Descrição de chapéu

Autor estreante Veny Santos escreve como um J. D. Salinger, só que a partir da periferia

O enunciado de suas narrativas se dá no contexto dos sem-nada e do sujeito jovem, face a seus desencontros

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Marilene Felinto

Um autor estreante, Veny Santos, e dois textos seus: um, inédito, “Nós na Garganta”; e o outro, publicado em 2017, “Batida do Caos”, edição do autor. Sem nenhum demérito a sua região de origem, ele escreve como um Salinger do clássico “O Apanhador no Campo de Centeio”, mas a partir da periferia da cidade de São Paulo.

O enunciado de suas narrativas se dá no contexto dos sem-nada, das “regiões periféricas” urbanas, e do sujeito jovem, face a face com seus desencontros, autodesencontros ou da busca por si mesmo.
O eu fragmentado dos textos já se revela na forma dos contos curtos, cujo personagem principal, uma espécie de si-mesmo, procura saída para além disso, no outro que lhe escapa ou no território para além da mãe, da casa, do bairro.

“Visito um amigo daqui outro de lá, jogo conversa fora na esperança de que eles me coloquem para dentro”, diz o narrador em “Foto de Família”. E continua, no linguajar cotidiano, coloquial-literário, no espírito de Holden Caulfield em “O Apanhador”: “Na casa dos outros eu vejo o que nunca vi na minha. Gente educada, marido com aliança de ouro dando beijo na testa da mulher. Mesa cheia, piadinha, tapa no ombro do garotão que fez aquela lição e tirou um dez. Daora sabe?”.

A dor do enjeitado pela condição social, certa depressão e medo são temáticas fundamentais nas histórias. E a esse conjunto de sentimentos soma-se o tema da revolta na jornada solitária da formação do jovem personagem que aparece como filho, irmão, amante no cenário dos contos.

Na revolta, o ponto alto desta escrita da rebelião dos excluídos: “O bairro já está pequeno demais para os meus problemas. Se a escola é uma bosta, foda-se, vou ter que voltar. Não tenho escolha. (...) O que eu quero mesmo é que a vida se curve diante de mim e peça perdão por todas as merdas que me trouxe”.

Bom de ler este escritor iniciante, observá-lo em seu laboratório, testando seleções de elementos, misturas, pequenas explosões e alguns acertos milagrosos. No conto “Vela”, um desses belos resultados da experiência lírica da tristeza.

homem careca com camisa colorida
O escritor Veny Santos - Divulgação

É a angústia da mãe que, à espera de que o filho volte vivo para casa —sobrevivente da rua violenta e mortal da periferia—, acende uma vela. A mãe reza e segura o choro: “Os ponteiros do sofrimento começam a correr (...). Fora de casa, o que vem primeiro é o choro —o nosso. O da mãe, ela segura. (...) Ao lado da vela acesa, desfazendo-se em lamento. Gotas e mais gotas de si mesma, vela e mãe se confundem. Uma chama pela vida do filho, outra chama pela própria morte. Unidas, mantêm-se aquecidas. (...). Encaram-se, trocam brilhos no olhar e lágrimas de sal e cera. Permanecem em vigília”.

No conto, “Páginas Pretas”, o recurso gráfico do fundo preto sob as letras brancas do texto revela o marcador de raça, transformado do “lugar-comum” da discriminação, da segregação, em estranhamento, em inusitada “nigrosina”, necessário efeito do acertado arranjo literário, em formato de poema: “Há nigrosina na minha visão, na minha saliva escassa, em tudo que cai para dentro/ Eu não quero viver, mas morrer seria ruim também/ Estou num ponto de intersecção entre a glória de existir e a vitória de morrer”.

No conto “Ensina-me a Nadar”, a angústia do jovem escritor em busca de expressão: “Passei muitos anos no mesmo quarto embolorado, cercado de folhas soltas cheias de ideias presas”. Mesma temática de “Os Silêncios”, em “Nós na Garganta”.

“São as vezes que me calei que ainda ecoam aqui dentro. O maldito não dito, a conversa muda, o falar pelos cotovelos impossibilitados de tocarem a boca. Tantas vezes que hoje contam à mente histórias não vividas, mentiras prontas, farsas. É isso que resta quando deixo de falar. Ainda bem que nunca deixo de escrever.”

Sim, ainda bem. Veny Santos é a assinatura literária de Vinicius Santos, jornalista e sociólogo de 34 anos. Seus livros só podem ser encontrados por encomenda no momento, diretamente com o autor (vinicius.ssantos87@gmail.com). Mas isso pouco importa. Como dizia Drummond em carta a João Cabral em 1942, importante é escrever. E “se lhe desagrada a opinião dos jornais e revistas [e de editores, digo eu], não publique para eles; publique para o povo”.

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