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Por que Steven Soderbergh, de 'Contágio', atravessou o Atlântico com Meryl Streep

Diretor, que lança 'Let Them All Talk', com a atriz, diz estar obcecado por produções pequenas, que cabem na mochila

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Matthew Kitchen
The Wall Street Journal

Não existe orçamento alto demais ou baixo demais para assustar Steven Soderbergh, que passou décadas dirigindo filmes de toda espécie, de clássicos do cinema independente como “Sexo, Mentiras e Videotape” a dramas premiados como “Traffic” e blockbusters como “Onze Homens e um Segredo”. Tudo que ele pede é que a filmagem seja assustadora, de maneiras interessantes.

“Precisa haver alguma coisa no projeto que me assuste, alguma coisa que me cause ansiedade, que me faça sentir que, uau, se esse aspecto da produção não funcionar, estaremos encrencados”, disse Soderbergh, de 57 anos, de sua casa em Los Angeles. “É isso que me mantém alerta e sempre em busca de oportunidades de resolver problemas.”

Para seu filme mais recente, “Let Them All Talk”, produzido pela HBO Max com Meryl Streep e Lucas Hedges, Soderbergh desafiou a equipe a gravar 80% do filme em oito dias, durante uma travessia do Atlântico no navio Queen Mary Dois. Quase todo o equipamento de que ele precisava coube facilmente em dois contêineres rolantes.

“Foi um lembrete de que você não precisa de tanta coisa assim”, disse ele. “Se você tiver uma história, e bons atores, com a tecnologia disponível agora é possível fazer alguma coisa com uma aparência maravilhosa a nenhum custo.”

Abaixo, o diretor fala sobre suas lições de casa cinematográfica e sobre o preço de produzir filmes.

*

O que você procura como cineasta? Liberdade e ímpeto. Filmar com um iPhone me deu isso. Eu queria a capacidade de colocar a lente em qualquer lugar, em segundos. Gosto disso em “Distúrbio” e “High Flying Bird”. O departamento inteiro de câmera cabia em uma mochila, essa sensação de ser amador.

Se você não sabe onde colocar a câmera, o que faz? Não faz diferença que tipo de equipamento você tenha para registrar a imagem. Não importa que você tenha uma câmera Imax. Se ela não estiver no lugar certo, não fará diferença.

Complete 'felizmente...' A Red, fabricante de câmeras, lançou um novo chassi chamado Komodo. É muito, muito, muito pequeno. “Let Them All Talk” foi a primeira filmagem em que pude usar. Literalmente, usei os protótipos.

Qual é o efeito de dispor de equipamento tão pequeno sobre as etapas posteriores de trabalho? É bastante significativo, porque significa que todos os sustentáculos de que você precisa para essas câmeras encolhem. Assim, os tripés são menores, e uso uma cadeira de rodas com estabilizador, na função de dolly. E tudo se torna muito mais administrável em espaços que em muitos casos são bastante apertados.

Homem branco careca com óculos de grau em tapete vermelho
Cineasta Steven Soderbergh na 68ª edição do Festival de Veneza, em 2 de setembro de 2011 - Giuseppe Cacace/AFP

Se você achasse que há uma determinada tomada que não tem como conseguir de outro modo, o que faria? Eu talvez voltasse a filmar em celuloide. Mas muito provavelmente não em 35 milímetros. Filmaria em 16 milímetros, ou mesmo em Super Oito. A tecnologia que existe agora para manipular imagens e realizar a pós-produção é ridiculamente sofisticada.

O que é exatamente inspirar a nova geração de cineastas? Um subproduto de realizar projetos pequenos, ótimo. Mas essa é uma mensagem que na verdade envio a mim mesmo, um lembrete de que todas aquelas coisas não são mesmo necessárias. Se você tem uma história, se tem bons atores, pode fazer alguma coisa que parece maravilhosa a custo quase zero com a tecnologia atual.

O que você faz nas suas folgas? Colagens. Em minha casa em Los Angeles, tenho uma de 1,8 metro por 2,7 metros, feita com imagens de pessoas do cinema extraídas de jornais sensacionalistas. É muito detalhada.

E quando começou essa sua mania de fazer colagens? Comprei algumas revistas no aeroporto para matar o tempo —Us Weekly, People, esse tipo de coisa. Fiquei lá sentado pensando que “passo muito tempo olhando esse tipo de imagem, preciso fazer alguma coisa com isso”. E portanto passei seis meses compilando e cortando imagens desse tipo de revista. E depois passei mais seis meses construindo a colagem. Isso me curou de voltar a querer pegar uma daquelas revistas.

E de onde surgem os elementos da colagem? Uma caixa de imagens que eu defino como imagens “bling” –relógios, bolsas, sapatos, anúncios recortados de revistas, todos de produtos caros. Faço uma colagem de produtos de luxo.

Se fosse para falar algo que você não tem de jeito nenhum, o que falaria? Inveja de aquisição. Edito meus filmes em um MacBook Pro de 13 polegadas, e aí comecei a olhar os novos laptops da Apple e perguntar se eles realmente seriam melhores para mim. Porque, se não forem, estou bem satisfeito com aquilo que tenho. Por fim decidi não mudar.

O que fez no lockdown? Terminai de remasterizar e em alguns casos reeditar completamente filmes meus cujos direitos reverteram ao meu controle. Trabalhei durante toda a quarentena para os deixar prontos para um pacote de filmes que pretendo lançar em breve.

Como é a sua nova edição do filme 'Kafka'? Bem drástica. É um filme diferente com um título diferente, completamente repensado. Outros, como “Full Frontal” e “Schizopolis”, eu só reduzi. Quando volto a um filme para reconsiderar, em geral não é porque sinta que falta alguma coisa, e sim porque acho que ele poderia ser mais enxuto.

E qual é o esquema do seu home theater? Bem sólido. Tenho uma TV LG OLED de 77 polegadas, e alguém da empresa de pós-produção com quem trabalhamos veio para instalar do jeito certo. Os modelos grandes da LG agora estão se tornando a referência mesmo nas empresas de pós-produção. Mas muita gente talvez se incomode ao saber que, apesar da tela grande, eu não faço coisa alguma para melhorar o som. Isso é embaraçoso.

O que você descobre ao assistir a um filme? É impossível para mim desligar o filtro de avaliação do trabalho do cineasta. Tenho mais chance de me perder em alguma coisa se for novidade e eu não souber o que vem a seguir, algo que me empolgue. Mas, tipicamente, se aquilo que eu estiver vendo não for novo, provavelmente será parte de alguma lição de casa que preciso fazer quando começo a pensar num filme novo.

Sobre o que é 'Let Them All Talk'? Finais e sobre uma forma de viver que teria de mudar. Assisti a “A Regra do Jogo”, de Jean Renoir, como lição de casa, porque era um dos filmes que retratam muito bem aquele sentimento. E Renoir tinha uma visão aguçada do comportamento humano, mas também era muito generoso com relação aos seus personagens. Ele não ocultava os aspectos ridículos ou destrutivos, mas o fazia sem maldade.

Você acha que as salas de cinema vão voltar? Sim, mas não sei quando. O setor de entretenimento ainda depende do modelo de um filme que absolutamente exploda nas bilheterias. Aquele sucesso de US$ 2 bilhões é uma forma de atrair as pessoas de volta à mesa de jogo para continuar fazendo filmes.

O que o streaming não mudou a sua maneira de fazer? Fazer filmes. Em nada. Não filmo um número maior de cenas em close porque sei que as pessoas assistirão na TV. Minha atitude é a de que eu preferiria ver uma tomada maravilhosa numa tela pequena do que uma tomada medíocre numa tela gigantesca.

Uma coisa pela qual não espero é permissão. Se você tem o impulso de criar algo, crie. Não fique sentado pensando que não vai dar certo porque você não tem isso ou não tem aquilo.

Complete 'se você tem um smartphone, você...' Já está no negócio do cinema. E acho que isso é ótimo. Certamente resolve o problema do que responder quando as pessoas me abordam para perguntar como entrar no ramo.

O que Robert Bresson diz em 'Notes on the Cinematographer'? Aqueles que trabalham com menos podem aprender a trabalhar com mais. Mas aqueles que trabalham com o máximo jamais aprenderão a trabalhar com o mínimo. Por isso, acho que sua maneira de operar e o sucesso que você encontra tem muito a ver com a maneira pela qual você começou.

Tradução Paulo Migliacci

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