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Livros

Vencedora do Jabuti, Cida Pedrosa une o épico com a cultura popular

Poesia de 'Solo para Vialejo' mistura visão individual e coletiva numa estrutura em que a música tem papel central

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Solo para Vialejo

  • Preço R$ 25
  • Autor Cida Pedrosa
  • Editora Cepe

Ao longo dos últimos anos, incluindo o fatídico 2020, tem surgido no Brasil uma produção riquíssima de livros de poesia. Parece que o gênero —nas suas mais diversas manifestações— tem conseguido nomear feridas sociais, elaborando o luto do tempo difícil em que vivemos.

Nesse sentido, não é surpresa que o grande vencedor do prêmio Jabuti deste ano tenha sido o livro “Solo para Vialejo”. Nele, a pernambucana Cida Pedrosa não traz uma versão cômoda da poesia como gênero. Ao contrário, ela a perturba, fazendo cruzar, de modo singular, registro épico, poesia visual e cultura popular.

De partida, o poema-livro formula uma versão sertaneja de Brasil, ao pôr em foco a violência com indígenas e negros no Nordeste. E aos poucos os versos vão se concentrando na travessia do litoral até o sertão.

Justo esse foi o percurso da população nativa ao fugir dos colonizadores, numa viagem que deixou rastro para que os negros também pudessem escapar. Diz o poema que “um deus branco e cruel que nos fez desejar/ caminhar em romaria rumo ao sertão”.

E quando tal deslocamento é pensado em meados do século 20, o sertão de Pedrosa se materializa em Bodocó, cidade natal da poeta, que passa a ser também uma espécie de alegoria do país.

Uma vez lá, os versos misturam as perspectivas coletiva e individual da personagem da autora, sempre privilegiando o ponto de vista múltiplo. E tal pluralidade se dá tanto nos registros —do prosaico à experimentação sonora— quanto na diversidade dos focos de enunciação.

Por falar em vozes, vale destacar a presença das muitas referências musicais, que, ao fim, constituem um grande acervo montado pelo livro. Povoam suas páginas Luiz Gonzaga, Etta James, Jackson do Pandeiro, Robert Johnson e também Mãe Hermínia, parteira da cidade que dedilhava a "Ave Maria" de Schubert nas missas.

Vale dizer ainda que “vialejo” é o nome da gaita que a poeta ganhou do pai na infância, mas que nunca aprendeu a tocar.

Partindo assim na direção das narrativas individuais, o papel central da música acaba por dar a ver a virada memorialística dos versos. Não à toa, o Clube Sociedade União Bodocoense, com suas festas e causos, se torna epicentro do poema.

Aliás, uma das histórias da cidade se refere justo à capa do livro, que traz uma foto antiga da Jazz-Band União Bodocoense. A autora se lança em busca de descobrir e homenagear os músicos ali presentes –“quem são estes cavaleiros do/ apocalipse new andarilhos de rostos/ apagados silenciados nas lembranças/ de uma cidade sem presente.”

A poeta esbarra, no entanto, nos limites da história oficial. Estão documentados os nomes dos músicos brancos, mas não o dos negros. “Cadê a linhagem dos negros que tocavam banjo?”, pergunta a poeta, e sua pergunta ecoa a rasura a que é constantemente submetida a memória da população negra no país.

Pensando nisso e na estrutura musical do livro, é interessante destacar que o início do poema retorna diversas vezes, se metamorfoseando ao longo das páginas. “Parto em busca de ti// negro ser” que vai se tornando apenas “negro ser”. Refrão que depois é repetido insistentemente até dizer “ser negra”.

A simples mudança de lugar do vocábulo “ser” também é uma mudança da classe gramatical que faz com que, no livro, a palavra “negra(o)” deixe de ser exclusivamente um estado e passe a ser também uma ação. Tanto uma tomada de consciência do poema, quanto um desejo de projeto de país.

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