Descrição de chapéu Cinema

Sundance traz filmes sobre o fim do mundo e 'Nuvem Rosa', que previu isolamento

Drama brasileiro mostra embate do casal forçado a ficar junto e peculiaridades que acabaram adotadas no mundo real

Mulher deitada olha nuvem rosa pela janela

Renata de Lélis em cena do filme 'A Nuvem Rosa', de Iuli Gerbase Divulgação

São Paulo

Quando o lockdown bateu, no começo de 2020, Renata de Lélis teve um déjà-vu. A atriz gaúcha havia passado quatro semanas do ano retrasado rodando um filme no qual a sua personagem fica trancafiada por anos num apartamento de Porto Alegre. Ninguém podia sair de casa porque algo lá fora, no ar das cidades do mundo todo, estava matando a população.

Qualquer semelhança com a situação atual é mera coincidência. A história veio da cabeça da diretora e roteirista Iuli Gerbase quando ela terminava o seu mestrado em 2017. No ano passado, enquanto os números de mortos por Covid escalavam, ela terminava de montar “Nuvem Rosa”, seu primeiro longa-metragem.

“No início do lockdown de verdade, foi muito chocante, meio assustador. A gente tinha acabado de filmar isso”, diz a atriz Renata de Lélis, que vive uma personagem presa em sua casa com um homem que conheceu numa festa na véspera. “Também foi engraçado porque as pessoas que sabiam do filme, mas ainda não tinham visto, vinham me perguntar o que acontece. Elas queriam saber o futuro.”

A nuvem rosa do título flutua de um jeito poético, mas mata em dez segundos. O filme trata da solidão e do desespero do isolamento, do embate do casal forçado a ficar junto, e prevê peculiaridades que acabaram adotadas no mundo real. Há a onipresença das telas, a comunicação entre janelas e até os que conseguem ver na nuvem algo positivo.

Giovana, a personagem principal, consegue seguir como designer, enquanto Yago, vivido por Eduardo Mendonça, perde a fonte de renda já que é massagista. O pai dele é doente e fica preso com seu cuidador, enquanto ela vê a sobrinha presa com as amiguinhas na casa de um pai solteiro. Ela surta com o isolamento, ele dá a ideia de ter filhos.

“Eles acharam que estavam rodando um filme de fantasia, mas acabaram fazendo um documentário”, brincou Tabitha Jackson, diretora do Festival Sundance, onde o filme faz sua estreia nesta semana, numa edição praticamente virtual. Ali, “Nuvem Rosa” não será o único trabalho na seleção a falar de pandemia, isolamento e fim do mundo.

Segundo a diretora Iuli Gerbase, a ideia era mesmo fazer um “filme de ficção científica surrealista”, de olho no manifesto Dogma 95, movimento dinamarquês dos anos 1990 que pregava limitações
criativas para fazer um cinema mais realista. Outra referência foi o clássico “O Anjo Exterminador”, feito pelo espanhol Luis Buñuel, no qual os personagens não conseguem deixar a sala de uma mansão.

“Queria explorar o relacionamento e a diferença entre os dois ao reagir ao confinamento. Precisava de um motivo para o isolamento e queria algo surreal, inexplicável”, contou Gerbase, que, como acontece no filme, comemorou o aniversário de 30 anos numa festa no Zoom em 2020.

A nuvem rosa, lá nos idos de 2017, tinha então outro signifcado. “A nuvem tem uma cor bonita, parece inofensiva e vai prendendo a mulher nessa vida que ela não planejava. Era sobre a pressão da sociedade”, diz a diretora, que é filha do cineasta Carlos Gerbase.

Desde 2011, ela rodou seis curtas-metragens, dois deles exibidos nos festivais de Havana e Toronto. Agora, prepara um novo roteiro de ficção científica. Seus amigos brincam pedindo uma história sobre um mundo em paz, maravilhoso e feliz. “Já avisei que se virar realidade de novo, teremos um alien nos visitando.”

Sundance, que começa agora, é o festival mais importante de filmes independentes nos Estados Unidos. Acontece no auge do inverno americano em Park City, em Utah, rodeado por montanhas nevadas e gente carregando seus esquis.

Neste ano, será praticamente um evento virtual, com o lançamento de uma plataforma que vai transformar as salas de espera dos cinemas num jogo virtual, convertendo os espectadores em avatares. As sessões drive-in, agendadas para ocorrer em Los Angeles, foram canceladas.

O filme de abertura, “In the Same Breath”, será justamente um documentário que explora a origem e a disseminação da Covid em Wuhan, na China, e nos Estados Unidos. A diretora Nanfu Wang, de “One Child Nation”, que foi o vencedor de Sundance em 2019, diz querer revelar uma trama de mentiras e caos dos governos de ambos os países e trazer histórias pessoais de trabalhadores da saúde.

Outros dois documentários mostram como a vida mudou em 2020. “Homeroom” segue o último ano dos estudantes numa escola na Califórnia, enquanto “Life in a Day 2020” reúne registros de um único dia do ano de pessoas comuns espalhadas por 192 países. A obra repete a experiência do diretor Kevin Macdonald de 2010.

Filmes de ficção selecionados também abordam confinamento e fim do mundo, temas que acabaram mais próximos da realidade nos últimos meses. A atriz Robin Wright protagoniza e faz sua estreia na direção com “Land”, sobre uma mulher que decide deixar sua vida para atrás e se isolar numa cabana na floresta.

Em “John and the Hole”, um garoto prende seus pais e sua irmã num bunker inacabado que ele encontra num buraco. Já em “In the Earth”, um pesquisador precisa atravessar uma floresta para salvar a humanidade de um vírus mortal, enquanto “How It Ends” conta o último dia na Terra antes da chegada de um asteroide.

Destaques de SUNDANCE

"In the Same Breath"
Explora a origem da Covid

"Homeroom"
Segue uma escola na Califórnia em 2020

"Life in a Day 2020"
Registra a vida de pessoas em 192 países

"Land" 
Uma mulher decide se isolar na floresta

"In the Earth" 
Pesquisador precisa salvar a humanidade de um vírus

"How it Ends" 
Conta o último dia na Terra antes da chegada de um asteroide

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