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Stylist de Taís Araújo vítima de racismo diz que surpresa é o negro tratado com respeito

A produtora Naiara Albuquerque afirma que destrato com trabalhadores negros dos bastidores da moda é corriqueiro

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São Paulo

Quando a produtora de moda Naiara Albuquerque, de 29 anos, chegou à loja da grife Lool no shopping Iguatemi, em São Paulo, a ideia era levar até seis acessórios em tons terrosos para adornar os figurinos da atriz Taís Araújo na série “Aruanas”, da TV Globo. Em vez de brincos, pulseiras e colares, ela diz, levou embora apenas “desdém, descaso e desrespeito". "Racismo mesmo.”

Naquele início de tarde da última quinta-feira, a stylist teria percebido que quando a vendedora não a deixou exercer seu ofício de entrar no espaço, escolher e retirar as peças, fruto de uma negociação já acordada anteriormente com a grife, estava sendo vítima de um crime.

O caso foi revelado pela colunista Mônica Bergamo e ilumina uma prática mantida às sombras dos flashes do setor. Enquanto o racismo com modelos negras costuma acontecer nas reiteradas negativas em seleções, profissionais não brancos dos bastidores são escancaradamente destratados em seu trabalho. Para quem quiser ver.

Assim como ocorreu em julho do ano passado com o editor da Vogue britânica, Edward Enninful, incitado por um segurança da editora Condé Nast a usar a entrada de cargas para exercer sua função de chefe, Albuquerque também teria ficado do lado de fora sendo humilhada em praça pública.

Quando resolveu entrar, depois de ouvir repetidas vezes o “volte outra hora”, conta, uma das clientes teria pedido à vendedora para que ela atendesse a stylist. A resposta –uma revirada de olhos e mãos abanando na direção da profissional.

“Senti indignação, revolta, e naquele momento já havia concluído que havia sofrido racismo. Em nenhum momento eu representei ameaça, mas ela viu em mim uma ameaça. Contra o que, eu não sei, porque isso ela precisaria responder”, diz.

Ela explica que esse tipo de tratamento direcionado aos negros acontece principalmente no trato com grifes grandes e de renome. “Nesses casos, corriqueiros, nós profissionais pretos já vamos preparados. Quando ocorre o contrário [um tratamento digno] é uma surpresa.”

Mesmo para ela, que passou um ano fazendo assistência de styling para a cantora Anitta, vestiu de Ludmilla a Karol Conká e de Gaby Amarantos à musa rapper Tássia Reis –para a qual, hoje, trabalha de forma fixa. “Mas, comigo, resolvi não deixar passar impune.”

As medidas judiciais estão sob sigilo e guarda das advogadas Juliana Souza e Silvia Souza. Os detalhes da conversa de Naiara Albuquerque com Luiza Setúbal, dona da Lool, não foram explicados, tampouco as reparações pleiteadas por ela.

Em comunicado publicado em sua conta no Instagram, a marca pediu desculpas e agradeceu à stylist “a oportunidade de construir uma parceria”, ainda não especificada.

Afora o trabalho de criar produções para celebridades e colaborar com projetos audiovisuais, vale dizer que Albuquerque é sócia da advogada, ativista e empresária Eliane Dias e de sua filha com o rapper Mano Brown, a atriz Domenica Dias, na marca de “streetwear” Yebo.

Incensada como contraponto feminino ao viés masculinizado da roupa urbana, a grife do trio ganhará nova coleção em fevereiro. A ideia surgiu, de acordo com a stylist, quando perceberam que “a roupa masculina pauta o estilo das mulheres pretas” que, como ela, consomem a música e a moda de rua composta por camisões, calças largas e outras peças idealizadas para os homens.

É pela urgência do desejo de não se adaptar ao que é ofertado e, assim, quebrar a roda de exclusão à qual os negros são submetidos em diferentes esferas de suas vidas que a stylist age.

Segundo ela, é hora de construir bases para que relatos de racismo como o dela não aconteçam mais e para que “as pessoas normalizem os negros nos espaços da branquitude, que é normal haver uma stylist preta, uma fotógrafa preta, uma editora de moda preta”.

“Não é possível que num país de maioria preta as pessoas não enxerguem que algo está faltando. Não é esquisito, é errado mesmo”, afirma. “A mudança tem de ser amanhã, não daqui dois, três anos. Amanhã.”

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