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Martin Scorsese e Fran Lebowitz celebram uma Nova York que não existe mais

Na série 'Faz de Conta que NY É uma Cidade', o diretor registra os passeios e comentários sarcásticos da humorista

Dave Itzkoff
Nova York | The New York Times

Se a véspera de Ano-Novo mais recente tivesse sido normal, Fran Lebowitz e Martin Scorsese a teriam passado como fazem normalmente –na companhia um do outro e de alguns amigos próximos, na sala de exibição do escritório de Scorsese, assistindo a um filme clássico como “Um Corpo que Cai” ou “Neste Mundo e no Outro”.

No ano em que eles se reuniram para assistir a “Barry Lyndon”, viram uma cópia rara e de alta qualidade feita com base no negativo original das câmeras do diretor Stanley Kubrick.

“E eu perguntei o que era um negativo de câmera”, lembrou Lebowitz numa conversa de vídeo que também incluía Scorsese. “E aí todos aqueles lunáticos cinematográficos ficaram me olhando feio, como se eu fosse analfabeta.”

Em anos anteriores, quando estavam se sentindo especialmente animados, acrescentou Scorsese, com melancolia perceptível, “nós víamos um filme antes e outro depois da meia-noite”.

Mas desta vez seu costume anual teve de ser suspenso. Em lugar disso, disse Lebowitz, “conversei com Marty no telefone, nós resmungamos sobre nos sentirmos horríveis e sobre como era péssimo não fazer o que costumávamos”.

A escritora, humorista e contadora de casos Lebowitz e o cineasta Scorsese, ganhador do Oscar, estavam falando de suas casas em Nova York para discutir sua mais recente colaboração, a série de documentários “Faz de Conta que NY É uma Cidade”. Os dois são amigos há muito tempo e, por estarem esperando o fim da pandemia do coronavírus, não puderam se ver muito, ou ver muito da cidade com a qual estão inequivocamente associados.

Um tom agridoce, parecido com o de sua conversa, permeia a série de sete episódios, que a Netflix acaba de lançar. Ela dá seguimento a um filme de não ficção que Scorsese lançou em 2010, “Public Speaking”.

Em “Faz de Conta que NY É uma Cidade”, Scorsese, o diretor dos episódios, registra Lebowitz em entrevistas acerbas, palestras e passeios pela cidade de Nova York, nos quais ela conta história de sua vida e fala sobre como vê a constante evolução da cidade nas últimas décadas.

A série para a Netflix foi iniciada antes da pandemia, é claro, e Lebowitz e Scorsese estão certamente conscientes de que ela retrata uma Nova York viva e enérgica, que agora estar fora de alcance –e que ambos esperam não demore a retornar.

Enquanto isso, “Faz de Conta que NY É uma Cidade” oferece um retrato hipnótico de Nova York a pleno vapor, acompanhado pelos comentários vivazes e sarcásticos de Lebowitz sobre o que significa viver na cidade.

Como ela disse, “não me importo que as pessoas concordem ou não comigo". "Meu sentimento é o de que, se a pessoa não concorda comigo, tudo bem, ela está errada. Isso é uma coisa que nunca me preocupou.” Scorsese acrescenta, gentilmente, “é, essa é a impressão que eu sempre tive”.

Lebowitz e Scorsese falaram mais sobre a realização de “Faz de Conta que NY É uma Cidade” e o impacto que a pandemia teve sobre eles.

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Fiquei surpreso ao descobrir, assistindo à série, que vocês dois não se lembram quando se conheceram.
Lebowitz:
Isso é porque somos velhos e temos muitos amigos. Não quero dizer velhos no sentido de não nos lembrarmos das coisas, porque acredito que nós dois temos memórias perfeitas. Mas porque tantos anos se passaram, e conhecemos tanta gente. Acho que nos conhecemos numa festa, por que onde mais poderíamos ter nos conhecido? Obviamente, vou a muito mais festas do que Marty. É por isso que Marty fez tantos filmes e Fran escreveu tão poucos livros.
Scorsese: Nossa conversa mais longa, que eu me lembre, foi na festa de 50º aniversário de John Waters. Logo depois que “Cassino” saiu.
Lebowitz: Claro, você não detestou ser informado sobre o quanto gostei do filme.
Scorsese: Não, não detestei, mesmo.
Lebowitz: Mesmo que eu não seja tão italiana quanto você talvez imagine, os pais de Marty e muitos dos parentes do meu pai –todos judeus de classe trabalhadora– apresentam paralelos bem conhecidos. A diferença é que a comida é melhor nas casas italianas.
Scorsese: Nós gostávamos mais da comida judaica.
Lebowitz: Não, não há nem comparação.

Depois de trabalharem juntos em 'Public Speaking', o que fez com que vocês desejassem colaborar em um novo projeto de documentários?
Scorsese:
Eu gostei de fazer “Public Speaking”. Foi libertador, em termos de narrativa. Mas o melhor era estar em companhia de Fran. Eu realmente tenho vontade de saber o que ela pensa, todos os dias, na hora em que acontece. Gosto de a ouvir comentando sobre tudo, não o tempo todo, mas de um jeito que eu possa acompanhar quando quiser, durante o dia.

Algum de vocês se preocupa com a possibilidade de que Fran seja um recurso finito e que sua fonte de humor venha a secar?
Lebowitz:
Você quer saber se me preocupo com a possibilidade de um dia não ter o que dizer? Não. O que me preocupa é um dia não ter dinheiro. Mas jamais me ocorreu que eu pudesse não ter o que dizer. As coisas estão sempre lá, esperando que eu diga. É como ter um dedo esquisito.

A série se divide em capítulos fantasiosos como 'questões culturais' e 'departamento de esportes e saúde'. Como vocês definiram os temas?
Scorsese:
Nossa opinião desde o começo era a de que precisávamos de tópicos. Ela começa falando de um tópico e aí vem o improviso, como no jazz, para a levar a mil outros lugares. E por fim nós tentamos reconduzir a conversa ao tópico. Em muitos dos filmes que faço, e com os atores com quem costumo trabalhar, o diálogo funciona como música –uma questão de timing e de ênfase. Ela tem isso naturalmente.
Lebowitz: É claro, eu sou a rainha das digressões, mas o que você realmente vê em ação é a edição. Não me lembro de quantos dias passamos gravando, mas tenho certeza de que foi um tempo infinitesimal comparado com o tempo que ele gastou na edição.
Scorsese: Tento encontrar esse tipo de liberdade nos meus filmes narrativos, mas muitas vezes fico preso a uma trama.
Lebowitz: Eu não tenho trama, e assim, sem problemas.

Entre as locações nas quais vocês filmaram Fran, está o Queens Museum, onde a vemos ao lado do 'Panorama da Cidade de Nova York', uma maquete altamente detalhada que Robert Moses fez construir para a Feira Mundial de 1964. Como foi gravar lá?
Lebowitz:
Eu derrubei a ponte do Queensboro. O sujeito encarregado, no dia em que gravamos lá, passou o tempo todo em pânico. E eu provei que ele tinha motivo.
Scorsese: Foi a única vez na minha vida em que eu gritei “ação”. Não sei que diabos aconteceu. Isso a deve ter assustado, acho.
Lebowitz: Não destruí a ponte, só a derrubei.
Scorsese: Aliás, é magnífica aquela maquete.
Lebowitz: Não sei se isso serve para compensar Robert Moses. Faz você perceber que, se Robert Moses tivesse feito tudo em miniatura, não teríamos motivo para odiar Robert Moses.

Como a pandemia afetou a realização da série?
Lebowitz:
Nós gravamos muito antes do vírus. Quando o vírus aconteceu, Marty perguntou “o que devemos fazer, o que podemos fazer?”. No pico da paralisação, saí caminhando pela cidade e Marty enviou Ellen Kuras [diretora de fotografia em “Faz de Conta que NY É uma Cidade”] para me acompanhar. O que ela filmou é belíssimo. Mas eu disse a Marty que achava melhor ignorar aquelas imagens.
Scorsese: Nós tentamos. Editamos algumas sequências. Ficou OK, mas, uma semana depois, a cidade mudou de novo. As lojas todas estavam fechadas, as vitrines protegidas por madeira. E uma semana mais tarde, mais alguma coisa mudou. E aí decidi que era melhor parar.
Lebowitz: Não somos jornalistas. Não temos de acompanhar o noticiário.

A série parece diferente por causa da pandemia?
Lebowitz: Com certeza existe uma diferença. Pensei no título “Faz de Conta que NY É uma Cidade” quando Nova York estava repleta de paspalhos que paravam no meio da calçada, e eu gritava “anda, faz de conta que isso é uma cidade”, para eles. Um dos meus agentes disse que “é uma carta de amor a Nova York”. Antes do vírus, era eu me queixando de Nova York. Agora as pessoas acreditam que tenha um significado mais lírico, metafórico.

Vocês se preocupam que Nova York não volte a ser o que era antes da pandemia?
Lebowitz: Vivo em Nova York há tempo suficiente para saber que a cidade não permanecerá do jeito que é agora. Não existe um metro quadrado em Nova York, um metro quadrado, que seja igual ao que era quando vim para cá, em 1970. É isso que uma cidade é, mesmo sem a peste. Mas eu gostaria de apontar que havia muitas coisas erradas aqui, antes da pandemia. Depois dos grandes protestos no SoHo, vi um repórter entrevistar uma mulher, gerente de uma das lojas finas que existem lá. O repórter perguntou o que ela ia fazer, e ela respondeu que “não há o que possamos fazer até os turistas voltarem”. E eu gritei para a TV. “Mesmo? Você não consegue imaginar o que fazer com o SoHo sem os turistas? Eu consigo! Vou lhe dar algumas ideias.” Porque eu me lembro do SoHo sem turistas. Por que não deixar que artistas morem lá? Por que não ter aluguéis de menos de US$ 190 mil por mês? Que tal isso? Vamos tentar?

A pandemia os fez se verem como mais vulneráveis ou os conscientizou mais de sua fragilidade?
Lebowitz: A pandemia me deixou mais zangada. Por sorte, consigo destilar todas as emoções humanas em forma de raiva. Não importa qual seja a emoção inicial –pode ser desespero, tristeza, medo–, para mim, se converte em raiva. E o que me fez sentir raiva é que nada disso precisava ter acontecido.
Scorsese: Eu na verdade não sei qual é meu lugar na ilha. Cresci no centro, quando a região era bem durona. Agora se tornou elegante. Certamente não tem mais cara de lar, para mim. Envelheci e, saí fora, de alguma maneira. Estou em lockdown e trabalho usando o FaceTime. Estou tentando fazer um filme [“Killers of the Flower Moon”], desde março. A cada dois dias, me dizem que vamos poder começar. E aí dizem que não, não podemos. É um estado de tensão e ansiedade. Mas de qualquer forma não tenho saído muito. Não é um risco que eu possa correr.

No dia que a pandemia acabar –em que não houver mais qualquer risco de contaminação e pudermos voltar às nossas vidas normais– qual será a primeira coisa que vocês vão fazer?
Scorsese: Para mim, a primeira coisa seria ir a um restaurante, por favor. Estou sentindo falta de alguns deles. Eu não gosto de me sentar numa mesa ao ar livre. Não entendo como você pode comer lá, com a fumaça do escapamento dos ônibus em volta. Não entendo. Não estamos em Paris.
Lebowitz: Já eu me sento ao ar livre para comer. Não há prova maior de o quanto odeio cozinhar do que eu me dispor a me sentar ao ar livre num dia com temperatura de dois graus negativos e tentar comer de luvas. Eu gostaria de poder comer em um restaurante. Também gostaria de engatinhar por baixo das mesas na sala de livros raros da Strand [famosa loja nova-iorquina de livros usados] e, quando eu levasse os livros ao caixa, o cara perguntaria “mas onde você achou esse livro?”. E eu responderia que foi embaixo da mesa. “Mas ainda não tem preço! Você não deveria ter apanhado o livro lá.” Bem, peguei; quanto custa?

Tradução de Paulo Migliacci

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