Descrição de chapéu

Rostos mutilados de Kader Attia espelham a vida de agora e de antes

Mostra do artista no Sesc Pompeia vê raiz do horror atual no choque entre impérios e nas vanguardas modernas

Obra do artista franco-argelino Kader Attia na mostra 'Irreparáveis Reparos', no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Obra do artista franco-argelino Kader Attia na mostra 'Irreparáveis Reparos', no Sesc Pompeia, em São Paulo. Dih Lemos/Divulgação

Kader Attia

  • Quando Até 30/1
  • Onde Sesc Pompeia - r. Clélia, 93, São Paulo
  • Preço Grátis - agendamento em sescsp.org.br
  • Classificação 14 anos

Kader Attia quer encher os nossos olhos de horror. Não de uma vez, como um tiro no céu da boca, mas no passo devagar, ardido da tortura —um dente arrancado, um osso quebrado, a pele queimada.

Os sussurros das primeiras salas da mostra desse artista francês agora no Sesc Pompeia se transformam em gritos no fim do labirinto, os decibéis aumentando em resposta às atrocidades desveladas.

É nítida a estratégia da alemã Carolin Köchling por trás da montagem, um tanto anódina, que forra um dos galpões do lugar com uma sequência de espaços brancos artificiais. Primeiro a elegância de uma série de colagens, depois flagras espontâneos da vida das prostitutas imigrantes nas ruas de Paris, filmes de pegada documental. Então vem a apoteose dos corpos, estátuas calcinadas e, depois, mutiladas.

Mas o horror, Attia parece dizer, nos persegue e está em tudo, mesmo nas linhas arrojadas da arquitetura de Le Corbusier e Niemeyer. Sua primeira sequência de trabalhos ali tira de contexto esses prédios monumentais de concreto e estampa seus contornos robustos sobre um fundo bege ao lado de cenas da precariedade da vida em lugares que sonharam —e fracassaram— diante da utopia moderna.

Essas colagens operam um desenraizamento dessas formas, denunciam o imperialismo de uma vanguarda que viu nas ex-colônias na primeira metade do século passado um playground virgem e fértil para a implantação da nova ordem. Fantasmas brutalistas, o Memorial JK, em Brasília, ou o skyline vítreo de Nova York formam horizontes opressores sobre rapazes de pele escura e o lixo nas ruas.

Entre uma e outra paisagem urbana dissecada, painéis de formas geométricas coloridas inundam de falsa luz lounges de aeroporto, esses não lugares de transição que na crise dos refugiados passaram a lembrar mais barreiras e prisões do que portas de acesso.

Attia, um dos nomes mais relevantes da arte atual com forte passagem pela Documenta, em Kassel, na Alemanha, aqui ataca em várias frentes um drama humano envolto na crise estética herdada da violência do delírio moderno.

O desenraizamento se descola da arquitetura e gruda na pele noutra sequência. As garotas de programa, muitas delas transexuais, a maioria de ascendência árabe como ele, posam na intimidade de seus quartos para depois surgirem em protestos pelas ruas de uma cidade que não as quer ali. É o corpo num embate com o mundo ao seu redor.

Essa ideia de mundo cindido se torna explícita em trabalhos de fôlego mais curto, um tanto alegóricos, como um espelho rachado e então suturado, tal qual um corpo na mesa cirúrgica, ou uma esfera de retalhos de metal colorido de um lado e espelhado do outro —sim, não é de hoje que habitamos um pedregulho rachado por diferenças tão arbitrárias quanto ferozes.

O fôlego volta no curto filme sobre um pássaro australiano capaz de imitar os sons, mesmo os mais artificiais, do mundo que o ameaça, do rugido de uma motosserra ao clique mecânico de uma câmera fotográfica. Attia documenta a camuflagem sonora em chave dúbia —seria esse um mecanismo de defesa ou sinal de uma modernidade que moldou sem volta a natureza à sua semelhança?

Os próximos passos indicam que os danos são mesmo irreversíveis, os tais “Irreparáveis Reparos” que batizam a mostra. Se numa sala um documentário mostra relatos de médicos que se esforçam para explicar por que pacientes que tiveram partes do corpo amputadas ainda sentem braços ou pernas ausentes, os membros fantasmas, outra sala está cheia de estátuas queimadas, elas também com partes do corpo perdidas.

Obra do artista franco-argelino Kader Attia exibida na mostra 'Irreparáveis Reparos', no Sesc Pompeia
Obra do artista franco-argelino Kader Attia exibida na mostra 'Irreparáveis Reparos', no Sesc Pompeia - Dih Lemos/Divulgação

São máscaras africanas, daquelas que inspiraram a geometria dura de Picasso, os rostos amendoados de Modigliani, as figuras esqueléticas de Giacometti, rendidas, reduzidas a pó no fim de um massacre. Tudo ali parece esvaziado pelo fetiche, uma sombra ou fantasma daquilo que foi.

Attia então volta no tempo, esse mesmo alvorecer do século passado, para esculpir na madeira grandes bustos de soldados desfigurados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, o conflito que inaugurou uma era que vemos agora chegar ao fim com a atual pandemia e novos levantes da extrema direita.

Seus antimonumentos, carrancas sinistras que escancaram todo o horror de que o homem é capaz, formam ali um batalhão mudo diante de uma projeção de cenas do filme “J’Accuse”, de Abel Gance.

Obra de Kader Attia exibida na mostra 'Irreparáveis Reparos'
Obra de Kader Attia exibida na mostra 'Irreparáveis Reparos' - Dih Lemos/Divulgação

Na tela, marcham os veteranos mutilados por aquela mesma guerra como hordas zumbis. O cineasta alterna entre o plano fechado do que sobrou do rosto de um homem, um amontoado de carne com os olhos perdidos, e o plano aberto das tropas sem rumo.

No atrito entre os fantasmas do passado e as turbas deformadas de agora, Attia encerra sua alegoria da morte. Nosso pesadelo, ele diz, se ancora firme no choque entre impérios iludidos por um ideal de beleza que ainda movimenta fábricas de horror infinito.

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