Descrição de chapéu Livros

Livraria Francesa, casa dos intelectuais paulistanos, se muda do centro após 73 anos

Diretora afirma que ida para zona sul teve como principal causa a deterioração da região central

São Paulo

Os leitores do centro de São Paulo tinham, desde a metade do século, um endereço cativo onde encontrar obras vindas da França, fossem raridades garimpadas de autores antigos ou as novidades que estão mexendo com Paris. Não mais.

Quer dizer, agora, para chegar à tradicional Livraria Francesa, eles terão que rumar até a zona sul, para onde a sede desta que é uma das lojas-símbolo da intelectualidade paulistana se mudou em definitivo no último mês de novembro.

A livraria fundada pelo engenheiro Paul Monteil ocupava há 73 anos o mesmo local na rua Barão de Itapetininga, às margens da praça da República, mas trocou aquelas calçadas pelo número 1.697 da avenida Indianópolis, que ronda o aeroporto de Congonhas.

Neta do fundador e hoje responsável pela loja, Silvia Monteil afirma que o processo de deterioração do centro da cidade atingiu um novo auge durante a pandemia e catalisou uma mudança aventada já há algum tempo.

"Muitos clientes não estavam mais dispostos a vir até a livraria, ligavam e diziam 'no centro eu não vou mais'", conta. "Sempre existiu um movimento de recuperar a região e nunca ninguém recuperou."

A livreira diz que a mudança foi pensada para satisfazer esses clientes —os mais fiéis nunca deixaram de manter uma ligação afetiva com a livraria, mesmo enclausurados em casa pelo vírus. Mas o novo local também paga um aluguel bem menor, o que convém num momento como este.

A situação ficou ainda mais crítica porque a Francesa estava com seu site fora do ar desde janeiro passado, quando a empresa que o hospedava faliu.

Assim, o baque com o fechamento das portas, na virada de março para abril, foi violento. As vendas caíram 90%, segurando as pontas no contato por telefone e por redes sociais.

A loja conseguiu, ao fim, se manter de pé e organizar uma mudança trabalhosa, que levou até as prateleiras para o novo endereço —de área um pouco menor, mas beneficiado por vagas de garagem impossíveis nas ruelas da República, adaptadas a pedestres.

Por outro lado, precisou fechar suas filiais dentro da Aliança Francesa no Rio de Janeiro e em Brasília, como aconteceu com tantas livrarias independentes.

Hoje, Monteil vê uma situação mais luminosa, que acompanha os números estimulantes do faturamento das editoras como um todo. "Tenho sentido o mercado bem receptivo, havia uma demanda reprimida."

O que ainda falta é regularizar as importações de livros, impedidas durante a pandemia e fundamentais para manter os laços da loja com o país que a nomeou —tão arraigados que motivaram até visitas célebres de Jean-Paul Sartre e Michel Foucault.

Agora, quem for visitar a livraria não vai mais pisar no mesmo chão que aqueles dois. Mas, se tudo der certo, ainda vai respirar o mesmo ar.

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