema que dá o nome ao livro “Férias na Disney”, sucinto, cru e desconcertante, dá uma boa ideia do que o leitor encontrará no resto da obra. O autor Bruno Molinero tinha um recorte claro —retratar a classe média brasileira, aquela “que define o país desde sempre”.

“É uma classe determinante em todas as mudanças políticas, sociais e econômicas da história. E de alguma maneira os códigos sempre se repetem, os temores, desejos, vontades são meio comuns”, afirma o autor.

O jornalista Bruno Molinero na sede da Folha de S.Paulo, no centro paulistano - Otavio Valle/Folhapress

Por isso, nestes poemas tão embebidos de prosa, é possível perceber traços de Rubem Fonseca, ainda que as ambientações agora sejam em shopping centers e clubes de balé fitness.

Entendida menos como um conceito econômico que como um estado de espírito, a classe média segue até hoje ditando os rumos do Brasil, como se nota com clareza em outro texto.

“Mas nunca nunca podia pensar/ que essa molecada tão jovem/ faria uma barbaridade dessas/ jesus/ tão menininhos tão menininhos/ meus sentimentos à família/ lamento/ mas e daí?”

A inspiração para esses versos finais é inconfundível. “O Bolsonaro é a ascensão dessa lógica de certa classe média ao poder”, diz o escritor.

A simbologia da arma, do medo do outro, o calibre 38 guardado na gaveta habitam vários dos poemas. Molinero conta ter se preocupado, contudo, em não produzir um livro militante, um tipo de arte em que diz não acreditar.

“Não estou dizendo que não deva existir, mas não me interessa como autor e como leitor. A arte militante tem uma chave de leitura só, deve ser lida daquela maneira para chegar ao significado que o autor quer. Eu queria que existisse no meu livro uma chave mais ampla de leituras.”

É também por isso que o olhar de Molinero se volta em determinado momento, sarcástico, a uma investigação da “esquerda cirandeira” que ministra “vivências de poesia astrológica hindu em galerias de São Paulo”.

“Retrato da revolta do parque/ como foi chamada aquela/ tarde por toda a imprensa/ boquiaberta/ ao saber que ela estava lá/ naquele instante decisivo/ filmando o caos de dentro/ do café fechado/ na hora exata da pancadaria/ cenas montadas de forma/ não linear e legendadas/ em inglês de gênero neutrx/ e título bossa brasileiríssimo [...] Puta filme/ um soco na cara.”

“A galera da Vila Madalena também está nesse meio”, diz o autor. “Esse pessoal que escreve poesia, lança livro, trabalha em jornal é a classe média também, e era claro para mim que devia estar contemplado ali.”

Como Molinero está no meio desse pessoal —hoje é editor do Guia Folha neste jornal, onde trabalha desde 2010— , ele reluta em se chamar de escritor ou poeta, mesmo que já seja seu segundo livro na praça, depois de “Alarido”, de cinco anos atrás.

“Suponha que além de trabalhar em jornal eu goste de fazer cadeiras. Por mais que no meu tempo livre eu estude isso, faça cadeiras e as pessoas até elogiem as minhas cadeiras, a pergunta é se isso me faz um marceneiro. Eu acho que não. Poeta é o Manuel Bandeira.”

Nascem da experiência como repórter, aliás, as cenas e diálogos saborosos que constrói em seus poemas prosaicos. Por exemplo, em “Gatilho”, no qual um homem prestes a se suicidar resolve suas pendências.

“Até que saiu no horário/ com o botão da camisa/ fechado na última casa/ cumpriu compromissos/ de fiador do cunhado/ lembrando-se de pegar/ carteirinha do convênio/ cédula de identidade/ cpf pis cofins/ cartão fidelidade/ chave da porta de trás.” E rodriguianamente, antes de morrer, “enfiou pela primeira vez/ o dedo no próprio/ cu”.

Do texto jornalístico Molinero também tira a habilidade de ir direto ao ponto, como no poema “Escuta”, reproduzido na íntegra abaixo.

“Na próxima/ você usa/ o de serviço/ ?”

Esse trato mais experimental de personagens cotidianos, impensável no dia a dia jornalístico, é algo que puxa Molinero para a poesia. E facilita que, para escrever versos, ele não precise da dedicação intensa necessária a um romance de fôlego.

“O meu tempo, além de ser pequeno, é caótico. Invejo escritores que dizem, acordo às seis, faço minha ioga e aí escrevo”. Rotina, afinal, é coisa de classe média.

Férias na Disney

  • Preço R$ 40 (88 págs.)
  • Autor Bruno Molinero
  • Editora Patuá
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